Privilégio(s)
04/07/2016
0

De uma forma simples e muito simplista posso dizer que sou branca, mulher cisgénero, casada, monoamorosa, classe socioeconómica a tender para a média, não tenho nenhuma limitação física (para além de ter audição seletiva – leia-se ser dura de ouvido – e alguma dificuldade em conseguir ler sem óculos as mensagens no telemóvel), frequentei o ensino superior, tenho emprego estável, … e também lésbica, ativista, investigadora (pelo menos questiono-me), retornada, com mais de 50 anos de idade, … e muitas outras coisas.

Tenho tido consciência ao longo da vida das desigualdades, discriminações e também privilégios associadas aos vários aspetos que fazem parte de quem sou. Não existe necessariamente correspondência direta entre alguns dos aspetos mencionados e a situação de desigualdade, discriminação e privilégio. Por vezes o mesmo aspeto em determinado espaço e tempo implica discriminação, e em outro espaço e tempo pode ser lido como privilégio.

Admito que no meu dia-a-dia não sou frequentemente alvo de atos de discriminação direta porque ‘encaixo’ de muitas formas no que é mainstream e normativo. Não sou particularmente exuberante, embora pouco conforme com a representação de mulher (assim um pouco para o sapatona 😉 ) sou lida como mulher cisgénero, já não sou jovem (aliás há uns anos atrás achava que uma pessoa da minha idade, já era exatamente … alguém de idade …), vivo numa relação monoamorosa com direito a reconhecimento legal e tudo (embora com alguém do mesmo sexo), faço parte da maioria étnica do país onde vivo (embora não há muito tempo considerada portuguesa de segunda por ser retornada), e … tudo o mais que faz com que eu me sinta eu própria e os outros me reconheçam.

Mas se falarmos de discriminação indireta essa obviamente está bem presente em todos os momentos e locais em que eu vou praticando este ato simples e tão complexo de estar viva. A discriminação indireta está relacionada com os sistemas de poder estruturais que promovem e garantem privilégios ao mesmo tempo que discriminam e oprimem. A identificação destes sistemas e a reflexão sobre o seu efeito nas interações sociais é fundamental numa prática feminista com que me identifico e que é a base da minha atividade enquanto ativista. No entanto, sinto que por vezes se resvala para um discurso de mea culpa, fruto de um exercício de autovigilância que nada tem de produtivo ou transformador. Porque se é branca, porque se tem emprego numa época de precariedade, porque se está casada, porque não se é suficientemente alternativa ou queer, … parece que se perde a legitimidade de nos pronunciarmos, de falarmos, de defendermos direitos e vozes que não são exatamente as nossas. Voltamos ao que que já referi no post anterior ‘Not in my name’. Só os discursos na primeira pessoa parecem ter legitimidade. Então adeus participação cívica, intervenção social e política, se é só na primeira pessoa que se fazem os ativismos a minha voz não tem muita utilidade.

Sinto que para além da opressora heteronormatividade e da criticada homonormatividade , surgem também formas alternativas de homonormatividade, que tentam fazer vingar que há formas mais ‘verdadeiras’ e ‘substanciais’ de se ser ativista e de se fazer ativismo.

Imaginem o meu caso, uma ativista dos direitos LGBT que não gosta muito de sair à noite, que tem sono cedo, que gosta de alguma rotina na vida, pouco ou nada exuberante, com mais de 50 anos e que considera um serão no computador a ler e escrever uma noite bem passada. Pouco sexy para ativista LGBT, não acham? Ainda por cima casada, monoamorosa, e feliz no casamento … boring.

Aliás acho que o tema do casamento é um excelente exemplo para se perceber a questão das formas alternativas de homonormatividade. Defendi e defendo o direito ao casamento para pessoas do mesmo sexo, e considero que é uma conquista significativa dos direitos LGBT. O casamento pode ser encarado como expressão de uma sociedade patriarcal e sexista, mas o acesso ao casamento por pessoas do mesmo sexo reconfigura a sua representação e a sua realidade. E defender o casamento entre pessoas do mesmo sexo não exclui, por exemplo, defender o direito a formas diversas de estabelecer e viver relações amorosas e sexuais, como por exemplo as poliamorosas. Ser mulher cisgénero não exclui a possibilidade de defender os direitos de pessoas transgénero. Assim como sempre defendi que os direitos das lésbicas podem e devem ser defendidos por todas as pessoas que se identificam com esse objetivo, sejam mulheres, homens, cisgénero, transgénero, heterossexuais ou outra coisa qualquer.

O pessoal é político, creio que todas/os concordamos com esta afirmação, ou pelo menos escrevo para as/os que concordam com esta afirmação, mas o ser pessoal não é só ser vivido na primeira pessoa, tem a ver com a capacidade de nos identificarmos uns com as/os outras/os, de lutarmos as lutas que entendemos como justas, porque a solidariedade existe, é possível, faz a diferença e tem a força de poder mudar o mundo.

Contribuições Queeringstyle

Contribuições Queeringstyle

Contribuições convidadas. Queres escrever para o Queering Style? Contacta-nos clicando no coração.
Contribuições Queeringstyle

Artigos recentes por Contribuições Queeringstyle (ver todos)