Pode a assexualidade ser feminista?
04/12/2016
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No momento em que me sento a escrever a minha tese sobre assexualidade em Portugal[1], três anos depois de ter começado a envolver-me com várias dimensões do tema, detenho-me num aspeto que me captou a atenção logo desde o início: quais as ligações entre os feminismos e a assexualidade ou, por outras palavras, pode a assexualidade ser feminista?

Mas antes de avançar, o melhor é dar conta daquilo de que estou a falar quando me refiro a assexualidade. Assexualidade é uma designação que diz respeito a uma realidade ampla e complexa. Quando se usa o termo assexual, estamos a referir-nos a alguém que não sente atração sexual por outras pessoas, independentemente do seu género, e que pode ou não ter desejo ou interesse em atividade sexual. Por isso, como se pode imaginar, dentro desta designação cabem inúmeras realidades, experiências, identidades, comportamentos e formas de viver a intimidade. É um espectro bastante alargado.

A assexualidade é considerada, embora não de forma consensual, como uma orientação sexual. À semelhança da homossexualidade, da heterossexualidade, da bissexualidade e da pansexualidade, a assexualidade também não é vivida como uma escolha. As pessoas assexuais podem sentir atração romântica, estética, intelectual, social, emocional por outras, sem que necessariamente sintam atração sexual por elas. Isto não invalida que possam construir laços profundos e relações fortes de amor, intimidade e cumplicidade. Não impede também que tenham contactos românticos ou sexuais. Depende da forma como cada pessoa sente que é melhor para si no âmbito das relações que estabelece. Aquilo que somos ensinadas a pensar desde cedo é que estes diferentes tipos de atração vêm sempre juntas, ou mais ainda, são uma e a mesma coisa, um todo. O que a assexualidade nos vem mostrar é que não é necessariamente assim.

O conceito de assexualidade, tal como o conhecemos hoje e tal como eu o acabei de descrever agora, é recente. Surgiu no início dos anos 2000, nos Estados Unidos da América, no seio das comunidades que se formaram e mobilizaram pela internet em torno da partilha de experiências comuns, da não identificação com as orientações sexuais existentes e numa clara rutura com a sexualidade vigente. A mais conhecida de todas essas comunidades é, sem dúvida, The Asexuality Visibility and Education Network (AVEN), a maior comunidade online sobre assexualidade, com dezenas de milhares de utilizadoras de todo o mundo, assexuais autoidentificados, aliadas, amigas, companheiras, curiosos, familiares de assexuais, etc.

De uma forma sucinta, para além da sua versão original em inglês, a AVEN tem subpáginas em mais de uma dezena de outras línguas, alberga um arquivo extenso de recursos e oferece aos membros registados um chat para partilharem experiências, fóruns de discussão, uma espécie de Censos sobre assexualidade datado de 2008 (e em breve haverá resultados de um inquérito extenso feito em 2014-2015), há uma enciclopédia/dicionário aberto à contribuição de utilizadores e utilizadoras registadas, vídeos, indicações de locais de encontros, secção de perguntas frequentes, muito importante, recursos para professores, familiares e amigos de assexuais.

Para além da sua forte presença online, coletivos, grupos e associações de pessoas que se identificam como assexuais e suas aliadas fazem ativismo nas ruas e em instituições e em eventos de visibilidade e educação, de forma a darem a conhecer a sua orientação sexual, lutar por direitos de dignidade, reconhecimento, e direito à não discriminação.

As pessoas assexuais tornam-se visíveis desta forma e também através do uso de alguns símbolos como a bandeira assexual que é composta por quatro riscas horizontais preta, cinzenta, branca e roxa: a preta, que representa a assexualidade; a cinzenta, que representa a grey-assexualidade e a demissexualidade (pessoas que se sentem atraídas sexualmente por outras em circunstâncias que não são muito claras e pessoas que só sentem atração sexual por outras quando constroem com elas vínculos emocionais fortes, respetivamente), a branca, para representar parceiras e aliados; e a roxa, que representa a comunidade. Há também o célebre bolo, numa brincadeira de que ‘bolo é melhor do que sexo’ e a utilização de anéis pretos.

