Shura de amor
21/08/2016
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A música da Shura acordou-me de um blackout musical que nunca me tinha acontecido. Passar dias, quanto mais semanas sem sequer ouvir um excerto de uma música sempre foi algo impensável no meu dia-a-dia. Se há quem oiça música dependendo do mood (acho que é o pior cliché e a desculpa mais preguiçosa de sempre para a pergunta “então que música ouves? Ou quais os teus artistas/bandas favoritos?”) eu oiço música independentemente do meu mood, sempre foi e é simplesmente parte da minha vida, da minha identidade, daquela caixinha de coisas que me fazem feliz e presente. Entretanto parei porque deixei de sentir, deixei de ser, a realidade deixou-me a pairar num limbo de inexistência e estática. Passadas algumas das semanas mais difíceis, um dia decidi ver o vídeo do novo single de Shura chamado What’s It Gonna Be que surgia no feed do meu facebook. Durante aqueles 3 minutos e qualquer coisa, fui teletransportada para o imaginário de John Hughes, a dança awkward de Aleksandra na casa de banho, com headphones on e a sua T-shirt da Nasa ditam a reviravolta do vídeo (Aleksandra dá mesmo um twist literal nessa cena) passando de mais uma história de amor heterosexual para uma história com personagens queer and a very gay ending (pun intended).

Feel good tune é a melhor descrição para a canção. Perfeita para o verão, perfeita para voltar a sentir que tens 15 anos e 3 meses de praia e filmes pela frente e quem sabe um crush em alguém que nem sabes quando voltarás a ver mas só as expectativas daquilo que pode vir ou não a acontecer bastam.

Mas e depois? A realidade chega e o álbum Nothing’s Real também. Passaram dois anos desde que o single Touch catapultou o trabalho de Aleksandra Denton para um novo estatuto. Esta Britânica de Manchester com 25 anos, que enquanto fazia turnos da noite numa empresa de edição de vídeos, assistia a tutoriais sobre produção musical. No entanto desde os 13 anos que Shura existe, quando Aleksandra começa a compôr as suas primeiras melodias e letras, sem nunca pegar nas músicas dos outros, admitindo orgulhosamente que desde cedo esta quis criar os seus próprios originais. Senti nostalgia ao descobrir Shura pois tive o mesmo feeling quando comecei a ouvir La Roux, em 2009 depois de uns 6 meses de hype à volta da mesma, e de tantos artigos do NME que só me afastavam ainda mais de dar a oportunidade merecida a outra ruiva britânica de ocupar o meu coração (partilhando o pódium com Florence Welch). Shura existe porque La Roux existiu, porque uma Ladyhawke existiu, porque mulheres queer a fazer música sobre ser queer são as vozes de uma geração que questiona todas as barreiras sociais que nos foram impostas e são finalmente livres em criar a sua arte inspirada pela sua vida pessoal e vice-versa.

Descontruir o hype de Touch não seria tarefa fácil mas para pessoas como eu que não chegaram a ficar infectadas pelo single em 2014, descobrir a 2shy foi o ponto de partida para todo o restante trabalho de Shura e as suas complexidades líricas e auditivas. Sem grandes expectativas, foi ouvindo as músicas que apareciam de forma aleatória nas recomendações do YouTube que o meu cérebro começou a aceitar aquelas ondas sonoras de felicidade. Aos poucos ouvir a 2shy logo de manhã era o ritual matinal para dar começo a um dia melhor que o de ontem ou menos mau. A batida da Indecision ficava colada ao meu cérebro durantes dias, tanto que quando andava a cantarolar (como acontece muitas vezes sem me aperceber) as minhas amigas perguntavam “Mas estás a cantar a música do Super Pai porquê??” e não é que o refrão tem muitas semelhanças com essa série de culto da TV tuga?. Shuro. Oiçam e depois digam se não é verdade.

A 8 de Junho estava eu no festival Alive para ver a genial Courtney Barnett e o religioso Father John Misty, no mesmo dia em que o álbum de Shura foi lançado. Demorei uns dias até o conseguir ouvir decentemente, mas não criei aquela ligação imediata ou emocional de que estava à espera. Segundo Shura são canções pop para pessoas pessoas awkward, pois esta não se consegue identificar com as músicas pop actuais, canções medíocres, exageradamente confiantes e explícitamente superficiais. Em Nothing’s Real podemos nos identificar, sentirmo-nos menos sozinhos na nossa falta de encaixe e dançar ao mesmo tempo. Citando Emma Goldman “If there won’t be dancing at the revolution, I’m not coming.” E a astronauta Shura só nos quer pôr a dançar enquanto nos abre as portas da sua nave especial.

Nothing’s Real é um álbum feito de metades, metade das músicas foram lançadas nos últimos 2 anos (ou no EP White Light) e a outra metade é composta por canções novas.

A música What Happened to Us talvez seja a minha favorita da coleção das novas “No I’m no child but I don’t feel grown up” o puer aeternus de Jung é um tema constante nas músicas de Shura, o síndrome de Peter Pan que rege toda uma nova geração de crianças adultas, tentando manobrar o facto de ainda viverem na casa dos pais ou dependentes dos mesmos, com o desejo e pressão social de criar a sua própria família/carreira/vida.

A Nothing’s Real é a mais importante do álbum, dando nome ao mesmo. Aleksandra escreveu esta música sobre o seu primeiro ataque de pânico e é aqui que a ligação entre a música de Shura e o meu estado emocional se completa, pois eu própria estava a passar por uma fase irreal. Segundo a analogia de Aleksandra quando tens um ataque de pânico é como se estivesses dentro de um video jogo com direito a várias vidas “I see my heart beat inside/A television screen/My heart is not connected, no/They’re telling me that I’m fine/They’re telling me that there’s nothing wrong, anymore/Nothing’s real.” Quando começas a sentir que podes morrer a qualquer momento mas do lado de fora as pessoas dizem que tu estás aparentamente bem e aquilo que sentes não é necessariamente a realidade. 2ché.

Pessoas creativas têm desde logo uma pré disposição e maior sensibilidade para distúrbios emocionais e psicológicos. Vivendo numa sociedade que nos quer impingir os mesmos objectivos e padrões, o tentar balançar o que nos faz feliz e quem realmente somos enquanto tentamos seguir algumas regras sociais, originou uma nova epidemia social e individual onde a ansiedade e níveis elevados da mesma, passaram a fazer parte do nosso dia-a-dia e nada é real.

Raquel Smith-Cave

Raquel Smith-Cave

Se vão a festas queer, encontram-na lá a dançar na pista e a cantar por cima dos hits dos anos 2000.
Não se deixem enganar pela sua timidez, pode conversar horas a fio e tem sempre algum facto sobre música ou televisão que nunca tínhamos pensado antes.Com opiniões espevitadas, traz-nos opiniões e listas, do que ver e ouvir.
Raquel Smith-Cave

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