QueerLisboa 20 – as minhas escolhas
17/09/2016
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O festival de cinema Queer de Lisboa está a acontecer. Começou ontem e se não estiveram na festa de abertura perderam. Valéria Oid foi incrível, a música do melhor e mesmo para quem não gosta de dançar, esteve-se, conversou-se e fez-se #amizadespávida.

O festival tem muitos filmes, uma grande competição de longas e de curtas metragens. Por isso, todos os anos desde 2011, que eu tenho um ritual. Arranjo um programa daqueles enormes que parecem um jornal (sim porque, se são impressos pelo menos que tenham utilidade) 14322503_10154409244625792_2353963724254526050_ne percorro todos os filmes e curtas marcando todos os que me interessam (normalmente filmes feitos por mulheres ou/e que retratem histórias de mulheres lésbicas/bi e ou de pessoas trans, sim, super específico, muitas vezes sem grande representatividade no festival e onde as escolhas muitas vezes passam pelos argumentos que já estamos tão habituadxs, mas é o que me interessa) e depois passo no site para ver os traillers. Depois organizo-me pelos dias em que os filmes vão passar e a quantidade de dinheiro que posso gastar com filmes a 4 euros e um pack de 5 por 16€ é imperativo escolher.

Decidi então partilhar as minhas escolhas e dizer-vos o que quero ver no festival este ano. Vou ver 6 filmes (aquele desconto calhou mesmo bem) e este ano não vou conseguir ver/participar em nada das curtas (mas, vou deixar-vos uma lista das que me interessaram no fim).

Começo hoje, Sábado, 17 de Setembro, às 19:30 pelo filme:

Rara, Pepa San Martín / Longa-Metragem: 90 min.

Gostar de rapazes, considerá-los estúpidos, estar muito próxima da melhor amiga e não lhe contar todos os segredos, ter problemas na escola e ter pais chatos: estes são os problemas típicos de uma rapariga de 13 anos. Para Sara, nada disto tem que ver com o facto de a sua mãe viver com outra mulher. Mas o seu pai não tem a mesma opinião.

Interessa-me este filme para perceber que construções faz a realizadora sobre as relações de maternidade, pré-adolescência e ao mesmo tempo uma vivência queer/lésbica no contexto do sul global.

Existe outro filme que também me chamou à atenção para este dia, às 17h:

BolesnoHrvoje Mabić / Longa-Metragem: 95 min.

Aos 16 anos de idade, Ana foi internada num hospital psiquiátrico pelos seus pais, que acordaram com o diretor do hospital um tratamento para curar a sua homossexualidade. Depois de tudo por que passou, Ana espera encontrar uma rapariga que não a considere louca pelo facto de sofrer de stress pós-traumático. Acaba por encontrar Martina, o seu novo amor, com quem planeia casar. No entanto, a paciência de Martina começa a diminuir à medida que se apercebe que Ana está cada vez mais obcecada com o seu passado traumático do que com a vida que vão partilhar juntas. Bolesno é um filme sobre amor, traição, vingança e perdão. 

No entanto decidi, depois de ver o trailer que não vou ver este filme, (porque o dinheiro não dá para tudo), depois de ver o trailer senti que  que iria ser uma representação poética de um contexto de asilo/hospital psiquiátrico, num loop de auto-destruição que não me interessa tanto ver tanto como me interessaria por exemplo, perceber melhor o contexto Croata e a situação em que vivem as mulheres lésbicas no país ou, as motivações para o internamento/cura da homossexualidade. Ou seja, pareceu-me que o filme ia retratar mais a vivência particular mais do que o contexto social que me interessa mais assim, decidi deixar para uma próxima.

Domingo, 18 é um bom dia e estou muito entusiasmada com o filme das 17h:

Las Lindas, Melisa Liebenthal / Longa-Metragem: 77 min.

partir das suas experiências pessoais e de conversas com amigos de longa data, Melisa, de 24 anos, interroga-se sobre as obrigações e proibições que moldam a construção cultural do género feminino, especialmente em relação à imagem. Com humor e franqueza, o filme retrata um mundo feminino visto a partir do interior, a partir de conversas, fotos pessoais e filmes caseiros.

