O que se passou com o QueerLisboa 21?
02/10/2017
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Sem Título

«Les Trois Grâces, incarnations pour les Romains de la vie dans toute sa plenitude

(beauté, créativité, fecondité).»

Le Point, pág.17, Setembro-Outubro 2017

Na capa uma pintura de Hippolyte Flandrin, “Jeune homme nu assis au bord de la mer” (1837) e a grandes letras amarelas, “Le Corps – les textes fondamentaux”.
Não preciso avançar muito, os textos são de Platão, Aristóteles, Descartes, Nietzsche, Freud, Husserl, Foucault e por último uma pequena página dedicada a Butler.
Nada de novo, folheio, folheio… Onde está a Maria Madalena, Vittoria Colona, Simone Weil, Sabina Spielrein, Emma Jung, Toni Wolff?
Só pode ser engano hahahaha claro que sim. Não vivêssemos nós numa sociedade paternalista e misógina.
Desculpa, onde estava eu com a cabeça?

“- É uma água das pedras com bastante gelo e um café cheio por favor e sim vamos ao Queer mas preciso de ver o programa e selecionar algumas coisas.”

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Convido a Mariana e vamos ver o… Esperem, tenho de googlar o nome do filme porque nem sequer me lembro, adormeci pelo meio e o que me valeu nessa noite foi uma limonada com hortelã servida com meia hora de atraso.
“The Beach House” de Roy Dib; Duas irmãs, uma casa, dois amigos de infância, jogo psicológico, as irmãs disputam o mesmo homem; um francês bem sucedido na vida, queira isso dizer o que quer.

Troca de olhares, planos apertados, rostos expectantes mas lascivos [adormeci] mais meia hora de filme, suspiros na sala, alguns risos, os dois amigos de infância encontram-se na casade-banho, um deles fala de como eram felizes quando estavam juntos, um copo de whisky desce pelo corpo do outro, uma luz incrível entra pela pequena janela da casa-de-banho. Fim.

Tenho de levantar dinheiro para o táxi, estou à espera de uma bolsa que nunca mais chega, tenho contas para pagar, o costume.
Chego a casa e ligo o computador, tenho o “Appropriate Behavior” de Desiree Akhavan para ver há mais de um ano e é desta que vou conseguir:

Obrigada, mais um break-up e “Estou a um passo de mudar de identidade e fugir para França.”

GAYCATION with Ellen Page and Ian Daniel sad viceland cry lesbian GIF

Voltando ao Queer Lisboa 21, vou à 4ª sessão de curtas metragens e de todas retenho “La Prima Sueca” de Inés María Barrionuevo e Agustina San Martíne e “Filme Catástrofe” de Gustavo Vinagre.

Na primeira: “Faltam apenas alguns dias para a festa de 15 anos de Cata. Uma prima com ideias liberais chega inesperadamente e fica na sua casa. Num mundo sem adultos, e faltando poucos dias para o dia especial, Cata começa a sentir que tudo em que acreditava começa a perder significado.” Talvez tenha sido por ter estado na Argentina há um mês mas tudo me soa bastante bem, o filme é eficaz e despretensioso, um beijo, uma chegada à Quinceañera, lágrimas. Fim.

Na segunda: “Primeiramente, Fora Temer!” Uma tragédia pessoal, colapsos económicos, políticos e sociais no Brasil, mulheres reféns de um Estado-Pai que lhes nega constantemente os direitos. Uma fechadura forçada, empatia, bolo de chocolate e “Ninguém merece ser o segredo de ninguém”.

É assim que saio da sala, com um murro no estômago.

– “Olá Rafa, vamos ao Queer?” última tentativa, vou com a Marta juntam-se a Patrícia e a Inês e desta feita compramos quatro bilhetes para o “Foreign Body” de Raja Amari;

“Procurando refúgio do seu irmão islâmico radical, Samia fica na casa do seu amigo Imed, mas anseia pela sua independência e liberdade, algo que encontrará na Sra. Bertaud, uma viúva rica para quem começa a trabalhar. O seu relacionamento profissional rapidamente se transforma numa ligação sensual que causa vários problemas a Imed, dividido entre as suas crenças religiosas e os seus desejos sexuais.”

Antes de sair de casa pesquiso o filme na agenda disponibilizada online pelo festival e leio as seguintes palavras LÉSBICO/RELAÇÃO/RELIGIÃO.

Estão cerca de 60 mulheres na sala, Samia e Sra. Bertraud são “empregada” ilegal e “patroa” viúva, o charme básico da age gap vai em crescendo, estou a imaginar vários argumentos possíveis para o desfecho do filme, falta uma hora para terminar e a Sra.Bertraud exclama:

“Não é dele que tenho saudades mas do toque dele.”

A sala morre, ouvem-se risos de chacota, a Marta suspira, desconforto geral, o amigo Imed não demora a conquistar o coração da “senhora” e a impedir que as duas se beijem numa tentativa de sedução direcionada ao mesmo. Fim.

Well, diz a Alexa e muito bem: “Sabemos que a maior parte dos filmes são gay, gay, gay mas há muita coisa para ver este ano e que de outra forma nunca chegaria até nós.”
Fica um lembrete, equilibrar um pouco as coisas para que o próximo ano não se resuma ao:

“Querias o quê? Bem avisei.”

 

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