Ser feliz sem medo!
14/06/2016
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Beija a pessoa que amas na rua. Podes beijar, mas tem cuidado.
Abraça a pessoa que amas no metro enquanto esperas para sair na Baixa. Podes abraçar, mas tem cuidado! Diz o que sentes sobre os teus direitos e sobre estes assuntos. Diz, mas tem cuidado. Sê feliz, mas com cuidado! Por que? Porque temos de ter cuidado.

“Cuidado”

Não posso beijar a pessoa que amo na rua sem notar que ela tem receio de ser abordada por um bêbedo qualquer. Ou pior, por alguém completamente lúcido e que não se pode esconder atrás do fator álcool para se proteger. Não posso abraçar a pessoa que amo com força, com vontade e deixar-me ficar nos seus braços sem que ela olhe para o lado uma vez ou outra e repare em tudo à nossa volta. Para proteger-me. Para proteger-nos. Nem posso encostar a cabeça no ombro dela, ter o nosso rosto ligeiramente mais próximo sem dar por mim a receber olhares de reprovação ou comentários ao ouvido do vizinho. E antes que eu possa dizer “Arrasou viada!”instala-se um desconforto horrível. Ela “queixa-se” um bocadinho de mim por ainda assim, tentar beijá-la em plena rua Augusta. Dar-lhe um beijinho no canto dos lábios, num elevador qualquer, com tantas outras pessoas presentes. Por colar-me a ela num abraço interminável enquanto estamos na fila do autocarro à espera para irmos para casa. Ela quer proteger-me por já ter passado por muitas coisas que nunca experienciei como ela. Naquela cabeça linda, cheia de sonhos também habitam muitos medos e este é um deles; que me façam mal, que nos façam mal por sermos felizes e expressarmos isso. Mas sou muito teimosa… Acho que no fundo, ela pensa que não tenho total noção do que estou a fazer por continuar a teimar e querer manifestar o quanto gosto dela. Na rua. Nas redes sociais, no mundo, na vida.

Acho que temos todos de ser um bocadinho assim, sabes? Não, não esquizofrénicos apaixonados, mas lutadores. Não vou estabelecer um limite em doses de carinho diárias, não vou escolher quanto de amor posso dar-te por dia, nem onde. Não é justo! Mereces ser amada em todos os lugares, mereces ser acarinhada e cuidada não importa a hora do dia. Não tenho de calcular os meus movimentos, equacionar o meu toque mediante o número de pessoas presentes na sala… Não quero e nem vou delimitar o meu sentimento por ti ou tão pouco a forma como escolho expressá-lo, só porque não entendem o que isso é. Não quero demover a mente quase imutável destas pessoas, só não quero que nos façam mal porque não estamos a fazer mal a ninguém… Será pedir demais? E é por isto e tantas outras razões, que temos de continuar a lutar, temos de fazer com que entendam. Essas manas precisam de ajuda, percebes?

Somos uma pequena peça num puzzle gigante e como tal, somos importantes para que no final tudo se possa encaixar. Somos essenciais, percebes? Se pararmos agora, somos menos duas peças. Se pararem mais, são menos dez peças. Menos vinte, menos cem e quando dás por ti somos cada vez menos a tentar dar significado a este puzzle que é nosso. Seremos cada vez menos a lutar, a tentar mostrar que também somos merecedores, que também podemos casar, podemos criar uma família e sermos felizes. Que também podemos andar de mãos dadas na rua sem medo de levar com uma garrafa na cabeça ou poder sair e dançar até de manhã, sem que a meio da noite apareça alguém com um coração tão sujo e que tente descolorir o de tantos na mesma situação que nós.

“Não tiveram cuidado.”
Desculpa, vou ser viado cuidadosamente então. Viadarei minuciosamente e com respeito. Desculpa, vou limitar o meu arco-íris. Não, desculpa, vou ser gay dentro do possível então. Não queria que a minha viadagem muito homossexual atormentasse a vida da pessoa cheia de ódio que passava do outro lado da rua. Desculpa, vou ter mais cuidado e evitar demonstrar amor publicamente à minha namorada ou namorado, não vá alguém lembrar-se de sacar de uma bazuca porque sociedade, porque mundo, porque ódio. Enfim, porque não faz porra de sentido nenhum…

É importante que não nos deixemos ficar, é importante que não nos calemos perante estas situações. Este “com cuidado” de tantos quer dentro ou fora da comunidade LGBT só oprime o amor, só oprime quem somos. E nós somos amor numa forma tão pura de o ser… Numa forma tão verdadeira, tão guerreira de o ser, não somos?Não quero deixar de te abraçar como mereces, não quero deixar de ser quem sou ao teu lado porque tu mostraste-me quem eu era e agora não podes pôr uma linha vermelha até onde é seguro ir. Nem a mim, nem a ti. Agradeço-te de coração cheio por todo o cuidado que tens comigo, por tudo o que fazes com tanto carinho por mim. Embora não pareça eu também tenho medo ou achas que não tenho receio de alguém tentar fazer-nos mal porque somos tão maravilhosamente lindos? Achas que não me assusta a ideia de que com comentários infelizes, uma coisa leve à outra e acabemos mal? Não quero viver nessa sombra mas também não quero sofrer danos físicos ou tão pouco pôr-te em risco, não é? Por isso luto mais do que pensas… Porque deixar de ser um arco-íris andante ou esconder estas cores tão vibrantes por receio? O que é bonito é para se ver… É para bailar na cara do povo, SIM e se reclamar vai ter twerk e samba pureza rainbow nas ruas O DIA INTEIRO! Não crio mais barraco e nem entro em guerras porque o meu objetivo não é esse. Não vou levantar a voz à velhota que acha que no tempo dela era chouriço e não bacalhau ou o senhor que diz que este mundo está perdido. Estamos todos perdidos, minha flor, somos todos um bando de desorientados… Mas ainda tenho esperança, porque de vez em quando, muito raramente, aparecem almas que encontram valores, que encontram o caminho certo e lutam vivamente pelo que acreditam sem denegrir o que luta pela razão contrária.

Uma forma pequena porém gigantesca de mudar alguma coisa para além de prestar respeito, é não nos calarmos. É não sermos manas “cuidadosas” porque se dás um beijinho na cara ou um linguado que engole a pessoa para outra dimensão, para quem vê e odeia é tecnicamente a mesma coisa. Para eles, estás a esfregar na cara deles os teus direitos e a deixá-los desconfortáveis… Não tenho por hábito beijar como se estivesse a gravar a introdução de um filme pornográfico, mas se demonstro o mínimo de carinho já é um escândalo, imagina algo maior… Não sei, um abraço que dure mais do que dez segundos?

Se nos escondermos só piora. Se nos limitarmos, se não falarmos, se não gritarmos, só vai alimentar ainda mais o nosso próprio medo, o tal cuidado que devemos ter. Podes ter um cuidado razoável porque terás sempre o teu radar de receio tão ativo tanto quanto o teu radar gay, mas não te limites porque mereces ser tão ou mais feliz que os casais que se beijam na rua e não estão habituados a ter alguém a comentar a vergonha que são para a família.

“Cuidado”
Perdoem-me o típico tuga, mas cuidado o caralho!

poc

O choro é livre, compadres. Não gosta, chora. Chora esse ódio repugnante que tantas vezes sai impune.

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