#new2017 – when you wish upon a queer star?
02/01/2017
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2016 foi um ano de muitas desilusões, Brexit, Trump, atentados directos a minorias queer (Orlando) e o desaparecimento de alguns artistas que viveram a sua vida de modo a que o seu contributo marcasse a evolução da nossa cultura, a mudança de visões políticas e principalmente a nível humanitário.

Se Bowie introduziu o conceito de androginia como algo alienígena e mágico foi porque este sabia exactamente o que esperar de uma sociedade que estava habituada a quatro mocinhos de franja, fato e gravata que tocavam apenas 4 acordes.

Se Prince usava maquilhagem e saltos altos e nunca sentiu necessidade de se identificar como algo mais do que ele próprio, foi porque os outros gostavam tanto de o colocar dentro de uma caixinha lhes fosse mais fácil  ceter comparações mesquinhas e preguiçosas a um Michael Jackson, diminuindo assim  o seu génio a algo puramente estético.

Se o talento de George Michael foi muitas vezes ofuscado para deixar tinta correr sobre a sua vida pessoal, foi porque os media infelizmente têm caído numa espiral de sangue por sangue e dente por dente e pensam nestas pessoas que por acaso são artistas apenas como bonecos e títulos chocantes para vender revistas ou obter views e likes.

Sem estas três pessoas, o mundo queer não seria o mesmo. Bowie identificou-se como bisexual durante imenso tempo acabando por encontrar o amor ao lado de uma mulher mas todos sabemos das suas histórias com Iggy Pop e o imaginário de Velvet Goldmine é claramente inspirado nessa década de ouro psicadélico e amor livre que foram os 70s em Berlim e não só.

Prince tinha um sex appeal e uma coolness que fazia babar o mais machista hetero dos pugilistas da WWE. ( Obrigada por teres tornado a minha côr favorita a côr mais queerde sempre, purple is the color to be.)

E Jorge Miguel… George Michael é talvez o que pessoalmente menos me marcou dos três mas não fosse uma cover da Careless Whisper pela Beth Ditto dos Gossip e eu talvez nunca tivesse descoberto a minha fascinação pelo saxofone mais kitch e mellow de sempre.

Foi também com uma cover de Rebel Rebel pelas Tegan and Sara que viciei em Bowie e fui descobrindo que afinal as minhas músicas favoritas do Moulin Rouge ( musicals geek here!) eram versões intemporais deste alien mais humano do que muitos seres que por aí vagueiam. “You’ve got your mother in a whirl/She’s not sure if you’re a boy or a girl” assim começa a música e a questão do género que em 1974 era apenas algo considerado pelos artistas como desculpa para se expressarem e conseguirem fazer com que o público também considerasse que não tinham de seguir regras nenhumas ditadas pela patriarquia, identificando-se ou não com o género que lhes era atribuído ao nascer. Já dizia Patti Smith que enquanto escreve a sua poesia não tem género nem é algo que a influencia, um discurso que ela fez questão de dizer desde os tais golden 70s.

Um artista é uma pessoa com uma missão, ponto.

Apesar de Bowie ter sido o único que ainda nos abençoou #blessed com um novo álbuBlack Star, que dominou o primeiro lugar em muitas listas de 2016. Mas também o vídeo amador de Prince a actuar na after party de 40 anos do Saturday Night Live fez com que muitos desejassem que este voltasse aos palcos ASAP. George Michael estaria simplesmente a viver a sua vida com o seu namorado e longe dos olhares carnívoros dos media que durante anos massacraram-no e fizeram da sua carreira uma brincadeira.

Engraçado é agora assistir às histórias que tantas pessoas têm para contar sobre os mesmos,agora só se fala do seu legado, da sua bondade, do seu impacto gigante na cultura musical pop e no mundo em geral. Parece que nunca aprendemos…

E que tal passarmos a fazer isso enquanto essas pessoas ainda estão vivas?

Sem um Bowie, não existiria um Prince ou um George Michael ou uma Grace Jones. Sem estes e outros seres humanos visionários ser queer continuaria apenas como mais um termo prejurativo e o seu significado nunca tinha ganho outra força, a força de romper barreiras, o orgulho em ser genuíno e verdadeiro connosco próprios,de servir de inspiração para os pequeno weirdos que sentem validados e representados ao verem-nos, não existiria o querer libertar o mundo destas caixinhas irreais e padrões construídos por cima de bases de vidro. A  revolução não teria começado … para que nós e as futuras gerações também possam continuar a lutar.

 

We’re here we’re queer and we have even more magical guardian angels to back us up so don’t mess with us! 2017.

We are ready for you and stronger than ever.

Happy new year my queer magical unicorns!

 

 

 

 

Raquel Smith-Cave

Raquel Smith-Cave

Se vão a festas queer, encontram-na lá a dançar na pista e a cantar por cima dos hits dos anos 2000.
Não se deixem enganar pela sua timidez, pode conversar horas a fio e tem sempre algum facto sobre música ou televisão que nunca tínhamos pensado antes.Com opiniões espevitadas, traz-nos opiniões e listas, do que ver e ouvir.
Raquel Smith-Cave

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