Negritude, Lesbianidade e Amor Afrocentrado
21/01/2016
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Essas fotos foram feitas em junho de 2015 pela fotógrafa Walesca Timmen, com a ajuda da sua namorada Karen Käerche. As duas são idealizadoras do Projeto AMA.
*AMA é um projeto fotográfico que visa notabilizar a beleza de mulheres reais que não se encaixam nos padrões de beleza ditados pela mídia e reforçados pelo restante da sociedade. AMA vai ao sentido contrário destas expectativas impostamente padronizadas, empoderando as mulheres fotografadas e assim incentivando outras mulheres a também aceitarem, amarem e apropriarem-se dos seus corpos de todas as maneiras.
O nome escolhido para esse ensaio foi: Andressa e Geanine AMA(m) o seu amor negro-lesbofeminista.

A ausência de representatividade da mulher negra não estereotipada como a “serviçal” ou a “mulata” nas variadas mídias ainda é enorme. O “esquecimento” das feministas brancas em torno da discussão aberta sobre racismo, privilégios da branquitude e gênero ainda é avassalador. O machismo dos homens negros no interior do movimento negro é o maior limitador das pautas que tratam sobre especificidades e problemáticas relacionadas às mulheres negras. No movimento de mulheres negras a lesbianidade é um assunto tratado de forma superficial. No movimento LGBT, as mulheres negras lésbicas e bissexuais se deparam com a total desconsideração, especialmente dos gays, das lésbicas e das(os) bissexuais brancas(os), diante dos dados alarmantes que comprovam a dupla/tripla violência física e psicológica sofrida por lésbicas e bissexuais negras, o que não contribuí em nada para a construção positiva da lesbianidade negra.

Dessa forma, muitas mulheres negras e lésbicas acabam ficando em um não lugar. Esse não lugar não possibilita o poder de fala, tão pouco o poder de decisão. A resistência se dá no existir. A presença da mulher negra e lésbica masculinizada (butch); daquela que se identifica mais com o feminino (lady); ou daquela que não se identifica com binarismos e normatividades, que gosta de vestir-se a partir da mistura do que é considerado feminino e masculino (queer), confrontam a sociedade com a sua existência, mostrando que querendo ou não, todas(os) terão que ver e conviver com essa diversidade de identidades negras, lésbicas, queer, marginalizadas e majoritariamente periféricas.

Mas, antes de mencionar sobre o amor lésbico entre mulheres negras ou sobre lesbianidade negra, é importante ressaltar o porquê um relacionamento afrocentrado é considerado um ato de resistência ao sistema racista.

Quando se pensa num relacionamento entre duas pessoas negras, militantes, que constroem a sua identidade negra cotidianamente com base na negritude e na consciência negra, se pensa num amor afrocentrado. Um amor que ultrapassa as semelhanças com a cor da pele e com o histórico de resiliência que carrega essa ancestralidade negra. Do mesmo modo, essas duas pessoas compartilham pensamentos que extrapolam o senso comum de que “o amor e/ou um relacionamento amoroso não tem cor” e entendem que essa união é uma verdadeira afronta ao sistema opressor que cotidianamente excluí, humilha e mata negras e negros todos os dias, seja por meio da violência simbólica, pelo racismo institucional ou pela violência policial. Portanto, ser um casal negro afrocentrado é contrariar o mito da democracia racial, é poder a dedicar-se a outra pessoa que sofre os mesmos problemas em relação à discriminação racial e acima de tudo é ter o direito de amar sem limites, sem o medo de não ser compreendida(o).

Nesse sentido, é importante lembrar que negras e negros até pouquíssimo tempo, cerca de 130 anos atrás, no período colonial escravista, não tinham direito a dignidade, a humanidade, não tinham direito a ter um nome, falar sua língua ou ter qualquer tipo de crença, que dirá afetividade e ao amor. Até pouco tempo, os homens negros e as mulheres negras, de forma animalizada, eram utilizados como “reprodutores de escravos”, que forneciam mercadoria gratuita (seus filhos) aos escravocratas.

Não existia família negra, não existia amor negro. Toda(o) negra(o) que nascia servia para gerar lucro, podia ser comercializada(o), alugada(o), vendida(o), açoitada(o), usada(o) até a morte. Éramos coisas, animais, menos pessoas. E as mulheres negras, desde a infância, serviam como objeto sexual. O estupro e todo o tipo de violência sexual era comum quando se tratava do corpo das mulheres negras.

Seguindo esse pensamento, os relacionamentos afrocentrados de hoje fazem parte de uma busca muito recente por uma identificação negra conjunta. Hoje, quando uma pessoa negra escolhe amar outra pessoa negra, ela pode escolher tornar-se negra na companhia de alguém que vai ajudá-la a se entender enquanto sujeito de uma história de luta. Essa consciência negra duplicada, triplicada, é considerada uma ameaça, pois vai ao encontro do pensamento descolonizado e é forte o bastante para subverter o status quo.

