Pra quê ir ao médico…
15/10/2016
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Saí de casa para ir a uma consulta da medicina do trabalho, daquelas consultas habituas, onde fazem “aquelas questões”, sobre o teu estado de saúde.

Eu achava que iria ser apenas mais uma consulta sem nada de mais.

Logo à entrada do prédio, assim só para começar, deparo-me com um senhor que diz – “ já te tinha observado da janela há uns minutos” e em seguida questiona:

– “És uma menina, não és?”.

Com um sorriso no rosto respondi que sim. Esta pergunta é de tal forma frequente, por usar o cabelo rapado, não ter seios fartos e me vestir como um dia me disseram, “há rapazinho“ que a minha reação já não é estranhar, é simplesmente sorrir e acenar.

Nesse momento a porta abre-se e eu só pensei, ainda bem. Sou sincera, naquele momento diferente de tantos outros senti-me desconfortável. Como assim, estava a observar-me? Porquê? O que é que as pessoas ganham em saber aquilo que sou? Qual é o seu interesse? Que diferença fará ao seu dia? Surgem-me sempre umas quantas questões, mas não perco muito tempo com elas. Acabo sempre por pensar, Meta-se na sua vida!.

Isto para vos contar da minha consulta. Começou digamos como uma outra qualquer consulta médica, com as questões que os médicos costuma colocar como por exemplo:

– “ Já esteve gravida?”

– “Quando tem relações com o seu parceiro, usam contracetivos?”

– “Já fez algum aborto?”

Entre outras questões que foram surgindo eu decidi dizer que era homossexual. Ás vezes digo porque ingenuamente penso que isso fará com que o rumo da consulta possa tornar-se mais inclusivo, só que nem sempre é assim.

Neste caso, a médica pára o que estava a escrever, como se de repente lhe tivessem dito algo no qual ela não podia acreditar. Olha-me nos olhos e diz:

– “Não tem mal ser assim.” – Baixou a cabeça e continuou o que estava a fazer.

Só vos posso dizer que isso ficou-me na cabeça, “não tem mal ser assim”, ainda me perguntei, como assim? Que quererá ela dizer com isso?

Demos continuidade à consulta, e eu não dei voz às minhas questões. A médica chegou à conclusão que eu sofro de ansiedade, e diz-me qualquer coisa do tipo:

– “Talvez seja melhor depois consultar o seu médico de família e pedir que lhe passe uns exames e indique um psicólogo e psiquiatra, para tentar perceber se a sua homossexualidade não estará a provocar a sua ansiedade ou se não tem a ver com algum trauma do seu passado” – e continuou – “a homossexualidade pode também estar ligada ao facto de não haver um equilíbrio hormonal. Pode também pedir ao seu médico que ajude nesse aspecto.” e ainda me lembrou que a homossexualidade já tinha sido considerada uma doença mental, pela ciência, que podia ser tratada e que era melhor perceber agora o que se estava a passar comigo, do que mais tarde porque, poderia ser tarde de mais para tratar o problema. E diz:

– “O normal é as pessoas serem héteros e normativas, porque se quiser ser mãe é melhor então resolver esta questão da homossexualidade primeiro, para não sofrer com isto mais tarde. Mas, não tem mal ser assim”, se é a sua escolha viver assim, está tudo bem.” – Termina afirmando – ”As outras pessoa terão de aceitar que seja assim, visto que é a sua escolha”.

No meio disto perguntou-me se tinha sido sempre homossexual, ou se tinha surgido por acaso. Ao que lhe respondi que sempre fui assim e que a homossexualidade não é algo do acaso. Que não acordei um dia e decidi gostar de pessoas do mesmo sexo, só para contrariar, no final da consulta a médica diz:

– “Por mim está tudo bem, não vejo nada de anormal em você, pode continuar a trabalhar normalmente.”

Eu disse-vos que a medicina era do trabalho, só esqueceram é de me avisar que a médica ia tentar convencer-me a tratar a minha homossexualidade.

Podem pensar que isto é uma anedota, ou uma qualquer piadóla que já não acontece, mas aconteceu. Estamos a falar de pessoal médico, de médicos de família e enfermeiros, psicólogos e outros, com que nos encontramos todos os dias no sistema de saúde, público e privado. Em consultas de medicina geral, genecologia ou outras em que venha á baila a nossa orientação ou identidade de género. Como querem que possamos recorrer à medicina, aos hospitais e outros que tantos serviços de saúde se estes não são locais seguros, se as questões não se aplicam a nós e se a nossa saúde mental fica tantas vezes ainda mais comprometida do que tratada.

Saí desta consulta a sentir-me indignada, sem saber o que pensar e sem conseguir reagir, devia denunciar, devia reclamar, mas e se me sentir posta em causa e se a força tiver ficado na cadeira de paciente? É nestas pessoas que depositamos a confiança que têm a capacidade de nos tratar, de saber o que é melhor para a nossa saúde. E quando isso não acontece, o que é que fazemos?

Update: Foi feita queixa da médica do artigo à sua entidade empregadora e a mesma foi despedida por justa causa.

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