«Quem é que paga»
15/08/2016
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«Quem é que paga» e outras formas em que as questões de género criaram momentos estranhos nos encontros românticos

Bolas, o género lixou-nos bem no que diz respeito às regras de etiqueta num encontro romântico. Os homens é que fazem os convites, normalmente são eles que pagam, e tem de abrir as portas… É excelente para as mulheres, não tanto para os homens (na realidade, às vezes não é assim tão bom para as mulheres) e confuso para as lésbicas.

Se recebesse um cêntimo de cada vez que me perguntam «Quem é o homem e quem é a mulher?» ficaria rica. Dá-me vómitos, nem quero saber do raio dos cêntimos. Comparar casais de lésbicas (ou casais queer em geral) com relações heterossexuais é um assunto que dava para encher um livro, mas deixem-me resumir o que diz respeito a encontros românticos: faz com que os nossos papéis nas relações sejam mais difíceis de definir, porque numa estrutura heteronormativa estamos habituadas a que o homem esteja «no controlo», digamos assim.

Mas ninguém tem de ser «o homem» da relação. No entanto, é comum que uma tenha uma energia mais dominante para dar início. Uma de vocês tem de se chegar à frente e convidar a outra, terá de organizar o encontro. Isto leva a que seja mais complicado perceber quem é vai pagar, quem é que vai dar o primeiro passo e quem é que vai iniciar o contato depois do encontro. Parece complicado de perceber, mas prometo que é muito mais fácil do que aparenta.

 

Dicas de etiqueta de encontros românticos
1.    Acho que é de bom-tom que quem convida, pague. No entanto, se fores a pessoa convidada, é de boa educação ofereceres-te para pagar metade, e não te sintas ofendida se a pessoa aceitar. Saí algumas vezes com uma pessoa que dividia sempre a conta comigo, e isso dava comigo em doida porque parecia que éramos apenas amigas a tomar um copo. Sou fã assumida da alternância: eu pago este jantar, tu pagas o próximo. É como a regra de «quem é que convida». Se não tens dinheiro para pagar um jantar neste momento, convida a pessoa para ir a tua casa, assim podes cozinhar e não foges ao teu orçamento.

2.    Claro que lhe podes abrir a porta! Não tem nada que ver com ser «cavalheiresco», mas sim com ser uma pessoa simpática.

3.    Não fiques à espera que te convidem, convida tu! Se tens mais tendência a ser passiva, tudo bem, mas não deixes a oportunidade passar!

4.    Quando fores buscar a pessoa a casa, vai até à porta. Não mandes a mensagem do carro. Acredites ou não, abrir a porta do carro é algo muito positivo. Tem em atenção este tipo de pormenores quando estiveres num encontro. Anda ao lado dela, não à sua frente. Pede-lhe desculpa se não perceberes alguma coisa que ela disse. Lembra-te dos conselhos da tua mãe.

5.    Pode ser complicado quando nenhuma de vocês dá o passo de dar a mão, um beijo, etc. Manda a timidez passear! Vai passo a passo. O jogo de dar as mãos pode ser delicioso. Se estiveres a ir ao encontro dela e ela ao teu, vai com a corrente. Avalia a situação, vai devagar e não deixes que os nervos controlem a situação!

 

Perguntas de primeiro encontro
Se fores como eu, a verdade é que nem sabes o que dizer quando estás em frente a uma mulher bonita. A tua mente está a mil, mas não encontras nenhum tópico interessante para falar. Eu sei como é, já tive esse problema. Ainda o tenho! Mas encontrei uma forma fantástica de o combater: preparação.

Ir ao Google e procurar «perguntas de primeiro encontro» é embaraçoso, porém, é muito útil. Claro que, na maioria das vezes (se as coisas estiverem a correr bem), a conversa flui naturalmente e, às vezes, um silêncio natural até é bem-vindo e confortável, mas eu gosto de ter algumas perguntas preparadas só para o caso da conversa parar. Tenho-as nas «notas» do meu telemóvel e costumo dar uma vista de olhos quando estou num encontro (ou quando vou ao quarto de banho), mas memorizo algumas.

