Sobre a 18 Marcha de Orgulho LGBT de Lisboa.
22/06/2017
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Falar sobre este momento é falar do maior momento de reivindicação de direitos de pessoas com orientações sexuais, identidades e expressões de género dissidentes da norma no nosso país. É dizer que há um espaço histórico de reivindicação de direitos que é ocupado neste dia, neste momento, por pessoas que querem dizer ao mundo merecemos existir tão somente como todas as pessoas existem, nas nossas diferenças, nas nossas divergências, nas nossas dissidências.

Pensar que este dia era composto por um grupo pequeno de pessoas que se reunia num parque, numa zona não tão pública ou visível da cidade este grupo não marchava, e ocupava um espaço bastante pequeno. Pensar que entretanto este espaço mudou e hoje já se marcha e marcha-se com 10 mil pessoas, LGB, Trans, queer, intersexo, dissidentes de género de lábios pintados de vermelho, peito ao léu, e vozes no céu.

-Sim, sim, sim direitos também são para mim.

Hoje, quero falar sobre este momento porque pela primeira vez, depois de muitos anos de ativismo, integrei o grupo de pessoas que representam as organizações que constroem a Marcha do Orgulho LGBT de Lisboa. A Marcha é uma entidade que não pertence a uma organização específica. É constituída por um grupo de organizações que pagam uma cota anual e que integram esta organização que é independente e comunitária. Podia falar das dificuldades que se sente ao tentar fazer acontecer um grupo não só de pessoas diferentes mas também de organizações diferenciadas que representam diferentes programas, estatutos e pessoas na organização de seja o que for quanto mais de uma Marcha de Orgulho LGBT. Podia falar dos problemas que advém do facto de algumas organizações ou coletivos terem menos voz que outros, seja por falta de poder económico, recursos humanos ou estaleca nestas andanças. Podia denunciar também a falta de ética e pouca prática feminista de algumas organizações e ao mesmo tempo, a falta de transparência e abuso de poder. No entanto, hoje não quero falar sobre isso, não quero cansar este momento, não quero pensar nas frustrações que advém de criar este espaço. Hoje não.

Hoje quero falar de ter acordado às 11 da manhã deste sábado com energia, sentindo que podia mudar o mundo mais uma vez, só um bocadinho, um bocadinho de cada vez. Peguei no monte de camisas que há tempos andava a acumular e passei-as todas. Sim, o meu mundo também muda porque tenho finalmente as camisas passadas a ferro.

São duas horas e meia e encontro-me debaixo de um calor de 36 graus a conduzir pela primeira vez uma carrinha de caixa aberta que daqui umas horas vai ter um sistema de som e uma drag queen a gritar palavras de ordem para uma multidão de pessoas que dançam ao som da queen B e da princess Rihana.

Tantas caras conhecidas, antigos amores, antigas amantes e pessoas dissabores, até pessoas que sempre me tinham dito, não gosto dessas coisas das Marchas. O mundo encontra-se ali. Carrinha decorada, bandeiras arco-íris em testas suadas, bochechas sorridentes, braços esticados no céu e barbas peludas cheias de glitter. O motor começa a trabalhar debaixo de um sol abrasador mas que de certeza não está tão quente quanto o sentimento que me aquece o peito enquanto vejo que nem o sol, nem este calor fazem com que as pessoas se demovessem de vir, de caminhar durante as curtas duas horas do Príncipe Real em Lisboa até à Ribeira das Naus onde desaguou aquele mar de gente na Festa da Diversidade.

Foi incrível, é sempre incrível e desta vez também o foi. Encabeçada por um coletivo de pessoas trans que fazem parte de diferentes organizações e coletivos que se formou para a Marcha, para dizer de si, por si, queremos dizer quem somos, que seja possível a nossa auto determinação. Somos quem somos e nós é que sabemos do nosso ser. Foi incrível ouvir as palavras de ordem de cada coletivo ouvir falar do que fazemos e do que somos de um pequeno palco para o mundo.

Entrego as chaves da carrinha depois de sobre chuva ter devolvido os sistemas de som e deixado a drag queen em casa a são e salvo para a festa que iria começar dali a duas horas. A água lavou o cansaço e até às 4 da manhã ocupámos o Riv Rouge com a festa da Marcha a bebida era cara foi um facto mas, os donativos recolhidos são uma certeza de que para o ano há mais, para o ano estaremos de volta e continuaremos sob chuva e sob sol com o que temos e sem quase nada a dizer, a gritar, a reivindicar a possibilidade da dissidência, a levar o arco-íris a passear à rua e a trazer a diferença para as ruas, para tantas vidas e por tantas vidas.

Alexa Santos

Alexa Santos

Depois de anos sem encontrar um espaço que pudesse chamar seu, Alexa criou o queeringstyle. No início uma página de Tumblr, hoje um espaço para pessoas que queiram falar, estar, partilhar. Não sabe muitas vezes parar porque, tudo o que faz vem do centro do peito. Gosta de fazer muitas coisas ao mesmo tempo, por isso é possível que se encontrem algures. Se sim, não deixes de dizer olá.
Alexa Santos

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