Na minha roupa, só eu?
21/01/2016
0

Um dia, quando morava no Reino Unido, estava na fila de uma espécie de loja dos trezentos em que tudo é a uma libra (£1 Store) e olho para a caixa ao lado. Eu, de laço ao pescoço, cabelo no ar, ela, jovem trans, cabelo metade roxo, meias de rede e maquilhagem forte. Já me tinha cruzado com ela na noite e naquele dia, estávamos ambas na fila do supermercado. Ao cruzarmos olhares saudámo-nos timidamente, sorrimos, encontrámo-nos.

A forma como me visto mostra um pouco de mim aos outros. Já disse por aqui que o que vestimos mostra aos outros um pouco de nós. Como se existisse um acordo, daqueles que não é falado ou decidido em que, quando me visto de forma masculina me torno reconhecível para pessoas iguais a mim. Encontro-me por isso na fila do supermercado com a possibilidade, a possibilidade da diferença. De poder ser diferente daquilo que sempre me disseram que devia ser, que tinha de ser. As minhas amigas brincaram dizendo que não há nada como reconhecermos ‘umx dxs nossxs’ e uma boa pechincha.

Ao negociar diariamente com a sociedade que me rodeia o uso de roupa que não é designada para o meu género, sou uma activista, invisto num acto de visibilidade para que outras pessoas iguais a mim me reconheçam. Comprometo-me também com o desconforto porque há pessoas que se sentirão desconfortáveis e, com o meu próprio desconforto quando essas pessoas sentem que podem invadir-me, dizer, falar, comentar sobre mim.

Na minha identidade queer (aqui, queer como crítica, não estanque, não binária) o que visto é importante, não só na forma como me permite ser igual a mim mesma, mas também na forma como me permite ser reconhecida como fazendo parte. Parte da comunidade queer, de um grupo de pessoas LGBT. A minha visibilidade permite-me negociar pertenças quando muitas vezes aqueles que me são mais próximos não me aceitam. Permite-me a criação de uma ‘família’, de uma rede de apoio, até, na fila de supermercado, em que ser eu completamente é fazer parte. É estar integrada. É ser aceite, num trocar de olhares e num sorriso empático. “Eu sei o que é andar nos teus sapatos, somos igualmente diferentes”.

Na visibilidade há o encontro, a possibilidade de quebrar o isolamento e encontrarmos pessoas iguais a nós. A forma como escolhemos sair pela porta de casa todos os dias, pode ajudar-nos a ser mais conformes ou menos. A roupa, o estilo, a moda, ajudam-me a estar mais confiante no meu dia a dia e assim ser mais segura. É uma ferramenta de protesto e activismo, de feminismo.

Permite-me criar diálogo, falar sobre questões de que normalmente não se fala. Permite-me criar espaços mais diversificados, ser questionada e questionar, para quebrar, para integrar.

Ao expressar a minha identidade, que é diferente da norma, encontro novos ângulos para olhar para a minha realidade, novas formas de aceitação. Aceitar que as minhas angústias por ser diferente não só são ‘normais’ como devem ser celebradas. Eu não devo sentir-me culpada por ser diferente pois não há nada de errado comigo e posso aceitar-me assim, ser feliz comigo, assim.

O que está por fora ajuda-me por dentro, permitindo também a partilha do que está cá dentro, com o mundo que está cá fora.


 

Artigo original: http://capazes.pt/moda/na-minha-roupa-so-eu-por-alexandra-santos/view-all/

Alexa Santos

Alexa Santos

Depois de anos sem encontrar um espaço que pudesse chamar seu, Alexa criou o queeringstyle. No início uma página de Tumblr, hoje um espaço para pessoas que queiram falar, estar, partilhar. Não sabe muitas vezes parar porque, tudo o que faz vem do centro do peito. Gosta de fazer muitas coisas ao mesmo tempo, por isso é possível que se encontrem algures. Se sim, não deixes de dizer olá.
Alexa Santos

Artigos recentes por Alexa Santos (ver todos)

Deixe uma resposta