O sentimento de Time Out.
11/08/2017
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Acordas todos os dias, com uma espécie de moinha que se instala no peito, uma qualquer coisa inacabada que em pontas se põe na pontinha de mais um dia que começa como se não tivesse altura para ver o que se passa fora da janela do que está a começar, mas tenta.

Abres um olho depois do outro com uma claridade que não estranhas mas que não sabe tanto a início mas sim a mais um dia. É que o sol e a lua trazem ambos mais ou menos a mesma coisa e os olhos abertos ou fechados parecem-se muito.

O tempo passa e os dias trazem coisas muito parecidas enquanto passa. A felicidade não é mais que feliz e a tristeza é só triste. O que é violento parece diário e aparece diariamente. Aquilo que há de bom no mundo vem em vídeos com menos de dois minutos porque a paciência não dá para mais e o suporte informativo não aceita tanto e diz-nos que temos de reduzir o tempo se não, o tempo fica longo demais.

O que é bom e o que é mau é um qualquer achado sem tempo. Retratado em selfies de nós e dos outros nos momentos mais felizes mas também nas desgraças mais impensáveis que não só se pensam como se fazem e que acabam nos ecrãs dos nossos mil e um aparelhos electrónicos que servem para nos deixar ligados, conectados, em rede. A rede é feita de linhas, linhas que separam em pouco isto daquilo e do outro e o que é bom do que é mau. A exaustão da divulgação dos conteúdos como se não houvesse mais nada sobre o que se falar e ao mesmo tempo como se se procurasse sempre algo de novo para se dizer apoia-se nestas linhas ténues de redes, de conexões, de ligações em linha, na linha que separa isto, daquilo e do outro mas não parece separar nada.

Deitas-te à noite com a cabeça na almofada sabendo que o tempo passou a correr, que não disseste que gostavas a quem queres perto, continuas com saudades dos teus amigos que viste que fizeram coisas, estão a ler cenas e a pensar outras através do ecrã do teu dispositivo electrónico.

Continuas a pensar que vale tudo a pena enquanto a alma não for pequena. Ou será que diminui? E este cansaço de onde será que vem? Que é tanto que ficas na duvida se isto tudo é suficiente aliás, sabes que nunca é suficiente porque há sempre tanto para fazer e tanto por fazer que se calhar é o tempo que de tão finito parece não chegar ou será que somos nós que não o sabemos aproveitar?

Isto, isto é apenas a conjugação de todos os factos de uma realidade diária que faz parecer que o tempo não dá tempo para tudo de tão pouco e que o mais que exista está longe, é difícil e sair do que é confortável, da rotina desejável é tão pouco aconselhável para um coração já de si partido que faz parecer que tudo o que se é, tudo o que se faz é pouco, é pequeno.

Por isso chega, quero um Time Out, isto é como quem diz um intervalo de tudo, de morrer para o mundo, de descansar da velocidade desenfreada e da ilusão de que há outro tempo num outro segundo. Intervalo para ver que o que parece pouco é tudo. Visão para não me perder na pescadinha-de-rabo-na-boca que é por vezes a rotina e ultrapassar a falácia do pensamento insuficiente para aproveitar o que vem. Caminhar para o que há de ser que o tempo é este e o que for para ser será.

Escrevi este texto enquanto tentava perceber a inércia dos últimos meses. E foi preciso  fazer mais ou menos um intervalo, olhar-me de fora e permitir-me o meu tempo. Saiu este texto num momento que sinto que já sei melhor que quero voltar. Obrigada por ficarem comigo.

Alexa Santos

Alexa Santos

Depois de anos sem encontrar um espaço que pudesse chamar seu, Alexa criou o queeringstyle. No início uma página de Tumblr, hoje um espaço para pessoas que queiram falar, estar, partilhar. Não sabe muitas vezes parar porque, tudo o que faz vem do centro do peito. Gosta de fazer muitas coisas ao mesmo tempo, por isso é possível que se encontrem algures. Se sim, não deixes de dizer olá.
Alexa Santos

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