Teatro: O Sal de Marim
26/03/2017
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O Sal de Marim estreou no passado dia 23 de Março no Auditório Municipal de Albufeira – Algarve

Interpretações de Cátia Cassapo, Josefa Lima, Larisa Maria e Cheila Correia e apoio técnico de Miguel Martinho.

Um trabalho que parte da contemporaneidade para relevar a figura de Felipa de Sousa, a tavirense que dá nome ao principal Prémio Internacional dos Direitos dos Homossexuais.

Como pano de fundo, estão as sucessivas condenações das mulheres homossexuais desde o degredo de Marim, pelo Santo Ofício, passando pelas casas de correcção, as casas de saúde mental onde a prática mais comum era a dos choques eléctricos, até aos encarceramentos nas caves por parte das próprias famílias. O trabalho dramático resulta de pesquisas documentais e de testemunhos vivos de quem viveu essas realidades.

Estes testemunhos foram reunidos ao longo dos anos, por mulheres que me foram mais ou menos próximas… À excepção de uma, todas estão vivas. E espero que saibam que muito lhes agradeço; eu e todas as gerações que lhes sucedemos, independentemente da orientação sexual. Não são heroínas; as vítimas da Estupidez nunca são heroínas de nada digo: heroínas de nada; apenas sobreviventes. Como os da guerra. Mereciam também uma estátua nos jardins.

Texto e encenação: Luisa Monteiro

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Quando saltou para a comunicação social as dúvidas dos meninos e das meninas deste país, que na adolescência manifestam as suas dúvidas quanto à orientação sexual, são silenciadas com Ritalina… tive imensa vergonha do preconceito que ainda subsiste, enraizado, musculado. É certo que circula na tona a aparência dos que proferem opiniões politicamente correctas. Há um desfasamento enorme entre as acções e o que se diz. A discriminação velada está aí e pressente-se. Regra geral, estes temas, quando transmutados para a arte, dizem respeito mais aos homossexuais masculinos. As mulheres são mais reservadas. As meninas tomam mais Ritalina. E calam mais. E vão mais cedo que eles à “bruxa”, ou seja, o psicanalista, o psiquiatra; chega de depressão sem “causa” aparente.

Não podemos subtrair á vida a aparência. A homossexualidade feminina tem que ter aparência, tem que aparecer, não pode continuar a ser uma coisa de apartamento e de convívio de fim-de-semana entre pares. Não podemos subtrair á vida a aparência.

Veja… quando passa na rua uma pessoa de aparência um pouco extravagante, as opiniões surgem com um sorriso nos lábios; mas tratando-se de uma menina que use roupas de corte direito, que tenho os cabelos curtos… os olhos dos outros não vêm uma menina ou uma mulher: vêm o rótulo do seu próprio preconceito.

Toda a minha vida convivi, desde criança, com homossexuais. Uma vizinha minha namorava uma mulher casada em minha casa; porque se os pais e marido soubessem, haveria crime certamente; ainda não tinha acontecido o 25 de Abril e o obscurantismo, que era quase igual ao de hoje, embora com o suporte legal e religioso que a ditadura lhe prestava e aquelas duas mulheres não tinham qualquer espaço para estarem a sós… Os meus pais acolhiam-nas muito bem e até as deixavam a sós na sala, dizendo que não se poderia ali entrar, que estariam a ter uma conversa muito séria. Havia ainda um homem de traços efeminados que vendia rendas nuns dias, hortaliças noutros e foi vítima de crimes sucessivos… Os meus pais também o acolhiam muito bem e sempre o cumprimentavam na rua e ficavam a falar com ele. Vi o meu pai a passear com ele, a falar animadamente. O meu pai, lembro-me, vestiu-se numa noite e saiu de casa a correr, muito nervoso, porque estavam a apedrejar a casa de um casal de mulheres que era da nossa rua… Cresci sem este preconceito. E só quando cresci é que vi realmente o papo do bicho: devorador, sem dúvida.

E agora, que a idade não me oferece já muitas ilusões, deparo-me com imensos jovens que me falam tão tristes… dizem-se homossexuais e não queriam; e custa-lhes a aceitar e têm medo da reacção dos pais.

Porque veja-se, o sentimento de medo surge, em primeiro lugar quanto à própria vida. Na adolescência, surge a pergunta se os amigos do seu círculo de convivência se afastarão ou não… E hoje, os adolescentes convivem mais com os amigos do que com a família. E é o desconforto, o saber-se que para terem uma vida dita normal terão que dispensar muito mais esforço, que será sempre uma incógnita a reacção dos colegas de trabalho, dos vizinhos da sua rua, do seu clube, da sua família… Este é o primeiro choque: se a sua vida ficará em perigo de não ser feliz.

Não é rindo, nem caricaturando um afecto, um modo de amar, que contribuirá para a aceitação plena. A beleza contamina bem mais. Daí eu ter pegado neste assunto. Esta é a minha 38ª produção e é a segunda vez que me foco na questão da homossexualidade.

“As lágrimas” de Fassbinder não chega… É certo que aquelas personagens correspondem a uma certa tipologia dentro da homossexualidade feminina. Beber e deixar a doença do desconforto tornar-se crónica. Porém, impelem à piedade por aquelas personagens; e não tem que ser assim. Creio que as mulheres homossexuais estão muito sozinhas no nosso país. Fechadas. Isto não as defende em nada, na medida em que há muitos casais de namoradas ou em comunhão de facto ou mesmo casadas, onde a violência é imensa! O mundo levou-as a um certo isolamento, devido à insegurança e gerando ainda mais insegurança. São quase sempre fortes entre o grupo. Mas depois, portas fechadas e a sós, porque o universo é reduzido, a violência instala-se. Há muita violência mesmo, não falo concretamente da física, mas da perseguição, do controlo, da chantagem emocional, da tortura psicológica e há que pôr fim a isso.

Estamos profundamente sós.

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