Perfil de Estilo: Jenny Gomes
23/11/2017
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Jenny Gomes, Madeira/Lisboa

A Jenny tem 24 anos, é psicóloga e é uma das pessoas por detrás do projeto Mad le’s Femme: um grupo informal e virtual que apresenta como principal objetivo a apresentação, partilha, discussão e divulgação de ideias e argumentos sobre arte e assuntos sociais.
A visão é a de conseguir alcançar um grupo coerente e consistente que através da arte, exprima o seu pensamento crítico e inclusivo e a sua voz e participação ativa, quando são abordadas causas sociais.
São defendidos valores como o respeito, a igualdade/equidade, a cidadania, a solidariedade e a participação ativa.
Poderão ser publicados documentos, imagens/fotografias, gifs, citações, opiniões, questões, etc.
A inclusão no grupo é independentemente da idade, etnia, religião, partido político, filosofia de vida, estilo de vida, identidade sexual e orientação sexual, status socioeconómico e profissional.
É importante que todos/as os membros respeitem este espaço virtual. Não serão permitidas discussões não pacíficas, ofensas, injúrias, ameaças, conteúdos inapropriados, etc.

A Jenny tem ascendência Venezuelana e Portuguesa, vive na Madeira e a sua filosofia é: Tudo é Arte, Arte em tudo.

 

Para partilhar de si a Jenny diz: 

O núcleo do meu Mundo é composto por Amor e Arte. Tudo o que me desperta e move abrange um desses ingredientes ou a sua perfeita combinação. O meu maior sonho é sentir nesta passagem, a sensação de flutuar entre planetas e estrelas. Tenho uma mente muito ativa, uma necessidade de estar sempre a criar, inovar e aplicar, algo útil. O tempo é sagrado. Acredito que a infância é uma fase de vida que teve uma grande influência na personagem que sou hoje, mas não me determina. Os meus estudos académicos permitiram-me trabalhar junto a populações em risco (vítimas de crime, incluindo pessoas vítimas de violência doméstica; população LGBTIQ+; e crianças e/ou jovens com medida de promoção e proteção). Sou ambivertida, empática, emocional vs. racional e muito focada nas relações humanas e no trabalho. Vejo em cada Ser Humano uma Arte única. A Arte não é boa ou má, é Arte e ponto. Afinal, tudo é uma questão de perspetiva!


Como defines o teu estilo?  

Penso que o meu estilo encaixaria em diversos conceitos de moda. É sem dúvida um estilo bastante femme, podendo ter alguns apontamentos fluidos. Se pudesse atribuir-lhe um nome seria “Express”, porque tento exteriorizar a minha personalidade e expressar-me através dele. Durante a minha adolescência utilizei o meu estilo para reivindicar, e por vezes continuo a fazê-lo. A minha família é de uma zona rural e emigrante, e sendo eu uma mulher luso-venezuelana sempre tive que lidar com duas culturas completamente distintas (a latino-americana e a europeia), que têm estereótipos de beleza, moda e lifestyle diferentes. Várias vezes senti discriminação por não querer usar sapatos de saltos na adolescência e preferir ténis, por ter tido várias vezes cabelo curto “como um rapaz” ou muito comprido “como uma cigana” ou rastas “como uma drogada”, por não submeter-me a uma cirurgia plástica mamária, e até por ter ingressado na faculdade – a pressão sobre as mulheres latino-americanas são imensas, não esquecendo que são muitas vezes “Miss Universo” e espera-se sempre que mantenham esse título. Na cultura europeia a persuasão para a magreza e o seguir as “fashion trends” é elevada e influencia por vezes, a forma como nos vestimos e até quem somos. Num sistema de imagem, é um desafio sermos nós próprios. Contudo, expresso-me, como quero e como sou, afinal de quem é o meu corpo?

Qual é pessoa que dirias que é o teu icon de moda e porquê?  

