Os fantasmas da PMA – Parte I
29/12/2016
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Tive uma formação muito religiosa no meu contexto familiar, como se me fossem sendo instalados vários programas que eu questionava apenas superficialmente ou que provocavam em mim uma racionalização que me levava a sufocar as minhas dúvidas com uma palavra minúscula – fé. Fé em algo maior que eu, por mais que os princípios me diminuíssem como mulher ou não fizessem sentido algum. Percorri um longo caminho até deixar a igreja Mórmon (em 2005) e estou até hoje a correr um programa antivírus.

Conheci a Ana em 2009 e casámo-nos em 2011 – as motivações foram várias e não exclusivamente românticas, mas uma delas prendia-se com o facto de eu ter sido formatada para casar e ter filhos. Eu queria muito ser mãe e a Ana sentia que ainda precisava de amadurecer a ideia, logo o assunto foi sendo debatido até que resolvemos pesquisar sobre a inseminação artificial, método ao qual podíamos recorrer no país vizinho. Procurámos a melhor alternativa e fizemos duas tentativas, passando por um processo muito moroso e muito exigente do ponto de vista psicológico e emocional. Sim, era injusto não podermos recorrer à procriação medicamente assistida (PMA) em Portugal; sim, o investimento financeiro era grande e estes dois fatores incontornáveis dificultaram ainda mais o processo.

De julho de 2014 a janeiro de 2015 realizei diversos exames – uns mais dolorosos que outros; li bastante sobre o procedimento e fiz algumas perguntas, apesar de achar que teria feito mais se não fosse o incómodo de estar longe de Sevilha e de sentir que era acompanhada à distância. Acreditei que podia usar toda a positividade que tinha conservado em mim e que, tanto eu como as minhas amigas mais próximas, conseguiríamos criar um escudo protetor que mantivesse as melhores energias à minha volta. O universo seria justo e iria compadecer-se de mim, visto que um casal homossexual tampouco podia recorrer à adoção, por isso restava-me fazer uma inseminação em Espanha – o único caminho que me levaria a ser mãe, enquanto o parlamento português não aprovasse leis inclusivas. Digamos que seria um equilibrar da balança e uma retribuição justa perante tudo aquilo que me foi sendo negado ao longo dos tempos e pelo qual tanto batalhámos. Foi desta forma que argumentei comigo própria, denunciando inexperiência e uma clara falta de astúcia, pois tinha de tudo pressa e fui rasteirada pela falta de sorte.

A Ana acompanhou-me ao longo de todos os procedimentos e sofremos juntas após cada resposta negativa. Na noite de 12 de fevereiro de 2015, quando recebemos o resultado do teste, a minha mulher desabou e eu guardei as lágrimas num dos bolsos da minha alma, no entanto passei os dois dias seguintes a esvaziar esse bolso, sentindo-me maltratada pelo desfecho dos acontecimentos. Já não me sentia capaz de tentar mais uma vez, pelo menos naquela altura, uma vez que não estava a conseguir controlar a ansiedade e lidar com a dor. Na verdade, é como se tivesse de fazer o luto e a urgência em continuar não facilitava esse período. Decidimos aguardar alguns meses, enquanto eu utilizava esse tempo para interpretar e gerir as minhas emoções.

Tanto eu como a Ana fomos sempre pessoas muito ativas no que diz respeito a atividades desportivas, portanto ela prosseguiu com os seus treinos e dedicou-se às suas vitórias no kickboxing. No meu caso, tive de fazer paragens obrigatórias devido às inseminações, o que afetou o meu ritmo. Procurei retomar os treinos com ela e com a restante equipa, mas sentia-me fechada em mim mesma, mais introspetiva e com vontade de ir correr ou caminhar sozinha. Foi como se voltasse a ser adolescente e quisesse desafiar a autoridade e o rumo da minha própria vida, escolhendo andar na fronteira entre a minha zona de conforto e a experimentação de novas emoções, questionando os próprios conceitos que regiam as minhas reflexões mais íntimas. Nessa fase não identifiquei os sinais que indicavam a minha necessidade de buscar apoio psicológico para lidar com os fantasmas que começaram a atormentar-me e acabei por deixá-los circular livremente à minha volta.

Tanto eu como a Ana fomos procurando maneiras muito próprias de lidar com o nosso sofrimento e com as dúvidas que nos assolaram, acabando por seguir caminhos muito diferentes entre si, a nossa comunicação foi negativamente afetada e isso causou danos sérios na nossa relação. Há dois meses atrás comecei a perceber que havia entrado num quadro depressivo e resolvi marcar uma consulta com uma psicóloga que me tem ajudado a perceber o que motivou o aumento da minha ansiedade e o que posso fazer para conseguir gerir melhor todas os desafios que me surgem diariamente.

Apesar da grande amizade e do carinho que nos unem, as nossas prioridades diferenciaram-se e escolhemos, conscientemente, terminar a nossa relação romântica. Conservo o sonho e o objetivo de ser mãe e mantenho a luta que antecede a promulgação da lei relativamente à PMA e a sua consequente publicação no Diário da República. Sendo solteira, casada, divorciada ou viúva, sou perfeitamente capaz de assumir a maternidade, estando a trabalhar e a fortalecer-me para atingir esse propósito, tal como tantas outras mulheres que aguardam a possibilidade de fazer uma inseminação artificial em Portugal, não tendo que, obrigatoriamente, solicitar a tutoria de um homem ou a parceria de outra mulher.

Estou convencida de que a reportagem “A Fronteira da Hipocrisia,” da jornalista Susana Bento Ramos, fez a diferença e que muitas pessoas choraram connosco. A nossa história causou incómodo, humanizou as mulheres e fixou-se no centro do parlamento como se fosse uma rocha enorme que não podia continuar a ser ignorada. Por outro lado, ao escolher recorrer à PMA, há que ter em conta que o caminho não é fácil, que existem muitas condicionantes e que seremos testadas aos mais diversos níveis, pois a taxa de sucesso é de apenas 20% e é primordial reconhecer os sinais e pedir ajuda, para que o tempo e a deceção não nos maltratem ao ponto de perdermos o foco. A minha ideia é criar uma plataforma de entreajuda para que nenhuma de nós se sinta isolada, dividindo as notícias pesarosas, mas soltando pixéis de alegria a cada boa nova.

Para saberem mais sobre  as voltas da PMA é seguir a página:

www.facebook.com/inseminacaoparatodas2016

A notícia foi de 17 de Dezembro apesar da aprovação ter acontecido mais cedo este ano. http://sicnoticias.sapo.pt/pais/2016-12-17-Aprovada-procriacao-medicamente-assistida-para-todas-as-mulheres

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