Nada de novo.
16/07/2017
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Escolhe a tua preferida é o slogan publicitário que acompanha as capas da revista Cristina deste mês.

De certeza que já viram, que alguém já comentou no facebook, twitter ou instagram. Secalhar até compraram a revista para ver o que dizia. Sim porque, não é todos os dias que se vê uma capa de revista que mostra duas mulheres ou dois homens (há para escolher) a beijarem-se na boca, em ponto grande. Bem, não é todos os dias mas em 2013 a revista Time nos E.U.A. já o tinha feito. Mas não é para falar de criatividade que estamos aqui hoje, afinal de contas, isso não interessa nada.

Na propagação da mensagem que a revista vinha aí, atenção, atenção a revista com as pessoas homossexuais a darem beijinhos na boca está a chegar, pelas redes sociais acompanhava-a a pergunta, “esta imagem, choca?” que me faz pensar, espera aí a ideia é mesmo o quê, chocar, ou não? Parece que consigo ouvir aquelas pessoas que me dizem: Oh Alexandra mas isto vai aos poucos, já estamos muito melhor, há uns anos atrás nem se podia falar sobre isto.

Ora, podemos pensar: Oh páh, que bom, a senhora cis, hetero, que apresenta o programa da manhã num qualquer canal sensacionalista quer muito ajudar a dar visibilidade aos gays e às lésbicas do nosso país, quebrar tabus, ensinar que beijinhos são bons e que o amor é que importa e claro mostrar a todas as pessoas como é uma boa samaritana e fala dos assuntos fraturantes e importantes da nossa sociedade. Não escolheu a violência policial, não escolheu o racismo, não escolheu a pobreza (espera, espera nós já não estamos em crise, já não temos pobres). Não escolheu o trabalho precário, o flagelo dos fogos ou outro, esses não são fashion e dificilmente vendem revistas cor-de-rosa.

Podemos pensar, assim a mensagem chega a pessoas que não costumam contactar com pessoas homossexuais e até podem dizer: Alexa, estás a ser muito exigente e a senhora até está a fazer uma coisa boa. Há até as pessoas que vão dizer: Assim é que deve ser, a mostrar que os homossexuais não são só marchas e plumas. Uma cambada de promíscuos e pedófilos. No entanto vimos pelas centenas de comentários depreciativos, homofóbicos, ignorantes  e outras palavras do tipo, que foram tecidos nas publicações sobre estas capas. Quem acha que estas coisas são coisas do passado, que tudo já foi conquistado está errado agora, a pergunta mantém-se, quem é que precisa de ser lembrado disto. Será que as nossas experiências do dia-a-dia não nos mostram isso? Quantos comentários a este tipo de publicação precisamos nós de ler a mais? Quem é que estamos a tentar sensibilizar? Quando e com que intuito se lembram que existimos, que somos uma minoria e que sofremos estas violências todos os dias?

Eu não consigo deixar de pensar que aquilo que conseguimos é sempre a mesma coisa, que pessoas que não têm nada a ver com a nossa comunidade (uso aqui comunidade consciente dos ses e se nãos, problemas e problemáticas do uso da palavra comunidade quando somos tantas pessoas, tão diferentes e com tanto sobre o qual não somos ou temos em comum), que não está nem apoia eventos, grupos, etc que trabalhem com a mesma, pode então usar neste caso orientações sexuais diferentes da norma para ganhar dinheiro. Vão dizer-me também: Oh Alexa, lá estás tu, as pessoas que aparecem na capa, fizeram-no de livre e espontânea vontade consentindo sobre o propósito e finalidades da revista incluindo o tipo de publicação que era.

E sim, eu posso até concordar que é importante fazerem-se diferentes tipos de trabalhos mais main-stream, ou não, mais ou menos aprofundados porque, nem todas as pessoas têm a mesma facilidade de aceitar certos tipos de conteúdos.

Vem aí o mas.

Mas, porque é que a norma, neste caso a homonormatividade, (a norma aplicada a pessoas homossexuais) é e existe em detrimento das identidades menos normativas, sexualidades mais marginalizadas. Entende-se o percurso que tem de ser feito mas até quando continuamos a marginalizar, a também a lucrar com identidades que não são as nossas e que não sabemos nada sobre.

É complexo, é! Podia estar aqui linhas e linhas a descortinar e desconstruir como e em tantas formas se capitaliza sobre estas identidades e sexualidades, não vou fazê-lo. Estou a falar sobre isto porque é importante ver de que forma podemos criar visibilidade, de que forma podemos contribuir para um percurso mais representativo da nossa diversidade e que não tenha fins comerciais. Deixo por isso alguns projetos fotográficos que fazem isso mesmo:

Zanele Muholi – Faces and Phases 2006 – 2014

Mikael Owunna – Limit(less) Africans

E porque é que falo nisto agora e não falei antes? Porque é bom de se ver que há uma apropriação por parte da comunidade LGBT, através do hashtag #istonaochoca destas capas, de forma a trazê-las para aquilo que nós somos, enquanto pessoas que existimos, amamos, sofremos, lutamos por sermos quem somos, iguais a nós, diferentes da norma heteroSsexual, mas também muitas vezes, cis, sem filhos, não querendo casar, formando famílias de escolha que vão para além de amores românticos e que se estendem para lá do casal a duas pessoas.

Alexa Santos

Alexa Santos

Depois de anos sem encontrar um espaço que pudesse chamar seu, Alexa criou o queeringstyle. No início uma página de Tumblr, hoje um espaço para pessoas que queiram falar, estar, partilhar. Não sabe muitas vezes parar porque, tudo o que faz vem do centro do peito. Gosta de fazer muitas coisas ao mesmo tempo, por isso é possível que se encontrem algures. Se sim, não deixes de dizer olá.
Alexa Santos

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