Nunca quis um “bom” marido
05/05/2016
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Lembro-me como se fosse ontem, recordo-me do instante em que senti aquela atração, aquele fascínio por ELA. Senti uma adrenalina inexplicável, uma paixão ardente, e uma vontade extrema de sentir os lábios dela!

Fazia naquela altura um ano que os meus pensamentos começaram a ir para além do habitual, já não me encantava com os homens bonitos de Inglaterra, nem me lisonjeava quando um deles namoriscava comigo no beco de um bar. Não sonhava com um príncipe e muito menos com um cavalo branco. Apenas pensava em mim num vestido branco ou um traje indiano vermelho com os detalhes cintilantes, numa cerimónia cuja minha cara-metade não passava de uma imagem desfocada.

Não queria finalizar os estudos e arranjar um “bom” marido ou ter filhos tão cedo, recusava-me a contentar com isso, não queria seguir o estereótipo de vida de uma menina indiana. Trabalhar, cuidar de miúdos, dar conta da casa e dizerem que eu pertenço numa cozinha. Manter a postura e, não fazer nada “radical”, para manter a reputação da família na comunidade, como se a comunidade me respeitasse a mim, pura hipocrisia.

A minha vontade de querer mais do que já tinha crescia a cada dia. Quero fazer coisas inéditas, experimentar o que nunca pensei que podia experimentar. Quero tornar me independente, viajar pelo mundo fora, queria perder-me na floresta e alcançar montanhas. Quero viver, frequentar sítios exclusivos, e procurar relíquias escondidas pelo mundo, queria ir a festivais e fazer todas as loucuras que há para fazer, ao som da Nicki Minaj e Jessie J. Quero ser amiga dos bouncers das discotecas onde o barista sabe exactamente que eu vou pedir, one Gin and Tonic right?!

O querer maior de todos era beijar uma mulher. Tinha uma curiosidade imensa de saber o que ia sentir, se calhar já tinha a certeza que não ia desgostar mas precisava de me certificar disso.

Sabia que este querer ultrapassava as normas da minha comunidade, no entanto estava disposta a lutar como se tivesse uma vida a preparar-me para aquele momento. Queria quebrar as regras, e se calhar tinha estado até aquele momento para o fazer porque, olho para trás e sei que os sinais sempre estiveram lá, eu é que não estava preparada para aceitar que esta era a minha realidade. Depois deste tempo todo, em que os pensamentos quase me consumiam e as coisas à minha volta não resultavam mais. Precisava de aliviar a constante guerra que tomava lugar na minha cabeça, e tirar as dúvidas de uma vez por todas. As dúvidas em relação à minha identidade estavam a influenciar tudo o resto à minha volta, tinha a noção disso.

Não estava bem comigo e as perguntas pareciam crescer a cada dia, se realmente gostar de uma mulher: “Como vou contar aos meus pais?” “Como é que eles vão lidar com isto?” “E com a comunidade?” “Vou virar fofoca do chá da tarde” “Se aparecesse em casa com um rapaz que não fosse da minha religião seria um caos… se apareço com uma rapariga…MINHA NOSSA!”. Já tive episódios de discussão com eles devido a namoricos de adolescente, nunca tive autorização dos meus pais para ser livre nesse campo, ou era muito nova ou o HOMEM não era o certo para mim, havia sempre uma desculpa. Sei que o meu pai pensa no meu casamento e se preocupa com isso, ano sim ano não tenho uma prima a casar e sei que ele pensa que algum dia será a minha vez. Tenho receio de destruir o sonho deles, mas também não quero abdicar dos meus. Afinal a vida é minha ou deles?

Não compreendo como é que as pessoas não crescem e saem das suas bolhas, tudo é motivo para crítica, mas um assunto como a homossexualidade, jamais! Nem nunca foi falado nem tão cedo será. Pode ser que eu consiga mudar isso e lutar contra esta discriminação existente, fazer as pessoas falarem sobre o assunto e torná-lo mais banal. Pode ser que consiga desmistificar muitos dos medos que a minha comunidade mantém há anos e abrir os horizontes destas mentes fechadas. Basicamente tornar-me um Mockingjay deste Panem.

Tenho a memória vívida de um casal gay a andar de mãos dadas nas ruas de Barcelona, quando o meu pai murmurou um comentário desagradável. Lembro me de perguntar se ele tinha algum problema, ele disse: – não, no entanto, eles não precisam de se expôr assim na rua. Eu olhei para ele com raiva, estava frustrada e com lágrimas no canto dos olhos, e disse mais alto do que devia: – É um casal como OUTRO QUALQUER, não vejo o problema e acho que fazem muito bem!” Ele ficou em silêncio e nunca mais se falou do assunto.

Independentemente dos meu medos e todos os pensamentos assustadores, naquele dia, senti-me tão completa. E não, não era o ambiente vibrante do Arraial, e sim, pode parecer cliché assim como beijar uma mulher pela primeira vez ao som da música da Katie Perry “I kissed a girl and I liked it”. (Engraçado é que há precisamente 6 anos atrás no dia 28 de Junho de 2009, estava eu no Campo Pequeno no concerto dela a delirar esse som!). Também não era o à vontade de todas as pessoas a minha volta que me completava, nem o facto de saber que não seria julgada se partilhasse os meus pensamentos. Era ela.

A presença dela ao meu lado como há quase 10 anos atrás, nos intervalos da escola, tinha 13 ou 14 anos quando a conheci, e os sentimentos sempre estiveram lá eu é que fui incapaz de perceber mais cedo. Recordo-me dos abraços que lhe dava logo pela manhã e o quanto ela não gostava do contacto físico, no entanto suportava-me! Lembro-me das gargalhadas que dávamos pelas parvoíces que fazíamos nas aulas ao ponto de sermos mandadas para a rua. Lembro-me de vestir os casacos dela quando morria de frio no Inverno porque eu recusava usar mais camadas de roupa, preferia os meus tops de licra com os casaquinhos de malha. Aquele dia com ela fez-me relembrar tudo o que sentia há uma década atrás por ELA. Com 14 anos, ao lado dela eu era o melhor de mim, e foi então que percebi que talvez a minha procura tivesse acabado, reencontrei-me! Descobri tanto sobre mim nesse dia, senti que pertencia ali, naquele instante, com ela.

Não a beijei naquele dia, mas nessa noite, confessei-lhe tudo e dormi tão feliz, soube que os meus sentimentos, as minhas vontades os meus desejos eram iguais aos dela. Poucos dias depois encontrei-me com ela, ela estava no carro estacionado numa rua perto da minha casa, vinha toda pomposa e com um sorriso de orelha a orelha. Também eu estava assim, tinha mudado de roupa umas 10 vezes antes de decidir. Sentia o meu coração a bater tão forte antes de entrar no carro. Sentei me, fechei a porta, sorri, aproximei me dela. Estava convicta que ela ia dar-me dois beijinhos nas bochechas, mas antes que isso acontecesse provei os lábios dela. Não pensei duas vezes, nem “pedi” autorização, beijei-a e pronto. Não foi um beijo rápido nem muito demorado, foi o tempo perfeito para eu perceber que não queria que acabasse.

Foi uma noite perfeita, com carinhos, beijinhos e conversas intermináveis, tão intermináveis que são que vai fazer um ano que começaram.

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