Normatividade
05/09/2016
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Essa coisa obtusa onde supostamente todxs deveríamos estar.

Essa coisa idiota que a todxs nos enclausura num padrão que não é escolhido por nós e que estupidamente nunca ninguém sabe quem o criou.

Essa coisa idiota que é tida como o chamamento à realidade e que em contrapartida nos obriga à irrealidade.

Quantxs de nós abarcamos o esforço irreal, doloroso, penoso e sobrenatural de tentar viver numa realidade em que não somos nós? Porque quando não o fazemos somos obrigadxs a viajar pelos corredores da psiquiatria e da psicologia.

Porque quando não o fazemos somos violadxs pelos olhares, pelos cochichos, pelos risinhos, pelos maus modos, pela pena ou compaixão, por toda uma amálgama discriminatória.

Porque quando não o fazemos, por não sabermos, não sermos capazes ou porque simplesmente não o queremos fazer, enrolamo-nos na rede da psicopatologia, essa rede angustiante da qual dificilmente nos libertamos.

Normatividade/normalidade essa foda colectiva, essa disfunção eréctil sem orgasmos que apenas nos cansa.

 

Histórias normais, tão normais que acontecem.

História 1.

Sento-me na cadeira, na ala de pedopsiquiatria do Hospital Francisco Xavier. Entra um jovem adolescente acompanhado pela mãe, veste-se de forma diferente da de outros jovens da sua idade, está fora de moda.

É bom aluno, desempenha com funcionalidade as suas tarefas diárias de sobrevivência, mas diz-se que é socialmente incapaz pois não se adapta às brincadeiras e vivências dos seus pares.

Observo-o, ele olha-me e disparam os movimentos involuntários – tiques. Torce o pescoço, abre a boca, entorta os olhos, torce o pescoço, abre a boca, entorta os olhos (os tiques surgem como organização da ansiedade ao sentir-se observado).

Dirige-se verbalmente à administrativa, é simpático e nota-se que o seu discurso não tem qualquer filtro, é genuíno. A sua genuinidade e diferenças têm custos, custaram-lhe já muitas horas em gabinetes de psicólogos e psiquiatras e muitas lamelas de psicofármacos, apesar da sua curta idade.

 

História 2.

Flávio, foi internado num colégio há já três meses, chegou referenciado como sendo agressivo quando é contrariado.

O Flávio, adoraaa a Popota está sempre a cantar a música de Britney Spears, Will I am – Scream and Shout e dança imitando a cantora.

Um dos monitores do colégio oferece-lhe umas revistas da Popota e ele fica soberbamente contente, nunca lhe deram nada muito menos coisas da Popota e por isso grita, salta, canta e abraça toda a gente. Um técnico hierarquicamente superior pergunta que histeria é aquela e retira-lhe as revistas dizendo que são impróprias para o rapaz. O Flávio enlouquece de raiva, grita, chora, ameaça verbalmente e morde quem se aproxima, é castigado ficando no quarto sozinho.
Horas mais tarde:

– Flávio, como te sentes? Pergunto-lhe

– Não sou Flávio, sou Flávia! Responde com um olhar triste, distante e vazio.

 

História 3.

O workshop está animado e bastante participativo, todxs falamos das nossas vivências e experiencias, algumas contadas com um humor que nos faz rir. Pedro está connosco, parece estar muito atento, mas pouco sorridente e ainda não participou.

Quando por fim decide participar, diz-nos que é economista e que tem o emprego dos seus sonhos, é bancário. Enquanto relata que até há uns meses atrás era considerado por todxs um excelente profissional, de repente falta-lhe a voz, irrompe em soluços e mal o conseguimos perceber. Pede muita desculpa, diz que se calhar é melhor sair.

Apoiamo-lo, acalma-se e prossegue. – Fui um excelente profissional até ao dia em que confidenciei ao meu director que vivo com um homem, agora sou uma nulidade que está sempre a ser repreendido pelos erros que comete. Erros que não faço mas que aparecem nos documentos que redijo. Ou se calhar faço, já não sei, talvez esteja menos atento por causa dos antidepressivos que ando a tomar ou por andar muito nervoso. Já não tenho a certeza do que faço.

 

História 4

Num outro workshop, cujo tema é a discriminação com base na idade, aparece o Miguel, com um aspecto meio hippie. É muito falador, expressa-se de forma clara, sorri muito e diz ter 30 anos, ser filho único e ter sido muito mimado porque os pais já tinham 35 anos quando ele nasceu. Mas quando termina, as lágrimas assomam-se-lhe aos olhos e diz-nos: – A minha maior felicidade seria passar a época natalícia que aí vem na companhia dos meus pais, a quem amo muito, como sempre fiz. Mas não há meio de aceitarem que a minha companheira, a quem também amo muito, tenha apenas menos 5 anos do que eles.

 

História 5

Maria descia a rua encantada por, mais uma vez, participar na marcha LGBTQ+. Sentiu sede e entrou sozinha num café para comprar uma garrafa de água, ao sair ouviu um comentário que a fez direcionar o olhar. Dois homens cisgénero que participavam na marcha de mão dada riam.

Disse um deles – Foda-se a gaja tem pelos no peito, caralho! E respondeu o outro: – Ó caralho, mas é um gajo ou uma gaja!? Estas bichas andam todas queimadas!

Maria respirou fundo, abriu a garrafa de água e em vez de beber teve vontade de guardar nela as lágrimas que não puderam sair naquele momento.

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