Para Além do Básico: um guia para aliados
21/05/2016
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Este post toca num tema que me é surpreendentemente difícil de abordar. Fazendo uma pesquisa no Google, é fácil encontrar “guias” sobre “como ser um aliado”. Normalmente, esses guias consistem em listas de atitudes que uma pessoa deve ter de forma a respeitar a identidade da pessoa e de forma a ser uma pessoa minimamente decente para com as pessoas trans. Coisas como “respeita o nome e pronomes das pessoas” ou “não divulgues a outras pessoas que essa pessoa é trans sem a permissão dela”. Eu não consigo aceitar esses artigos como sendo realmente “guias de aliados”; não porque discorde do que consta nessas listas, mas porque considero que ser um aliado deveria ir mais além do que ser uma pessoa minimamente decente. “Não sejas um idiota transfóbico” é um standard demasiado baixo para começarmos a considerar outras pessoas como aliadas.

Tendo isto em mente, apresento de seguida uma compilação de sugestões para quem já está familiarizado com os conceitos básicos, mas quer melhorar a sua compreensão e tornar-se um aliado das pessoas trans.

Procurem informação. Antes de fazerem o que quer que seja, têm de saber o que é que estão a, ou o que é que devem, fazer. Esta parte parece fácil, mas na realidade pode ser bastante complicada. A internet é um poço sem fundo de informação e desinformação. Filtrar aquilo que interessa pode ser complicadíssimo, principalmente para quem está ainda a dar os primeiros passos. Numa primeira fase o melhor poderá ser falar com pessoas trans, tirar diretamente as dúvidas e questões que tenham ou pedir orientações e sugestões de leitura. No entanto, não é boa ideia dirigirem-se a qualquer pessoa trans aleatória com que se cruzem, ou estar a pedir àquela única pessoa trans que conhecem. Nem toda a gente tem paciência ou interesse em estar a educar outras pessoas. O ideal será procurarem pessoas que se demonstrem explicitamente abertas a questões em contextos em que poderá ser adequado faze-las. Por exemplo, alguém que se identifique como ativista num local de apoio ou ativismo. Apareçam em tertúlias, debates ou outros eventos sociais públicos que abordem o tema. Visitar fóruns online sobre a temática trans também pode ser uma boa ideia. Muitos fóruns não têm o hábito de apagar discussões antigas, portanto é fácil visitar essas discussões e ler o que já foi perguntado, respondido e discutido por outras pessoas no passado.

Tentem focar-se na informação útil. Por exemplo, saber porque é que o acesso a cirurgias é importante para as pessoas trans é relevante. Saber que cirurgias é que as pessoas trans que conhecem fizeram é irrelevante. Não é preciso terem conhecimento extenso sobre os pormenores da transição para serem bons aliados. Tópicos relevantes incluem:

  • o acesso aos cuidados de saúde trans-específicos e as suas respetivas barreiras
  • a situação legislativa das pessoas trans e de que forma pode ser melhorada
  • prevalência de bullying e crimes transfóbicos
  • taxas de desemprego, criminalidade, etc das pessoas trans

Ao longo deste processo, tenham cuidado para não caírem num loop de enviesamento a favor das vossas opiniões. Há várias questões em relação às quais não existe um consenso, mesmo entre pessoas trans. Ninguém é completamente isento de opiniões, portanto quando começarem a procurar informação vão encontrar pessoas trans cuja opinião é semelhante àquela que inicialmente têm, e outras pessoas trans cuja opinião é bastante diferente. Informem-se em relação aos dois (ou três, ou quantos houver) lados da questão. Não nos usem para justificar as opiniões que já tinham antes, nós não somos carne para canhão para opinião ou agenda política que tinham antes de se interessarem por nós. Se se informarem sobre as várias questões e chegarem à conclusão que a vossa posição inicial é a que faz mais sentido tendo em conta a informação que recolheram dos vários “lados” de uma discussão, é totalmente válido. Mas apelo a que genuinamente tentem ver e compreender o lado oposto àquele com o qual mais se identificam. Não só é isso um bom exercício de empatia, como pode ajudar a que mantenham uma mente aberta (ser ativista pelos direitos das pessoas trans não é algo que, por si só, torna alguém numa pessoa com mente aberta!).