Tenho várias! Penso que um dos meus ícones de moda seria uma mistura e equilíbrio entre a estilista venezuelana Carolina Herrera, com as suas criações muito femininas e requintadas, com peças cintadas, saias em “corte A” e transparências. A intemporal Coco Chanel, pelo estilo clássico, aparentemente conservador, mas desafiador, como a aplicação do simples baton vermelho. E finalmente a Stella MacCartney, com o estilo muito clean, confortável, centrado no minimalismo, que aprecio muito. Um mix de vintage e clássico com minimalista e confortável, sem nunca abandonar o estilo femme, seja ele formal ou informal.

 

Quanto do teu estilo é influenciado pela tua identidade? 

Bastante! Penso que cada pormenor do meu estilo cruza-se com a minha identidade. Uso muito o meu cabelo ao natural (embora também varie), com caracóis soltos e livres, como forma de expressar o rio de pensamentos e ideias que quero libertar! A minha marca, desde tenra idade foi o uso do baton vermelho, que fui buscar ao único atrevimento da minha tia materna, que foi uma grande influência no meu estilo mais vintage e clássico. O meu lado clean e minimalista fui buscá-lo ao meu lado artístico, aos meus desenhos, fotografias, mas sobretudo a uma filosofia de vida oriunda do Japão que em muito me ajuda na minha organização e equilíbrio. E o feminino porque desafia a sociedade heterossexista, uma mulher ser muito feminina, aparentemente delicada, focada na sua vida laboral, conseguir estar à frente de trabalhos importantes, desde trabalhos nas áreas sociais, no ativismo, no voluntariado, às artes e ao empreendedorismo. Quem me diz que não posso escalar com saltos altos?

Quais são as peças de roupa favoritas que tens no teu armário e porquê? 

A minha peça favorita desde sempre são as blusas ou camisas. Por serem muito parecidas comigo, adaptáveis a qualquer contexto. Brancas e formais para uma reunião de trabalho; de ganga para um estilo mais grunge alternativo; de flanela para um piquenique na Serra; com botões e bordados antigos para um estilo mais vintage; com linhas retas para um mais minimalista; amarradas para os dias de maior calor; com mangas arregaçadas para um estilo mais descontraído. Tenho uma coleção de blusas e camisas, maioritariamente em segunda mão, tanto de homem, como de mulher, algumas até de crianças e de sénior – basta eu gostar, as uso, em qualquer contexto!

 

É fácil para ti comprar roupa? Qual o teu sítio favorito para comprar roupa? 

Não é fácil. As mulheres latino-americanas têm uma estrutura corporal diferente das mulheres europeias. A maioria das lojas comerciais e com preços mais acessíveis são de marcas espanholas (logo europeias) em que as roupas são para pessoas magras. Gosto muito de roupa italiana e francesa, no entanto os tamanhos são ainda mais reduzidos do que os espanhóis e/ou portugueses. Por isso, por vezes é um desafio ter uma cintura muito fina, ancas largas e um traseiro não muito pequeno e encontrar aquela peça de vestuário confortável. Na adolescência só vestia a cor preta e por vezes ia buscar calças à secção de homem porque encontrava números maiores e cores mais neutras. Não sou escrava da moda, a indústria da moda deve ser mais versátil para chegar aos vários tipos de clientes. Infelizmente pela falta dessa adequação, muitas pessoas podem ficar com a autoestima afetada, e sentir, de forma indireta ou não, que não estão incluídas. Os sítios que mais me identifico para comprar roupa são lojas retro e vintage (e.g.: “A Outra Face da Lua”, em Lisboa; a “UR brand”, no Porto, a “Cuca”, na Madeira). Gosto também de algumas peças que encontro online, no entanto ando a arriscar menos nas compras online devido aos perigos na internet.

Qual é o teu maior desafio quando compras roupa?  

O meu maior desafio é talvez ter um constante diálogo interno comigo de forma a apaziguar a dissonância entre os tamanhos que estão disponíveis e o meu corpo. Se o S não servir no meu corpo, penso que a peça de roupa tem um modelo reduzido devido ao material ou a um qualquer outro fator, em vez de pensar que estou muito longe de ser considerada uma pessoa com um corpo de modelo de passerelle (as tais pessoas que os outros costumam rotular como bonitas). É preciso algum jogo psicológico, tanto para esta questão, como também para a do marketing e a publicidade em volta deste setor de atividade.

