O Palácio de Inverno e o Bolchevismo
07/04/2016
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Encontro-me para tomar café e falar sobre a vida, com a Berliner, em Roma onde vivo e onde trabalha, já não nos vemos há semanas, penso como estará e vejo-a de longe a empunhar uma faca de cozinha de onde escorrega manteiga para cima de uma fatia tostada de pão alentejano. Aproximo-me e vejo-lhe o pânico estampado no rosto: ”O período ainda não veio e eu continuo a morrer” responde “as minhas mamas estão a explodir”, remata. Lembro-me do Sr. Palomar e de como se comportar na praia diante de um par de seios nus: «Por isso, assim que vê aparecer à distância a nuvem brônzeorósea de um torso nu feminino, apressa-se a colocar a cabeça de molde a que a trajectória do seu olhar permaneça suspensa no vazio, como garante do seu respeito cívico pela fronteira invisível que circunda as pessoas», a Berliner ri, também havia lido o livro em tempos.

À medida que caminhamos penso no propósito deste jorro de sangue, desta concepção falhada e imagino-me grávida com dores nas costas e de mau-humor, não preciso de partilhar a imagem com a Berliner: “Se no período sou mesmo Mulher, imagina-me grávida…”, não questiono, acredito nesta rotulagem porque tal como ela choro sete vezes sem motivo aparente, ignoro a presença das queijadas de amêndoa nas vitrines das pastelarias e confino o meu apetite a uma carcaça de pão integral com uma fatia de queijo, cortada na diagonal e um gole de sumo de laranja do copo da Ju.

Sou assumidamente narcisista e dou por mim sentada na esplanada a pensar no exagerado número populacional e na sustentabilidade do planeta; Dawkins e o organismo como “máquina de sobrevivência” do gene, cujo objectivo é a sua autoreplicação, por outras palavras, o gene egoísta.

Não consigo concentrar-me verdadeiramente no assunto, preocupam-me as contas para pagar e as entrevistas de emprego falhadas, a perspectiva romântica de um futuro melhor numa casa no campo a colher folhas de hortelã, duas canecas de chá, a minha namorada com a barriga crescida e um disco de vinil da Dalida, I Found My Love In Portofino: sou jovem e licenciada, a Ju também e a Berliner, mestre. Diz-se que o famoso PMS (premenstrual syndrome) afecta pelo menos 40% das mulheres em todo o mundo e ainda que a menstruação, não só é obsoleta como deveria ser suspensa através do consumo contínuo de anticoncepcionais, assim a mulher reduziria o risco de ter endometriose, anemia e choro desregrado sete vezes por dia. A Berliner diz que tem uma namorada compreensível que lhe compra salmão fumado e requeijão para aliviar as dores de barriga enquanto a enche de mimos, fico mais descansada.

“I’m ready for all the comparisons
I think it’s dumb and it’s embarrassing
I’m switching off, no longer listening
I’ve had enough of persecution and conditioning
Maybe it’s an instinct, we’re only animal
Maybe it’s healthy, maybe it’s rational
It makes me angry, I’m serious
But then again, I’m just about to get my period”
SHEEZUS, Lily Allen.

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