Indubitavelmente, é importante atentar para a realidade histórica da população negra e sua relação com o amor. Que amor? Durante séculos nos foi negada a mínima possibilidade de amor entre negras(os). Fomos ensinados a nos odiar, não confiar em nós mesmos, menos ainda em pessoas iguais a nós. Isso explica a falta de carinho, beijo, abraço e às vezes a total falta de afetividade no interior das famílias negras.

De fato, isso também explica o histórico de abandono e solidão especialmente das mulheres negras. Visto que, nos relacionamentos heterossexuais, a mulher negra nunca é escolhida pelos homens brancos e é preterida pelos homens negros. Nos relacionamentos lésbicos ou não heteronormativos, a mulher negra nunca é escolhida pela mulher branca e muitas vezes é preterida pelas mulheres negras que reproduzem o pensamento machista, racista e colonial.

Não enxergar como possível uma relação amorosa e duradoura com uma mulher negra, está diretamente relacionado com conceitos racialistas eurocêntricos, que comprovaram cientificamente a superioridade da raça branca. Esses conceitos ultrapassados serviram para justificar a escravidão, por exemplo, e infelizmente continuam no imaginário de grande parte das pessoas.

Podemos citar brevemente algumas características sobre o que é ser negra e o que é ser branca, segundo o que prezava o racismo científico eurocêntrico. A feminilidade, inteligência, bom caráter, bom comportamento, ascensão social estão intimamente ligados às mulheres brancas; Já a brutalidade, a sujeira, o mau caráter, a falta de intelectualidade, a sensualidade/vulgaridade exagerada e a pobreza, estão intimamente ligados às mulheres negras. Essas características, tão demarcadas e falaciosas ganham veracidade todos os dias por meio das mídias hegemônicas que fazem piada com a nossa pele, com o nosso cabelo crespo, pixaim, com a nossa condição social e independentemente da forma como somos, magras, baixas, gordas, altas, uma coisa é certa: os nossos corpos negros serão hipersexualizados.

Essa naturalização da representação entre negras e brancas é extremamente violenta, pois serve apenas para sustentar ideias coloniais escravistas e manter os privilégios da branquitude. Tudo isso colabora sobremaneira para a solidão da mulher negra.

Em suma, quando duas mulheres negras e lésbicas conseguem se encontrar, namorar e assumir uma relação amorosa publicamente, demonstrando que se amam de variadas formas, até mesmo casando, constituindo família, com filhas(os) e bichinhos de estimação, causam estranheza, para não dizer nojo e até repúdio das(os) homolesbotransfóbicas(os).

Na cabeça doente de pessoas racistas e lesbofóbicas, duas mulheres negras e lésbicas não podem se relacionar amorosamente, muito menos desfrutar publicamente da harmonia dessa união. No entanto, essas mesmas pessoas, que não conseguem imaginar as mulheres negras e lésbicas felizes, conseguem traçar a vida dessas mulheres da forma mais cruel e com muita naturalidade.

Se fomos/somos rejeitadas, humilhadas, na infância, na adolescência e na vida adulta; se estamos sozinhas ou num relacionamento heteronormativo abusivo, sem nenhum afeto; se estamos no serviço doméstico servindo em casa de família branca ou sendo exploradas em algum trabalho braçal com salário minguado; nada disso é visto com estranheza e tristeza, ao menos pelo olhar medíocre da branquitude que já está acostumada a ver o nosso presente e futuro dessa forma.

Por tudo isso, o amor lésbico afrocentrado confronta a branquitude, o sexíssimo e a heteronormatividade. Em síntese, ser uma mulher negra e lésbica militante loucamente apaixonada por outra mulher negra e lésbica militante é inegavelmente um ato político. Esse amor lésbico afrocentrado e feminista amefricano (Feminismo Afro-latino-Americano defendido por Lélia Gonzales) desconstrói o ciclo de solidão da mulher negra e mostra para a sociedade e para nós mesmas que também temos o direito de amar e ser amadas. Temos direito de viver uma relação saudável, sincera e repleta de negroamor.

Sem dúvida, é notável a dificuldade que temos para nos encontrarmos presencialmente ou virtualmente, mas lembrem-se de que não estamos sozinhas na luta contra a lesbofobia e o racismo. Somos milhares, somos fortes e guerreiras, só estamos espalhadas… Salve à luta das mulheres negras lésbicas do mundo inteiro!


 

Geanine Vargas Escobar

Doutoranda do Programa Doutoral em Estudos Culturais

Universidades de Aveiro e do Minho – Portugal

Bolsista CAPES – Brasil

 

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