Manifesto da 18ª Marcha do Orgulho LGBT de Lisboa
13/06/2017
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Mesmo depois de anos enquanto ativista queer e pelos direitos da dissidência de género e LGBTIQ, este foi o primeiro em que, em representação da Lóbula (coletivo do coração) me juntei às várias pessoas que fazem a Marcha de Orgulho LGBT acontecer em Lisboa.

Imaginem que se para combinar uma saída com um grupo de pessoas amigas, há quem vai e não vai e fica e não pode, o que não é combinar disponibilidades de várias pessoas de várias organizações para fazer uma marcha acontecer. Entre centenas de emails e dezenas de reuniões (que parecem sempre poucas com tanto que há para organizar), entre discussões e acordos mútuos, deixo-vos o manifesto deste ano para a Marcha do Orgulho LGBT de Lisboa.

Vamos sair à rua pela autodeterminação do género e do corpo para todas as pessoas trans, pelo fim da violência de género e todas as violências do cis-tema. Pela impossibilidade que ainda existe de podermos ser exactamente como somos, em processos de descoberta e certezas com as nossas multiplicidades de expressões, orientações e identidades de género.

Autodeterminação do género, autodeterminação do corpo para todas as pessoas trans
Manifesto da Marcha do Orgulho LGBT – Lisboa 2017

Estamos nas ruas pela 18ª vez, na que é a maior e mais participada Marcha do Orgulho LGBT de Lisboa.

Estamos aqui porque queremos mostrar toda a nossa diversidade. Somos pessoas trans, intersexo, lésbicas, bissexuais, gays, assexuais, pessoas de todas as origens étnicas e nacionais, requerentes de asilo, pessoas com diversidade funcional, com deficiências, pessoas que exercem trabalho sexual, pessoas de várias religiões e crenças, pessoas com maior ou menor segurança económica, com vidas mais ou menos precárias, pessoas que têm diferentes modelos relacionais e familiares, pessoas idosas e jovens, pessoas arromânticas, pessoas que estão em relações poliamorosas e não-monogâmicas consensuais. Somos pessoas com Direitos inalienáveis.

Estamos aqui porque, e independentemente da nossa orientação sexual, identidade ou expressão de género ou orientação relacional, somos pessoas que querem contrariar e que recusam um sistema de regras e de papéis rígidos impostos pela nossa sociedade, um sistema binário e hetero-mono-normativo que nos limita e nos reprime. Celebramos as nossas diferenças e a interseção das nossas várias identidades.

Exigimos a inclusão da identidade e a expressão de género no artigo 13.º da Constituição.

Estamos aqui por muitos motivos – mas este ano especialmente porque exigimos a despatologização das identidades trans. 45 anos depois da despatologização da homossexualidade urge despatologizar as identidade trans. Estamos aqui porque exigimos a autonomia de todas as pessoas na definição de si próprias, em todas as áreas da vida em sociedade. Não podemos permitir que a autonomia das pessoas trans, na livre vivência dos seus corpos, continue restringida pelo controlo médico. Não esquecemos os problemas com as cirurgias no Serviço Nacional de Saúde – que têm sido objeto de notícias – e exigimos cuidados (de saúde mental, hormonais, cirúrgicos, e outros) éticos, de qualidade, atempados, e gratuitos. Estamos aqui porque exigimos que os cuidados de saúde no nosso país respeitem a diversidade das nossas identidades.

Estamos aqui para que as vozes trans sejam ouvidas; para que os discursos sobre estas pessoas deixem de estar sob a tutela de supostxs especialistas. As pessoas trans sabem quem são e de que precisam. Chega de paternalismos!

Continuaremos a vir para a rua enquanto houver mutilações à nascença feitas a crianças intersexo, enquanto as pessoas intersexo tiverem as suas variações do desenvolvimento sexual patologizadas e os seus corpos submetidos a “normalização” hormonal e mutilações sem consentimento informado. Nem mais uma criança mutilada!

Continuaremos a vir para a rua enquanto a saúde continuar longe de ser para todas as pessoas, e enquanto o género continuar a pôr em causa o acesso à nossa saúde sexual e reprodutiva.

Nada mudou desde o ano passado: o preconceito continua a estar na base dos critérios estigmatizantes, discriminatórios e errados que insistem em querer vedar a doação de sangue a todos os “homens que têm sexo com homens” e em impedir as pessoas de recorrer com confiança e com segurança a profissionais do SNS.

As estratégias integradas de prevenção do VIH excluem ainda o acesso à profilaxia pré-exposição (PrEP) e são ainda muito poucas as estratégias governativas de combate à discriminação e ao estigma associados ao VIH.

Estamos aqui porque dizemos não à discriminação, ao preconceito e ao bullying nas escolas e espaços afins, incluindo os espaços de educação não-formal.

Estamos aqui porque queremos um quadro legal que reconheça a gravidade dos crimes de que somos vítimas, que reconheça as motivações discriminatórias de quem os pratica, e que conduza a práticas de investigação e registo adequadas e imparciais. Queremos um sistema judicial que nos veja e nos proteja, queremos profissionais de confiança para que possamos viver em plenitude e segurança.

Estamos aqui porque queremos igualdade e proteção não só em Portugal mas em todo o lado e para todas as pessoas. Queremos viver num país que respeita as suas obrigações internacionais de Direitos Humanos e que as relembra e exige a outros países. Queremos a proteção de todas as pessoas em todos os lugares. Não podemos ficar inertes e em silêncio com os assassinatos constantes de mulheres trans no Brasil, com as perseguições milicianas a pessoas com sexualidades e expressões de género não normativas na Rússia e nos seus protetorados, com perseguições, violações “corretivas” de mulheres lésbicas e bissexuais na África do Sul, raptos e torturas de tantxs de nós no Uganda, com a ameaça de penas de morte e de prisão em tantos países.

De Trump a Putin, do Zimbabué à Arábia Saudita, das igrejas evangélicas brasileiras ao Daesh, das extremas-direitas europeias a Israel, as pessoas LGBT são hoje sistematicamente instrumentalizadas para efeito de propaganda, tanto quando são tornadas bodes expiatórios, ou quando discursos pretensamente contra a homofobia são usados para legitimar o ódio contra outras comunidades – como as pessoas migrantes, refugiadas, muçulmanas – ou ainda quando a alegada defesa dos direitos LGBT serve como cortina de fumo para ocultar outros atentados sistemáticos contra os direitos humanos.

Gritamos bem alto: a solidariedade (e o ativismo) com todas as pessoas e grupos perseguidos, a intransigência na defesa da universalidade dos Direitos Humanos, são hoje, mais que nunca, os instrumentos que nos permitirão defender os nossos direitos e as nossas vidas!

Queering style

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O queeringstyle é um espaço queer feminista, que tem como missão a visibilidade de discursos, de identidades variadas para que pessoas possam falar de si, estar e ocupar espaço.
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