Apesar de poderem parecer forçadas ou ensaiadas, a verdade é que sempre tive sorte com elas! (Quero só reforçar que seria estranho ter uma lista física com as perguntas e tirá-la do bolso em frente da pessoa. Não faças isso! Tem uma cópia física para ti, mas faz as notas mentais antes.) Só é preciso uma ou duas para a conversa fluir. A resposta normalmente é um sorriso e uma resposta divertida. Aqui estão alguns exemplos das que uso:

1.    Ilha deserta: «Que 5 livros/CDs/filmes gostavas de levar para uma ilha deserta contigo?» Esta é uma pergunta clássica para conhecer alguém, e a maioria das vezes nem chego ao fim da lista porque ficamos a falar dos livros/música/filmes.

2.    «Se fosses organizar um jantar em tua casa e pudesses convidar X pessoas, vivas ou mortas, quem convidarias (e porquê)?» Outro clássico, se calhar um pouco usado de mais, mas sempre tive respostas divertidas.

3.    «Quais eram as tuas músicas preferidas quando eras adolescente?».

4.    «Costumas sonhar? Lembras-te de alguns sonhos que gostaste mesmo de ter? Sonhos recorrentes?».

5.    «Quando eras criança, o que é que querias ser quando crescesses?».

6.    «Se pudesses estar em qualquer lado do mundo, onde estarias?».

 

Quak é a ideia? Conhecer a pessoa. Não estás ali para falar de ti, no entanto, se a oportunidade surgir, não sejas tímida, partilha as tuas respostas! Quero salientar novamente o quão importante é ouvir. Com os dois ouvidos. Mesmo quando estamos a ser bem-educadas e ouvimos, a verdade é que normalmente entramos em modo de espera até ser a nossa vez de falar. Ela falou de alguma coisa sobre um filme que gosta e agora tu também queres falar disso. Não estejas a construir as frases na tua cabeça e espera até que acabe. É muito mais gratificante ficar no presente, a viver o momento. Espero que isto seja senso comum, mas não a interrompas! Deixa-a falar. É uma forma subtil de mostrar que o que ela diz é importante e que estás interessada.

Uma boa prática é devolver o que te disseram, ou fazer perguntas de acompanhamento. Por exemplo: «Eu gostei muito do filme “Um Amor Inevitável”.» «Eu também! Gostei muito da cena em que ele improvisa com a tarte de noz. Quais são as tuas cenas preferidas do filme?» Ou se nunca viste, «Oh, nunca o vi. Diz-me o que gostas no filme.» Ou «podíamos vê-lo um dia destes!» Estar efetivamente interessada no que a pessoa está a dizer dá frutos.

 

Tópicos a evitar num primeiro encontro
1.    Ex.: Quer dizer, não há problema se a conversa surgir naturalmente. (Acho que nunca estive num encontro em que uma ex não tenha surgido em algum sentido… será que é uma coisa de lésbicas?), porém, se possível, evita falar sobre ex. Especialmente se estás magoada. Pode ser um grande turn off para a outra pessoa.

2.    Referências muito sexuais. Correndo o risco de soar um pouco puritana, eu tinha cuidado com os tópicos sexuais. Há que, pelo menos, evitar o fator choque. Falar sobre sexo é normal e saudável desde que surja de forma natural. A pessoa pode não achar grande piada se perguntares de caras se gosta de usar dildos, por exemplo.

3.    Coisas que não queres numa relação. Dar ênfase às coisas negativas que queres evitar pode arruinar o mood de um encontro. Não queres uma nuvem negra a pairar sobre o que pode ou não estar a correr bem. Ou seja, se vais estar a dizer «Não consigo lidar com mais traições, foi demasiado. Já para não falar de desarrumação, não aguento isso. E ugh, se não tiver um emprego é para esquecer.», isso é muito pouco atraente. No geral, ser positiva e alegre é muito melhor.

 

Artigo retirado do livro

The Awkward Lesbian Guide to Dating

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