Existe também um corpo teórico crescente de publicações académicas e científicas sobre o tema que se alimenta diretamente destas comunidades virtuais, que aí recruta participantes para os seus estudos e que está a levar o conhecimento sobre assexualidade a outras esferas de partilha de informação.

Fazendo uma panorâmica, quer pelo contexto internacional, quer pelo nacional, – amplamente documentados online – analisando trocas em fóruns, chats, grupos de Facebook, entre pessoas assexuais ou entre pessoas assexuais e outras, verificamos que o feminismo sex-positive é a corrente do feminismo mais presente na internet – se é possível quantificar a internet – quando há debates sobre a assexualidade.

O termo sex-positive é geralmente atribuído a Wilhem Reich e o movimento com o mesmo nome, que começou no início dos anos 1980 do século XX, pressupõe a crença de que o sexo é uma força positiva de avanço nas sociedades. Assim, para o feminismo sex-positive, há uma centralidade da ideia de que a liberdade sexual é essencial para o empoderamento das mulheres. O feminismo sex-positive não acredita em culpar ou envergonhar as pessoas pelas orientações e comportamentos sexuais ou pela sua identidade de género.

A comunidade assexual, e estou a usar este termo de forma operativa aglutinando várias experiências associativas distintas, tem feito fortes críticas ao feminismo sex-positive e a diferentes espaços sex-positive – online e offline – como pouco amigáveis e que desconsideram assexuais e a assexualidade.

E quais são as principais preocupações que são transmitidas (sentidas também nos relatos recolhidos no meu trabalho de campo)?

Sensação de desvalorização das preocupações e desafios que as pessoas assexuais enfrentam;
Desconsideração das preocupações das pessoas com pouco desejo sexual ou desejo sexual baixo, não necessariamente assexuais;
Sentem-se pouco bem-vindas num movimento que raramente aborda as suas questões e onde o vocabulário ligado à assexualidade, as suas definições ou as suas questões de reivindicação comum, são apagadas e consideradas sem importância;
Sentem que as experiências sexuais negativas que existem na comunidade assexual são silenciadas (o sexo é sempre considerado bom e não pode ser de outra forma);
São constantemente alvo de piadas sobre as suas práticas sexuais ou ausência delas;
Desconsideração ou até uma demonização de pessoas assexuais que se encontram em relações românticas ou que têm relações sexuais;
Isto é apenas parte do que relatam, mas o suficiente para tornar visível o quanto de sexonormativo e por consequência antiassexual pode o feminismo sex-positive ser sentido e encarado por pessoas assexuais.

Ou seja, apesar daquilo que se defende à partida, na prática mantém-se a sexualização do mundo, que o sexo é aquilo que nos torna humanos e reforçam-se ideias que podem ser muito penalizadoras de quem vive a sua sexualidade de uma forma distinta desta. Apesar de feminista, a sex-positivity pode ter muitos paralelos com as normas da sexualidade vigente.

Onde quero chegar com esta descrição é que há uma falsa ideia de que estamos a desfrutar de um momento de pós-revolução sexual, e de uma consequente libertação em que toda e qualquer pessoa é verdadeiramente livre sexualmente e onde a liberdade sexual e a possibilidade de se ser aquilo que se é, está disponível para todas as pessoas. A época em que vivemos na sociedade ocidental não é genuinamente livre em termos sexuais porque se o fosse ofereceria a possibilidade de cada pessoa (homem, mulher, trans – todas as pessoas) ser livre na sua forma de viver a sexualidade.

Numa cultura fixada na exposição do corpo, nomeadamente em genitais, que não é sexualmente liberada, mas sexualmente liberal, não ter sexo ou não sentir atração sexual é considerado inaceitável. Se se tratasse de uma sociedade sexualmente liberada e não sexualmente liberal, todas as possibilidades de sexualidade seriam consideradas identidades e possibilidades sexuais válidas.

