Pê-lo pêlo.
01/08/2017
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Chegou o Verão. Está um calor infernal (uso a palavra propositadamente porque aquilo que se faz sentir e o que o calor deste Verão tem causado por Portugal tem muitas parecenças com aquilo que chamam de inferno).

As roupas que nos cobrem mesmo que poucas ou curtas são sempre demais porque o que quer que se ponha em cima do corpo faz calor, aquece e é promotor de suor em pinga porque mesmo as partes do corpo que não estão cobertas com tecido estão cobertas com uma fina camada de água que o nosso corpo produz para nos arrefecer o que está dentro.

Nisto de cobrir e descobrir, quem opta por deixar estar o pêlo que naturalmente cresce no corpo, rapidamente descobre também que toda a gente tem um problema com os seus pêlos e ao que parece o calor dos outros aumenta com os pelos alheios.

Já tive esta conversa um sem fim de vezes com várias pessoas. Mais próximas, mais conhecidas, menos próximas, menos conhecidas. Dado que o meu pêlo provoca também um sem fim de reacções de surpresa, asco, repulsa e horror ao mais variado número de pessoas.

No outro dia no trabalho uma miúda tapou os olhos e dizia para eu não lhe mostrar o pêlo que tenho debaixo dos braços, nas minhas axilas que era nojento (sendo que eu sei que a palavra nojento faz parte do léxico de toda a adolescente para descrever toda e qualquer coisa de que não goste ou que não concorda) e que ela não queria ver. Eu perguntei-lhe porquê, ela disse-me que não era bonito

Já me disseram também:
– que horror Alexa, não sei como consegues.

A reação mais comum é:
-que feio Alexandra, quando é que tiras isso, é horrível.

Os argumentos são:
-Não é bonito
-Não é higiénico.

Mas o que eu mais adoro é quando dizem não é feminino.

Todas estas reacções deixam-me a pensar o que faz com que:
1- o pêlo num corpo lido como de mulher seja tão feio. O que é que faz com que seja feio e por isso torne o corpo da mulher feio.
2- as reacções ao pêlo sejam tão from the gut (ou como quem diz do intestino). As pessoas não conseguem inibir-se de comentar de ver o pêlo com estranheza.
3- tantas pessoas gostassem de não ter de se depilar mas depilam porque mais uma vez, é horroroso! Obra de quem só pode querer mal ao bom e bonito.

Dizem, que foi o Marketing que estragou o pêlo:

Eu não sei, eu só sei que durante muitos anos depilei o meu pêlo e atenção, eu não prometo que não voltarei a fazê-lo especialmente se souber que me vou encontrar numa situação em que ponderando, vai-me ser mais difícil explicar e falar sobre pêlo do que tirá-lo previamente. No entanto, há cerca de dois anos decidi que não tinha de me depilar.

Sempre detestei a sensação do pêlo enquanto cresce. Pica e é áspero e causa-me irritação na pele para além de que esta seca, principalmente debaixo dos braços. Apanhava-me a coçar as axilas vezes sem conta. Aplicava desodorizantes com hidratante e cremes e óleos que depois faziam com que o meu suor tivesse um cheiro mais activo.

Eu não me sentia confortável.
A sensação áspera dos pêlos a crescer nas pernas fazia-me arrepiar ao toque de qualquer tecido. Vestir calças era um sofrimento. O mesmo nas virilhas, mesmo quer dizer, pior ainda. Pêlos encravados, cortes e feridas para além de pele seca e irritada houve aquela vez que me queimaram com cera quente na esteticista, de tal forma que não houve halibut que chegasse para me salvar de andar uns tempos de pernas abertas.

Entretanto ao mesmo tempo que lidava com estas maleitas estava também a educar o meu feminismo. A experimentar a possibilidade de viver o meu corpo enquanto meu, minha propriedade e não só enquanto influenciado por normas instituídas pela sociedade de como ele devia ser sendo que, andava também a perceber a forma como o meu corpo queer existia e se posicionava no mundo.

Por isso para mim a depilação definitiva nunca me fez sentido. Aquilo que importa não é ultrapassar o desconforto do acto da depilação nem ter a pele ‘limpa’ de pêlos para o agrado das pessoas à minha volta, mas sim, perceber porque é que o meu pêlo é assim tão horrível ou melhor, o que é que há assim de tão feio no meu pêlo, seja o que cresce nas pernas, nas virilhas, nas axilas ou no topo da minha cabeça.

Para falar de pêlo tenho de falar também na vivência da masculinidade no meu corpo, lido enquanto feminino tantas vezes, passava e passa muitas vezes por adoptar formas e normas lidas enquanto masculinas na sociedade de forma a conseguir transitar neste mundo de forma mais neutra, mais na minha pele.

Explicar tudo isto ao vizinho do lado que tece um comentário sobre o meu pêlo é algo para que às vezes tenho disponibilidade mas, na maior parte dos dias e das noites eu só gostava que isso não fosse uma questão e que o meu pêlo não fosse um incómodo para as outras pessoas afinal é meu, está no meu corpo.

Dizer que não me interessa e que não quero saber é mentir. É não ser verdadeira com a realidade. No entanto quanto mais penso nisso mais me faz sentido continuar com o pêlo e sem a depilação porque horrível não é o pêlo é que o achem horrível. Feio não é o corpo lido como o de mulher logo, feminino, com pêlo mas que se ache que o mesmo é feio com pêlo.

Alexa Santos

Alexa Santos

Depois de anos sem encontrar um espaço que pudesse chamar seu, Alexa criou o queeringstyle. No início uma página de Tumblr, hoje um espaço para pessoas que queiram falar, estar, partilhar. Não sabe muitas vezes parar porque, tudo o que faz vem do centro do peito. Gosta de fazer muitas coisas ao mesmo tempo, por isso é possível que se encontrem algures. Se sim, não deixes de dizer olá.
Alexa Santos

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