 

A comprar roupa, qual foi/é o teu maior fail?   

O meu maior fail foi e continuam a ser as calças. Como é uma peça de roupa com costuras mais fechadas, o oposto das saias e vestidos, dificilmente compro o tamanho adequado ao meu corpo. Apesar de saber qual é o meu número, que pode variar conforme o modelo ou o têxtil, faço sempre questão de comprar a roupa só depois de a experimentar. Na loja aparentemente fica bem, no uso quotidiano acabam por ficar ou apertadas ou largas. Acaba por ser uma peça de roupa que nem sempre favorece a minha silhueta latina. E este é o meu drama com as calças!

Achas importante a visibilidade queer, porquê?  

Acho muito! Devemos ser quem somos, fazer o que quisermos (sem colocar o/a próprio/a e/ou terceiros em risco), vestir o que queremos, estar com quem queremos, ir onde quisermos. O mundo da Moda tem evoluído muito ao longo dos anos, desde os loucos anos 20, com a emancipação da mulher, as mulheres começaram a fumar e a usar calças em público, numa sociedade onde isso era só permitido ao homem. Nos dias de hoje muitas pessoas pertencentes a identidades e orientações sexuais minoritárias, por exemplo, são grandes influenciadores de moda. No entanto ainda há muito por fazer, relativamente aos padrões de beleza, às “fashion trends”, às roupas só para mulheres e só para homens – criar novos produtos para pessoas gender-fluid ou pessoas gender-neutral, para drag queen ou drag kings e muitos outros. A Moda é uma linda Arte, e os rótulos limitam a Moda, porque nunca antes um artista foi feliz dentro de uma caixa. Independentemente deste mercado, expressa-te, sê quem realmente és!

 

Achas que a moda ajuda a criar espaços inclusivos, de comunidade e expressão diferenciadas? 

Às vezes. Varia muito do designer, do evento, da loja, da população que frequenta os espaços comerciais ou alternativos da moda. Eu frequento muitos eventos artísticos e alguns deles são da área da moda, e por exemplo, muitas pessoas LGBTIQ+ estão presentes nesses espaços e sentem-se incluídas. Algumas (não todas) são consumidoras assíduas dos produtos do sector comercial, especificamente o têxtil. No entanto, idosos não são muito vistos ou pessoas portadoras de deficiência física ou até mesmo novamente pessoas LGBTIQ+ que não se identificam como sendo do sexo feminino ou masculino, mas sim outro. O que observei ao longo do tempo é que o mundo da Moda é um comércio, é uma forma de adquirir dinheiro fácil e rápido. A manipulação está em muitas campanhas, media, que muitas vezes não são inclusivos e quando o são, são para um fim mais económico do que um fim mais social e humano ou porque simplesmente “está na moda”. O poder, o sexo e o dinheiro tornaram-se grandes parceiros. Os/As fashion designers, fashion bloggers ou os/as fashion influencers são as pessoas que ditam as “fashion trends” para uma população inteira, que queiram ou não queiram as seguir, é isso que encontram mais disponível no mercado. Criou-se também na minha opinião, um elitismo grande dentro da moda, porque afinal ter na conta do instagram uma fotografia com uma mala dos chineses não é o mesmo do que ter uma com uma mala Louis Vitton (embora não saibamos como são produzidos os produtos e como são os direitos laborais e salariais dos trabalhadores destas empresas). Porque afinal para ir a uma Fashion Week é preciso ter um convite ou ter recursos económicos para adquirir um bilhete. Isto passa-se por vezes de forma subtil e na minha perspetiva é pouco inclusivo. A Moda deveria acolher todes! Não restringir a Moda apenas para algumas pessoas. Todes somos mais do que aquilo que vestimos. Já Coco Chanel dizia “O Luxo é tudo aquilo que não se vê!”.

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O queeringstyle é um espaço queer feminista, que tem como missão a visibilidade de discursos, de identidades variadas para que pessoas possam falar de si, estar e ocupar espaço.
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