Quem sabe o que deve ou não deve ser?
21/01/2016
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Quem sabe o que deve ou não deve ser? Quem dita o que é ou não é?

Assumimos rapidamente o género de alguém pela forma como se veste.

Desde o momento que os progenitores sabem o sexo do bebé, aquele que se vê na ecografia, das primeiras semanas, começamos (sim, começamos porque ninguém existe fora das construções de género) imediatamente a comprar roupa rosa para a Maria, Madalena ou Beatriz que vem a caminho, roupa azul para o Manuel, João ou André que vem chutando o seu caminho. Imediatamente criamos expetativas para quem vem a caminho, porque a medicina nos disse que era um menino ou uma menina.

No outro dia, ao visitar uma amiga, enquanto andávamos pela rua, um casal – amigos de amigos dela – indagava-se. Apostavam se eu era um homem. Punham as mãos no fogo em como eu era uma mulher.

Quem sabe? Quem dita o que é ou não é? Quem ganhou a aposta, quem é que se queimou? A androginia, que corrompe e alarga, a quem e como, o porquê e de quê é feito o género, apela-me… porque na realidade, no grupo de amigos dos amigos ninguém tem razão e toda a gente se queima. Nas roupas e na forma como alguém se veste não está impresso o seu género. Porque as expetativas de que as meninas são de marte e os meninos de vénus não são reais. Somos todos daqui, da terra.

Quando o homem do metro está ‘ao lado’ (ver artigo), não é ele que está do lado errado. Somos nós, sou eu, que ao assumir, ao ser ‘achadora’ de seja o que for, me ponho do lado errado da história, a história opressora, a história achadora, a história que não permite a diferença, que não permite o estar como a pessoa se sente bem, como a pessoa se sente. É a história que esquece que no sentir é que está a definição. O que deve e não deve ser, pertence a cada pessoa, a si, ao que o ser sente.

A construção de género, do corpo ideal, é o início para a construção de estereótipos acerca do que devemos ser. É igualmente o início das pressões que negociamos diariamente para correspondermos ao tal ideal, para correspondermos a uma determinada imagem, de forma a que tenham uma determinada ideia de nós. Esquecemo-nos que não temos de ser o ideal, que este é construído para além daquilo que cada pessoa é. E que, muitas vezes, a percepção que o outro tem de nós não diz nada acerca do que realmente somos.

Para mim, a expressão da minha identidade queer, através da moda, significa a corrupção de suposições que apenas homens podem usar laços ao pescoço ou gravatas; que apenas mulheres podem usar saia, questionando assim, sistemas de poder que dizem que apenas alguns podem vestir isto ou aquilo e assim, ajudar a desconstruir ideias de género.

A questão não está no outro, mas sim que isto seja uma questão.

Artigo original: http://capazes.pt/moda/quem-sabe-o-que-deve-ou-nao-deve-ser-por-alexandra-santos/

Alexa Santos

Alexa Santos

Depois de anos sem encontrar um espaço que pudesse chamar seu, Alexa criou o queeringstyle. No início uma página de Tumblr, hoje um espaço para pessoas que queiram falar, estar, partilhar. Não sabe muitas vezes parar porque, tudo o que faz vem do centro do peito. Gosta de fazer muitas coisas ao mesmo tempo, por isso é possível que se encontrem algures. Se sim, não deixes de dizer olá.
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