Media e Género: um espaço de partilha e reflexão
25/01/2017
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Quando tens muita vontade de falar sobre estas coisas dos feminismos e crias espaço numa faculdade para falares exatamente sobre eles.

O Daniel Cardoso fala-nos da aventura de fazer acontecer um curso sobre Média e Género na Universidade Lusófona, para ir, aprender, partilhar, reflectir. As incrições são até Fevereiro e ainda vai haver uma aula aberta no início desse mês ou seja, se não sabes bem se queres fazer o curso podes ir dar uma espreitadela, ver se gostas e depois decidir.

As relações entre os feminismos e a academia são tensas: por um lado, a academia cria espaços mais protegidos para reflectir sobre feminismos e os aprofundar; por outro, essa mesma protecção pode criar um desligamento entre o trabalho teórico e de investigação, e as dificuldades genderizadas sentidas no quotidiano de muita gente fora da academia. (Embora seja importante não esquecer que a academia actual é uma academia neoliberalizada, cada vez mais ligada a trabalho precário, e portanto também as nossas perspectivas sobre o que é “academia” precisam de ser repensadas.)

Essas relações arriscam-se a ser ainda mais complicadas quando à frente de uma iniciativa se vê um homem branco. É por isso que prefiro começar por esclarecer algo que se tornou em parte da minha filosofia de trabalho – operação por infiltração. O que quer isto dizer? Bem, existem várias formas de activismo, em vários espaços diferentes; o que funciona num lado pode não funcionar noutro. Eu escolhi ter – de forma bastante transparente – uma estratégia de infiltração. Isso quer dizer que, nos espaços que o meu privilégio enquanto homem branco universitário cria, tento sempre introduzir algo de feminismos. Faço-o quando estou a dar uma cadeira de Métodos de Investigação, faço-o quando estou a falar de Jornalismo de Investigação. Faço-o também assim, pela criação de um Curso Livre em “Media e Género”.

Se calhar estão a pensar: “o que é que este curso me pode oferecer?”. Várias coisas, acho. No programa estão incluídas várias visões sobre feminismo que vão para além do feminismo branco de classe média, estão incluídas questões sobre a importância do activismo para a construção de saberes feministas, questões sobre a produção de conhecimentos científicos e de ‘objectividade’ enquanto manifestações patriarcais. Mas, mais importante talvez, é a possibilidade de tomar contacto com investigações de oradoras convidadas a dinamizar várias das aulas (o ano passado foram cerca de metade).

Por entre a turma do ano passado e por entre várias das pessoas que participaram como oradoras convidadas criaram-se amizades, cumplicidades, sinergias de trabalho. Uma das coisas que me ficou na memória, quando no final do curso fizemos um ponto de situação, foi o quão importante era, para todas as pessoas que participaram, ter um espaço semanal onde podiam em segurança falar de temas que, no geral das suas vidas, eram totalmente desconsiderados.

Portanto, para quem queira aproveitar esse espaço mais seguro, para quem queira uma abordagem inicial a vários feminismos e a várias questões dentro dos feminismos a partir de uma perspectiva mais académica, quem queira conhecer mais autoras – venham! Mesmo que a vossa área de formação não sejam os estudos de género, mesmo que a vossa área não sejam os estudos dos media, não faz mal – os media são uma parte fundamental do nosso dia-a-dia, são uma parte fundamental da criação e do combate a estereótipos de género, e falar sobre isso ajuda-nos a compreender a complexidade do assunto.

Uma coisa é certa: eu posso ser o ‘professor’, mas fartei-me de aprender no curso do ano passado. Mal posso esperar para repetir a experiência!

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