Menino? Menina? Sim, eu sou um homem transsexual. E então?
05/05/2016
0

Desde que me assumi como transsexual que tenho tido um debate intelectual muito grande sobre a diferenciação de géneros. Estatísticas e dicionários à parte esta é uma questão que me tem dado grandes náuseas. Parece que todos nós temos uma visão muito assertiva sobre aquilo que é – e sobre aquilo que não é – ser mulher/homem.

Pelo que tenho visto, a maior parte das pessoas rege-se, única e exclusivamente, pelo órgão genital. Pénis? Menino. Vagina? Menina. A verdade é que nós não andamos propriamente por aí a ver o que se passa ou não no meio das pernas uns dos outros. Além disso, quantos homens não têm um pénis e quantas mulheres não tem uma vagina? E se virmos um homem, com pénis, mas com mamas? E se virmos uma mulher sem mamas, mas com pénis? E se virmos uma mulher sem mamas, com pénis, masculina? Entendem a minha dúvida?

Está agora a fazer 9 meses que me assumi como transsexual. Comecei a minha terapia hormonal no dia 12 de Fevereiro e foi também, nesse mesmo dia, que mudei legalmente a minha identidade e o meu género. No entanto, sempre fui gordo, o que não ajuda mesmo nada a ter uma “aparência masculina” – seja lá o que isso for. Tenho mamas grandes, ancas largas, um rosto e mãos femininas.

Uma vez, numa conversa com algumas colegas minhas, fui-me apercebendo que a maior parte das mentalidades que existem são muito monocromáticas. Uma delas, homossexual, disse-me que nunca haveria de ter nada com um rapaz transsexual mesmo que nunca tivesse sido submetido a alguma operação (mastectomia/Metoidioplastia/faloplastia) porque, mesmo sem operação, era um rapaz. Correcto. A outra, heterossexual, disse-me que nunca haveria de ter nada com um rapaz que nunca tivesse sido submetido a alguma operação (mastectomia/Metoidioplastia/faloplastia) porque, sem uma operação, era uma rapariga. Para além de me ter sentido extremamente ofendido, claro, aquela situação levou o meu pensamento a subdividir-se até ao extremo: senti-me uma espécie de meio-termo. Uma metade. Um híbrido. Um sei lá o quê. Um quase. Um talvez. Olhem, nem sei ao certo o que senti: uma dizia que sou um homem independentemente das minhas escolhas cirúrgicas e até mesmo independentemente da minha escolha pela terapia hormonal e, a outra, dizia que sem operações jamais seria um homem.

Mas afinal de contas, o que é ser um homem? O que é ser uma mulher?

Como transsexual assumido e assumidamente ativista, há uma pergunta que costumam sempre fazer-me: como é que sentiste que eras um homem?

Respondo agora com muita certeza: nunca senti que era um homem, senti apenas que não era uma mulher. Isto porque, no fundo, acho que nunca sentimos bem aquilo que somos mas apenas aquilo que não somos. Sim, sou um homem que nasceu no corpo de uma mulher. Aliás, ainda vivo nele. O que é que isso diz de mim? Nada. Não é o ser transsexual que me define, sou um rapaz como os outros. Tenho a minha vida, os meus amigos, a minha família, os meus ideais, projetos, sonhos.

Acho que, no fundo, somos aquilo que somos e ninguém tem absolutamente nada de protestar. Se a pessoa A se chamar Ana e se Ana quiser ser tratado por ele, então ele chama-se Ana. Não tens de protestar. Não temos de protestar. Ninguém é alguém o suficiente para caber dentro do outro. Aprendi, com o tempo, que os conceitos não são exteriores, são interiores. Os conceitos vivem em nós e não nos outros. Os conceitos são conceitos e, por isso, não são palpáveis. O ser humano é palpável, não o homem, não a mulher. Somos aquilo que temos de ser, quando temos de ser. Ter mamas não faz de mim menos homem, não ter barba também não. Ter uma voz “feminina” não faz de mim menos homem, ter ancas largas também não. Sim, eu sou um homem transsexual. E então?

 

Contribuições Queeringstyle

Contribuições Queeringstyle

Contribuições convidadas. Queres escrever para o Queering Style? Contacta-nos clicando no coração.
Contribuições Queeringstyle

Artigos recentes por Contribuições Queeringstyle (ver todos)

Deixe uma resposta