O sumito Web e a gentrificação de uma cidade.
15/11/2016
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Lisboa, 18h, a caminho de casa.
Normalmente já acontece o metro ir a abarrotar, pessoas a empurrar para entrar, alguém que teve um dia mais difícil que entretanto manda um comentário para o ar, como a pessoa que apita no trânsito, quando o trânsito tá parado. como se isso fosse ajudar as pessoas a encolher de tamanho ou o trânsito andar mais depressa.

Atiramos para esta mistura de metros a abarrotar, finais de dia irritados ou manhãs sem vontade, mais 50 mil pessoas que ocupam a cidade durante uma semana.

São o sumo, a nata da nata das pessoas da tecnologia e por isso, o sumito web só pode ser bom para a vista, para a vida e para a economia da cidade. Afinal Lisboa anda a ser votada como a melhor cidade europeia para fazer férias por isso, para quem vê de fora é só mais uma razão para cá vir.

Esquecemos que quando temos uma laranja e lhe tiramos apenas o sumo, há toda uma quantidade de laranja que não é aproveitada no caso não é incluída. Estes eventos dizem muito sobre para quem são as tecnologias e ao mesmo tempo quem pode ou não usufruir da cidade, para quem é Lisboa afinal? Estes eventos fazem-me pensar em algumas coisas que já há algum tempo questiono.

Saber e partilhar do que é este mundo tecnológico de rendas altas é para quem? E para onde vai o resto da laranja?

O websummit é uma cimeira (o nome cimeira é já de si tão pomposo) internacional de coisas relacionadas com tecnologia, informação e cenas web. Na prática são um conjunto de conferências e palestras onde só pessoas que fazem coisas tecnológicas e etc que usem computadores e programas xpto, de video e imagem vão, principalmente que estejam à procura de fazer negócios chorudos e queiram ser a pessoa fundadora do proximo facebook, instagram ou criar o próximo Angry bird e Pokémon GO.

Não é necessariamente mau especialmente se a cidade não estivesse já sobre ocupada por turistas que faz com que não existam casas para arrendar a preços aceitáveis porque se um prédio não é um hostel está com certeza no airbnb ou só pode ser alugado, no máximo por 3 meses seguidos.

Não é necessariamente mau se nos serviços os salários não se mantivessem iguais e os preços das coisas não continuassem a aumentar.

“- 2€ um café?
– Aqui só se fazem preços de turista.”

Se tudo está ao preço para quem vem de fora, como é que quem está cá dentro paga?

Para além de todas estas coisas, continuamos a ter mais buracos a serem cavados nas estradas que fazem com que o trânsito se torne impossível porque vias continuam a ser estreitadas para dar lugar a estacionamentos, tudo para a cidade se tornar ainda mais convidativa.

A pergunta continua, convidativa para quem? Se tens de morar fora do centro e por isso para chegar à baixa levas horas, para depois pagar dois euros por um café. A baixa passa a ser para quem?

A cidade deixa de ser para quem cá vive para ser para quem a visita e vai-se descaracterizando, deixando de ser de origem para passar a ser uma espécie de monumento para turista ver, estar e pagar para passear.

Não é mau que seja assim só não sei se é para nós.

Alexa Santos

Alexa Santos

Depois de anos sem encontrar um espaço que pudesse chamar seu, Alexa criou o queeringstyle. No início uma página de Tumblr, hoje um espaço para pessoas que queiram falar, estar, partilhar. Não sabe muitas vezes parar porque, tudo o que faz vem do centro do peito. Gosta de fazer muitas coisas ao mesmo tempo, por isso é possível que se encontrem algures. Se sim, não deixes de dizer olá.
Alexa Santos

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