Não se esqueçam que estamos a falar de pessoas, não de ideologias e conceitos meramente teóricos sobre género e/ou identidades. Abstrações teóricas podem ser exercícios intelectuais interessantes mas, na maior parte dos casos, são completamente inúteis do ponto de vista prático e pouco ou nada representam as experiências e sentimentos reais de pessoas reais (inseridas em contextos sociais diversos e muito diferentes dos vácuos frequentemente usados para construir os cenários teóricos). Antes de qualquer teoria, vêm as experiências das pessoas trans, mesmo que as mesmas entrem em conflito com a “teoria”. Daqui reitero a importância de falar com as pessoas trans de forma a melhorar o vosso conhecimento e melhorarem-se como aliados.
Não reivindiquem por nós, caso existam pessoas trans no mesmo espaço. Por vezes não existem pessoas trans num determinado contexto de ativismo e reivindicação de direitos, aí poderá ser aceitável um aliado cis tomar uma posição, contando que tal pessoa terá consultado pessoas trans antes de tomar a iniciativa de o fazer e age apenas como porta-voz para as pessoas que não podem estar lá. Mas, em qualquer outra situação, havendo pessoas trans, deixem-nos a nós fazer a nossa cena. Se forem convidados a juntar-se a nós, fiquem à vontade para o fazer, mas caso contrário fiquem onde estão. Nós conseguimos safar-nos sozinhos. A vossa voz e presença não será necessariamente má, incorreta ou indesejada, mas a insistência que alguns ativistas têm em falar por nós só serve para perpetuar o status quo que nos deixa sem voz (ou com uma voz extremamente diminuída, diluída no monte de vozes de “aliados” cis que serão sempre numericamente superiores a nós), sob o (irónico) pretexto de quererem dar voz às questões trans.
Este ponto é particularmente relevante dentro de círculos de ativismo LGBT. Apesar de, historicamente, existir esta associação dessas 4 letras num único movimento, há muitas questões específicas à população T que não estão relacionadas com as questões específicas da população LGB (e vice-versa). Ser uma pessoa homo- ou bissexual não vos dá legitimidade para falar em nome das pessoas trans.

Se forem fazer o que quer que seja relacionado com as pessoas trans, falem connosco. De preferência, incluam-nos no projeto que estão a desenvolver. Isto aplica-se a coisas desde a escrita de manifestos de marchas, peças jornalísticas sobre o tema, peças de arte performativa, teatro, literatura, etc. É bom quando alguém que tem algum tipo de plataforma com uma audiência a usa para chamar a atenção para a temática trans. No entanto, isso pode (e acontece frequentemente) muito facilmente ser arruinado pela falta de conhecimento e/ou tacto da pessoa (ou conjunto de pessoas, associação, coletivo), acabando por dar origem a peças transfóbicas. Reconheçam que não faz sentido desenvolver o que quer que seja sobre pessoas trans sem que nenhuma pessoa trans esteja envolvida. Não se convençam de que têm muito conhecimento sobre o tema, ou que já trabalham no tema há muito tempo e, portanto, não precisam de consultar ninguém. Estão errados. Por muito que leiam ou por muito contacto que tenham com pessoas trans, nunca vão ter a experiência de realmente ser trans, nem nunca vão saber exatamente como é que a transfobia nos afeta.

Se tudo isto for demasiada informação para digerir de uma só vez, foquem-se no princípio mais básico que deve guiar qualquer aliado de qualquer causa: saibam quando ouvir e saibam quando falar.

Nota: Optou-se pelo uso do masculino geral neste artigo no entanto, usamos a palavra aliado referindo-nos a todas as pessoas aliadas ou que se julguem aliadas de pessoas trans.

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