Perfil de Estilo: Marta Guerreiro
14/03/2016
0

Marta Guerreiro, Londres

Emigrou há quase dois anos para Londres e vai começar o curso de Jornalismo em Setembro. É ativista e o seu dia é ocupado com feminismos – está em todas as lutas que consegue. O seu sonho é trabalhar em jornalismo na área de fashion, especificamente queer fashion. Tem um blog sobre o seu poliamor do qual se orgulha muito.

 

O que gostavas de partilhar de ti? 

Gosto de palavras e tenho sempre medo de que as palavras não me cheguem. Acho muito importante conseguir expressar-me através da escrita. Podia viver de sumo de laranja natural e sopa da minha mãe. Pensei que aos 21 anos tinha uma vida estabilizada, agora percebo que ainda não sei o que ando aqui a fazer – e que não faz mal. Sempre quis crescer rápido, agora quero parar o tempo e fazer dele suficiente para lutar. Escrevi o meu primeiro livro aos 14 anos e o segundo aos 16 – tenho muito orgulho de ter feito algo com tanta importância tão cedo mas com o crescimento encontro neles muitas coisas erradas. Não me culpo, no fim de contas somos educadxs numa sociedade heteromononormativa. O importante é aprender, desconstruir e encontrar a felicidade nas construções que são nossas.

 

Como defines o teu estilo?  

Acho que a minha mãe responderia desleixado. Agora a sério – sou femme e sinto-me muito bem representada assim. Sinto-me representada mas não me sinto abraçada. Gosto do alternativo. Gosto de me sentir bem com a minha roupa – e por bem não quero dizer magra nela; quero dizer, sentir-me eu. Adoro a possibilidade de explorar roupa. Sou de extremos.

 

Qual é pessoa que dirias é o teu icon de moda e porquê?  

Eu tenho um carinho enorme pela Coco Chanel. Quando andei a fazer um trabalho sobre queer fashion encontrei umas fotos maravilhosas dela com calças – é importante sim. Juntamente com essas fotos existia uma citação dela onde explicava como gostava de explorar a roupa do marido. Além da marca – que em maquilhagem é a minha primeira opção apesar de não ser economicamente acessível – a própria Chanel teve discursos maravilhosos. Existem os discursos do pressuposto de Mulher e de beleza associada a ela com os quais não concordo, sim, existem. No entanto comprei um livro enorme e maravilhoso que explora outro tipo de discurso com o qual me identifico imenso.

 

Quanto do teu estilo é influenciado pela tua identidade? 

Muito, presumo. O meu estilo varia exactamente pelo que estou a tentar representar (ou pela forma como acordo?) Sinto necessidade de me expressar através do alternativo – tatuagens, piercings, cor de cabelo, etc. Tenho dias em que quero mais – quero o alternativo com uma boa mala e um anel que brilhe. Outras alturas quero uma camisola larga e um anel com uma caveira enorme. Sou eu multiplicada – nunca dividida. É a possibilidade de nos expressarmos através da roupa, dos acessórios, sei que o meu grita sempre – existo. Estou aqui. Posso corresponder aos parâmetros do que querem dizer com profissional mas sem deixar o resto de mim – a voz que me preenche o corpo; as cores que me preenchem o cabelo – e sei que isso me pode dificultar em situações laborais, é uma decisão minha enfrentar isso.

 

Quais são as peças de roupa favoritas que tens no teu armário e porquê?  

Vestidos pretos. Todos eles. Sinto-me super bem de vestido desde que comecei a amar o meu corpo. O preto – bem, é imprescindível. Gosto da ideia de um bom vestido preto com uns ténis de uma cor forte.

É fácil para ti comprar roupa? Qual o teu sítio favorito para comprar roupa? 

Não é fácil para mim comprar roupa. Todas as lojas mais acessíveis só o são para pessoas que têm um corpo que a sociedade considera o suposto. Encontrar calças que me sirvam na anca e não tenham cinco metros de comprimento é quase impossível. Todos os vestidos que não são de alças ou me apertam o peito ou os braços. Fui educada a comprar roupa em feiras, nunca olhar a marcas. Hoje em dia existem marcas mais caras de que gosto mas não me assusta chegar ao Domingo e ir comprar roupa na feira com a minha mãe. Por incrível que pareça é dos poucos sítios em que encontro roupa que me sirva e que seja monetariamente acessível. As calças especificamente só consigo comprar na C&A. Quando emigrei emagreci imenso e comprava roupa em todo o lado, no entanto não me sentia concretizada. Lembrava-me de todas as vezes – como agora, que engordei novamente – em que essas marcas não tinham roupa para mim.

 

Qual é o teu maior desafio quando compras roupa?  