Da Argentina este filme vem como um contador de histórias do género feminino, atribuído à nascença. Interessa-me ouvir sobre esta construção e entender as histórias destas pessoas, as suas vivências e de como se fazem pessoas através de vivências pessoais, com quem as rodeia.

E o filme das 21:30h:

TchindasPablo García Pérez de Lara, Marc Serena / Longa-Metragem: 94 min.

Tchinda Andrade é hoje uma das mulheres mais amadas da ilha de São Vicente, em Cabo Verde. Ela notabiliza-se sobretudo a partir de 1998, ano em que decide sair do armário, identificando-se como trans a um semanário local. O seu nome torna-se então na forma como as pessoas queer passam a ser designadas no seu país. Tchinda tem hoje 35 anos e vive de forma humilde, a vender coxinhas pelo bairro. Durante todo o ano, reina a calma, mas tudo muda quando chega o Carnaval. No mês que o antecede, toda a ilha se põe a trabalhar para do nada criar algo deslumbrante. A sua música e as tchindas guiam-nos numa viagem fascinante a um recanto desconhecido de uma África que poucas pessoas podem imaginar.

Este é um filme que eu quero ver há muito tempo, que me trás para perto uma realidade que eu sinto ser muito próxima dado que a minha mãe é cabo-verdiana. É para mim uma oportunidade única (até porque o filme passa só nesta data) poder ver este filme e perceber um pouco mais sobre a realidade das pessoas trans, no caso mulheres trans na ilha de São Vicente em Cabo Verde.

Na segunda feira quero ver o filme das 21:30h:

Real Boy, Shaleece Haas / Longa-Metragem: 74 min.

Real Boy é a história do despertar de sexualidade de Bennett Wallace, um adolescente transgénero que se encontra numa viagem para encontrar a sua voz – como músico, amigo, filho e homem. À medida que navega pelos altos e baixos da jovem vida adulta, ele esforça-se para conquistar o amor e apoio da sua mãe, que tem muita apreensão quanto à transição do seu filho. Ao longo deste caminho, Bennett cria uma forte amizade com o seu ídolo, Joe Stevens, um célebre músico transgénero que tem de lidar com os seus próprios demónios.

Há algum tempo que conheço este documentário e que leio coisas sobre o Bennett e a realizadora Shaleece Haas. Por isso fiquei contente por ver que este ano o QueerLisboa vai passar este documentário que eu não podia perder.

Neste dia, ás 19:30 passa o filme de temática lésbica, AWOL (ficam com o link do facebook porque, no site o filme não aparece corretamente) que dentro das escolhas que podia fazer não pesou tanto por ser um filme que apesar do contexto militar que pode ser interessante, é também a história de duas lésbicas, cis, brancas que não me interessa tanto quanto outras narrativas.

Na terça feira, ás 17h passa o documentário:

Yes We Fuck!Antonio Centeno, Raúl de la Morena / Longa-Metragem: 60 min.

Este documentário mostra seis histórias sobre sexo e diversidade funcional, histórias reais e diversificadas, onde o sexo é transformado numa arma de prazer para os direitos individuais e coletivos das pessoas. Além do sexo, este projeto não só mostra o que a sexualidade pode fazer pelas pessoas com diversidade funcional, mas também de que maneira a realidade da diversidade funcional pode contribuir para a sexualidade humana.

Eu A-D-O-R-A-V-A ver este documentário acho que deve ser incrível mas, infelizmente, passa apenas nesta data. Terça-feira às 17h. Vou estar no trabalho e acho que é uma falha este documentário não passar num horário mais acessível.

Neste dia também, às 19:30h passa também o filme:

Barash, Michal Vinik / Longa-Metragem: 84 min.

Uma rapariga a apaixonar-se. Uma família a desfazer-se. Naama Barash, adolescente de 17 anos, gosta de álcool, drogas e conviver com outros jovens como ela. As suas atividades são o escape de uma casa onde os pais estão sempre a discutir, e de uma irmã rebelde, alistada no exército que, um dia, desaparece. Quando uma nova rapariga chega à escola, Barash apaixona-se pela primeira vez e a intensidade da experiência não só a confunde como dá um novo significado à sua vida.

