SOU DEFICIENTE, E DEPOIS?
08/12/2016
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Deficiente, def, tecla 3. O que quiserem chamar. É a minha realidade. Sou deficiente. Mas sabem que mais? As pessoas conseguem ser preconceituosas com os próprios preconceitos. Ser-se deficiente não é uma ofensa, é um facto. O corpo humano não é perfeito, tem falhas.

No Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, a palavra deficiente define-se como um adjetivo e substantivo de dois géneros: «que ou quem apresenta deformação física ou insuficiência de uma função física ou mental; que ou quem apresenta uma deficiência.». E a verdade é esta: nasci com uma deformação num gene, uma mutação.

Sou uma mutante, how awesome is that?!

Na verdade, todos nós somos deficientes. Não de carácter, mas biologicamente falando. Todos temos genes ou células defeituosas. É tão comum hoje em dia encontrarmos pessoas com óculos, ou com “pequenas” dislexias. Pessoas com tendência para escolioses, pessoas com melhor ou pior coordenação. Indivíduos que envelhecem mais rapidamente… Como disse, o nosso corpo não é perfeito.

A diferença entre a normalidade e deficiência é pura e simplesmente estatística. Aliás, se analisarem bem, tudo ao nosso redor é estatística. O ser-se “normal” é a moda, é o número que se repete mais. Se toda a gente andasse de cadeira de rodas por exemplo, como eu, o “normal” era ser-se deficiente. Aqui a única diferença são os números, a quantidade de indivíduos com mutações genéticas graves que ressaltam à nossa vista. Resumindo, é estar-se em minoria. Mas será a minoria uma ofensa?

Gosto de olhar para a deficiência como ser-se diferente. Ser-se bold, destacado. Num rebanho de ovelha brancas, sou a preta.

Às vezes tenho medo de dizer que tenho orgulho em ser deficiente. Pensarão vocês “como podes ter orgulho em não conseguir andar? ou de não seres totalmente independente a respirar?”. Não tenho o mínimo orgulho das deficiências físicas que possuo. Tenho sim orgulho no que a deficiência e diferença me ensinaram. Se me dessem a escolher entre ter nascido “normal” ou ter nascido deficiente, teria recusado a primeira opção. Porquê? Simples, não seria a pessoa que sou hoje e não olharia para o mundo da mesma forma como hoje em dia. Gostava evidentemente de um dia ter direito a uma “cura”. Mas não algo que me apagasse as memórias da deficiência. De tudo o que vivi e aprendi. Aprendi a ser sensível e humilde. A ser humana. Aprendi a tolerar a dor e a angustia. Aprendi a viver com ansiedade e com depressão. Aprendi a seguir em frente e remar contra a maré. Riu-me mais do que choro. Sou uma gozona e sarcástica na verdade. A vida deu-me outros olhos, outro sentido. Um 7º sentido. (visto que sou mulher, lol)

Gostava que as pessoas pensassem mais na sua identidade e pessoa. Não se resumissem em ser ovelhas brancas. Existem tantas cores… A necessidade de nos encaixarmos em algo maior que nós é terrível. Desconstrói a nossa personalidade e individualidade. Falo por experiência própria. Até que descobri que ser-se diferente tem as suas vantagens. Obviamente que não me resumo à minha mutação genética. Aqui a diferença é que tirei partido dessa diferença para não ter medo de me assumir, como sou. De realçar outras capacidades minhas. De estar na tuna feminina da minha faculdade mesmo com todas as minhas dificuldades. De escrever sobre o meu percurso. De ter sido a deficiente que fez o maior flashmob português em homenagem a uma banda… Ou até de usar roupas extravagantes quando me apetece. Não há nada melhor na vida que sapatos brilhantes e chapéus.

As pessoas têm medo de ser diferentes, de não se enquadrarem em padrões. Quando na verdade, não existe uma única impressão digital igual. Não tenham medo de não serem iguais. Numa palete de cores têm tantas por onde escolher. Criem a vossa mistura, a vossa cor, o vosso ser.

Sejam diferentes, sejam ridículos. Realcem as vossas imperfeições e façam delas vossas companheiras de guerra e aliadas.

Se a vida fosse apenas cor-de-rosa não teria piada nenhuma.

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