A identidade assexual é muitas vezes interpretada como sendo inerentemente anti-sexo (o que não é verdade) ou inerentemente slut shamer (o que também não é verdade). As pessoas mais sex-positive – no verdadeiro sentido da expressão – que eu conheci até hoje, são pessoas que se identificam como assexuais.

Muitas correntes e tipos de feminismo advogam a visibilidade e a aceitação de minorias sexuais (sejam identidades, sejam orientações), o que incluiria orientações relacionais e sexuais como o poliamor, a pansexualidade e assexualidade, por exemplo. Mas isto não acontece, e as questões que relatei não dizem apenas respeito a pessoas assexuais, mas também a todas as pessoas que queiram sentir-se seguras em diferentes espaços. Diz também respeito a pessoas ou grupos que queiram promover espaços seguros e de liberdade sexual que não podem continuar a ser dirigidos a pessoas com o desejo sexual considerado médio ou alto. É que ao fazer isto estão a ser deixados de lado assuntos vitais da experiência real, vivida, diversa da sexualidade humana e o que fica como resultado são obrigações e normas.

O que quero dizer é que um feminismo sex-positive é muitas vezes um feminismo pró-sexo e não pró-sexualidade e isso, naturalmente, entra em conflito com diferentes formas de viver a intimidade como a assexualidade.

Há aqui que fazer a ressalva de nem todo o feminismo sex-positive ser acrítico, muito pelo contrário. Existe a preocupação com a interrogação do status quo e não apenas com a celebração do sexo. A crítica feita não deve levar a que se tome o feminismo sex-positive como um todo.

A questão central é estar alerta e problematizar o perigo da limitação à compreensão da diversidade sexual, de se poder silenciar e ou ser terrivelmente penalizador e violento para com pessoas que não são a norma. Mas também refletir sobre facto de haver uma grande presença pública do feminismo, – há mulheres a pararem países inteiros para reivindicar os seus direitos, foi uma das palavras do ano, anda nas bocas de estrelas pop, está presente em diversas formas de arte, – e pela elevada presença da tecnologia chega a um número enorme de pessoas. E essa presença pública do feminismo não pode abordar a questão do ‘não sexo’ como uma espécie de projeto falhado da revolução sexual.

Aquilo para que a assexualidade chama a atenção, entre muitas outras coisas é para os afetos, para as emoções, para a negociação, comunicação e consentimento, para sentimentos e não necessariamente para comportamentos. Mais do que isso, chama a atenção para duas outras questões que são muito importantes: é que no rescaldo da revolução sexual e da conquista de direitos sexuais para toda a gente, com grande destaque para as reivindicações do direito ao sexo, ao corpo e ao prazer por parte das mulheres, parece ter-se desvalorizado um outro, que é o direito a não ter sexo; e outra, que me é particularmente querida e que é algo que ando a trabalhar e a aprender e a integrar no meu feminismo que é o respeito pela vulnerabilidade, a própria e a dos outros. O (meu) feminismo também se faz disso.

Até porque mais do que uma orientação sexual, uma identidade, uma forma de organização comunitária, para mim, desde que comecei a investigar o tema e a envolver-me no ativismo assexual, a assexualidade é também, e de forma muito importante, uma forma feminista de ver o mundo.

[1] Projeto de investigação ‘The Asexual Revolution: discussing asexuality in Portugal through the lens of Human Rights’, orientado pela Professora Doutora Ana Cristina Santos e pela Professora Doutora Maria Gabriela Moita, cofinanciado pelo Fundo Social Europeu, através do Programa Operacional Potencial Humano e por Fundos Nacionais através da Fundação para a Ciência e a Tecnologia no âmbito da Bolsa de Doutoramento com a referência SFRH/BD/52281/2013.

 

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