Experimentar. A sério – eu detesto experimentar roupa. Acho sempre que os espelhos do provador gostam de realçar celulite e o espaço que ocupo. É isso que a sociedade nos diz: ocupamos muito espaço. Mesmo agora que me sinto feliz com o meu corpo continuo sem gostar de experimentar roupa em lojas. Sufoca-me.

 

A comprar roupa, qual foi/é o teu maior fail?   

O que foi e o que é – como não gosto de experimentar roupa tenho a mania de comprar as coisas e só usar em casa, corre sempre mal. No entanto houve esa situação muito cómica. Comprei umas calças na Forever21 – na altura que estava mais magra – e ia viajar para Portugal no dia a seguir. Estavam em promoção e eram as únicas, conclusão? Nem vi o tamanho. Coloquei as calças de lado para as vestir para a viagem. Quando as fui vestir não passavam no rabo, insisti. Fui tão teimosa que consegui vestir aquilo. Percebi depois que era um S. Óbvio que não conseguia nem me sentar nem respirar. Chamei a pessoa com quem namorava e pedi-lhe que me ajudasse a tirar as calças. Perdemos muito tempo naquilo, quase que foi precisa uma tesoura. Elx só se ria e eu nem isso conseguia. Fui viajar sem as calças e com marcas nas pernas de quando as tentei despir.

 

Achas importante a visibilidade queer, porquê?  

É impossível não achar. Devemos ter em conta a necessidade de nos afirmarmos. Existimos – temos voz. Lutar contra a associação de géneros a roupa; lutar contra as caixas do que é ser lésbica. Do que é ser gay. Permitirmos explorarmos o que somos e sobretudo: permitirmos a liberdade dx próximo para explorar a sua identidade. Devíamos (digo devíamos, porque não acontece) abraçar a minoria que somos e com todas as nossas minorias criar uma maioria – que não o é, na prática – mas que se apoia em força. Que não faz julgamentos com base na muita ou pouca roupa. Nas cores. No estilo. Que não faz constantes associações de género a tudo. Que dá espaço para criarmos o que nos faz sentir mais confortáveis, sem medo.

 

Achas que a moda ajuda a criar espaços inclusivos, de comunidade e expressão diferenciadas? 

A minha opinião é muito fria: não. A moda acaba por criar caixas. O problema não está na moda nem está nos estilos mas sim na cabeça das pessoas. Os estereótipos existem. O meu corpo, numa perspectiva social, não me pertence. Quando decido o que fazer com ele estou a decidir o que estou a fazer comigo. Podia dizer que apesar disso, comunidades com a LGBT não nos julgam com base nesse tipo de decisão. No entanto, enquanto pessoa lésbica, sofro muito dentro da própria comunidade. Ser femme não é abraçado. Somos ignoradxs. A misoginia é enorme e é lá que nos colocam. Li recentemente este texto maravilhoso. Eu sabia que acontecia não me encaixarem na caixa de lésbica mas não compreendia a problemática. As unhas grandes. O ser feminina. O rosa. Os anéis. As saias. Ah! Tu não pareces lésbica. Isso magoa-me. Ser lésbica faz parte da minha identidade. De cada fez que me fazem esses comentários, estão a anular o que sou. No fim de contas o que é que significa parecer lésbica? Dentro da comunidade um homem gay não deve ser muito “feminino” – feminino é mau. Dentro da comunidade, a expressão de género nem sempre é entendida e respeitada. A única coisa que eu sei é que ninguém está no lugar de julgar outra pessoa com base no estilo que tem – ou seja, o seu todo. Já cansa colocar tudo em caixas. Explorar a roupa, o cabelo – explorarmos o nosso corpo – é saudável. A moda, a forma como a sigo e a forma como me expresso é também activismo. De cada vez que escolho sair de casa de alguma forma, escolho representar-me dessa forma. Impor-me dessa forma. De cada vez que escolho um decote ou uma camisola transparente, sei exactamente o que significa – significa que tenho um decote ou uma camisola transparente. Significa que foi essa a forma que escolhi para combinar a minha roupa. O espaço inclusivo em que isso me coloca é absolutamente nenhum. Infelizmente o preconceito, os esteriótipos, femmefobia, slutshaming e gordofobia vêm também de dentro. Se na minha comunidade me tentam anular a identidade com base em esteriótipos que xs próprixs condenam – onde é que me vou sentir confortável?

 

Podes encontrar a Marta aqui e o seu artigo no Qs aqui.

Queering style

Queering style

O queeringstyle é um espaço queer feminista, que tem como missão a visibilidade de discursos, de identidades variadas para que pessoas possam falar de si, estar e ocupar espaço.
Queering style

Artigos recentes por Queering style (ver todos)