Acho este filme interessante porque tem o potencial de mostrar a realidade de duas jovens adolescentes que se apaixonam em Israel no sentido em que, pode ajudar-nos a aproximar-nos de uma realidade que parece distante e que nos transporta para uma ideia de conservadorismo e castração de uma sociedade que não é a nossa (Portuguesa/católica). O filme passa também na quarta às 17:15h.

Ainda na terça-feira às 22h:

La belle saisonCatherine Corsini / Longa-Metragem: 105 min.

Estamos em 1971. Dalphine, filha de agricultores, muda-se para Paris para se libertar das amarras da sua família e assim ganhar independência financeira. Carole é uma parisiense, vive com Manuel, e está ativamente envolvida no movimento feminista. O encontro entre as duas coloca as suas vidas de cabeça para baixo. 

Gostava de ir ver mas não posso ver todos. Acho este filme importante para pensarmos nas formas como o feminismo entra nas nossas vidas, que é tantas vezes através de pessoas que nos interpelam e que nos ajudam a ver a vida de outras formas, especialmente porque retrata França de 1971 (não esquecendo que Portugal deixou de ser ditadura apenas em ’74).

O último filme que eu consigo ir ver passa na quarta-feira 21, às 21:30h:

Strange LoveNatasha Mendonca / Longa-Metragem: 70 min.

Khush é um estiloso homem trans da classe trabalhadora que transforma o seu corpo feminino. O filme narra a sua viagem em se tornar num homem num contexto de amizade e desgosto. Suman é uma cantora que anseia por encontrar a sua voz criativa longe da indústria de Bollywood. Após o fim de uma relação amorosa, ela explora a sua prática artística através do compromisso ativo e da crítica ao patriarcado hétero. As vidas de Khush e Suman cruzam-se num retrato contemporâneo de Bombaim. Amor não correspondido, traição e amizade são a base da narrativa desta grande cidade agitada.

O que dizer, sem palavras. Depois de ver conto-vos.

O último filme que eu acho que vai ser muito bom é Grandma, passa na quinta-feira às 22h, este encontro geracional ajuda-nos a pensar nas relações/estereótipos que temos em relação à idade e os mais velhos, que nem sempre são as pessoas menos aceitantes ou com histórias mais aborrecidas ou qualquer outro preconceito que tenhamos sobre idade.

Por fim, eu não gosto muito da forma como as curtas são organizadas no festival, mas, entendo porque as organizam dessa forma, assim dá para a pessoa ter contacto com várias visões e isso é sempre interessante. As curtas que me chamaram à atenção foram:

  • Club Amazonas, Roberto Fiesco / Curta-Metragem: 19 min. / Documentário, Migrações, Transgénero;
  • Gabber Lover, Anna Cazenave-Cambet / Curta-Metragem: 13 min. / Descoberta da Sexualidade, Lésbico, Relação;
  • Madre, Simón Mesa Soto / Curta-Metragem: 14 min. / Drama, Trabalhadores do Sexo, Temática Juventude;
  • MAN, Maja Borg / Curta-Metragem: 12 min. / Vanguarda, Corpos, Experimental;
  • Moms On Fire, Joanna Rytel / Curta-Metragem: 12 min. / Animação, Comédia, Lésbico;
  • Nasser, Melissa Martens / Curta-Metragem: 19 min. / Descoberta da Sexualidade, Lésbico, Temática Juventude;
  • Pink Boy, Eric Rockey / Curta-Metragem: 15 min. / Documentário, Queer, Temática Juventude;
  • Strip, Kateřina Turečková / Curta-Metragem: 10 min. / Lésbico, Trabalhadores do Sexo, Temática Juventude;
  • Sur les Pointes, Diana Ricardo, Maria do Carmo Duarte, Sandra Carneiro / Curta-Metragem: 13min. / Arte e Artistas, Documentário, Estudos de Género.

Bons filmes, vemo-nos no festival. <3

Alexa Santos

Alexa Santos

Depois de anos sem encontrar um espaço que pudesse chamar seu, Alexa criou o queeringstyle. No início uma página de Tumblr, hoje um espaço para pessoas que queiram falar, estar, partilhar. Não sabe muitas vezes parar porque, tudo o que faz vem do centro do peito. Gosta de fazer muitas coisas ao mesmo tempo, por isso é possível que se encontrem algures. Se sim, não deixes de dizer olá.
Alexa Santos

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