Manifesto bi
29/09/2016
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A 23 de Setembro assinalou-se o dia da visibilidade bissexual.

A minha bissexualidade não quer muito saber do dia 23 de setembro, escolhido por fazer coincidir o mês do aniversário do ícone bi Freddie Mercury com o dia de aniversário de Gigi Raven Wilbur, uma ativista bi e kinky dos EUA – mas reconhece a sua importância enquanto reação às celebrações mainstream de identidades gay e lésbicas que invisibilizam e ostracizam as pessoas bissexuais.

A minha bissexualidade sabe que as pessoas bi (bem como as pessoas trans) fazem parte dos ativismos LGBT anglosaxónicos, cujos modelos seguimos, desde o começo, honrando pessoas como Brenda Howard, “mother of pride”. A minha bisexualidade entende que tenham sido pessoas bis e trans a criar contra-movimentos mais radicais, pela invisibilização e apagamento das suas(/minhas) lutas em prol dum reconhecimento e conquista de direitos e “igualdade” para as pessoas gays (e lésbicas).

A minha bissexualidade faz troça da origem do termo, herdeiro da patologização oitocentista de práticas sexuais tidas como desviantes, quando os médicos, deuses do conhecimento e principais agentes de vigilância, adidos do Estado, usam a palavra para definir pessoas que têm sexo com pessoas do mesmo sexo e do sexo tido como oposto. A minha bissexualidade recusa este binarismo original e ressignifica-o, tal como foi e é feito com os termos “gay”, “queer”, “fufa”, “bicha”, “puta”, etc.

A minha bissexualidade é minha. Ela não existe para ser definida por ninguém além de mim própria, ela não existe para ser objeto de deleite de ninguém (além de mim própria).

A minha bissexualidade é feminista. Ela não existe independente do meu ativismo feminista, ela não se define fora da minha luta pelo fim do patriarcado, pelo combate à misoginia, pela crítica da masculinidade tóxica, pelas lutas antiracista, anticlassista, anti-imperialista, antiespecista. A minha bissexualidade opõe-se violentamente à transfobia e é inclusiva de todas as identidades e explorações de género.

A minha bissexualidade é queer. Ela está dependente da minha reflexão sobre género, sobre sexualidade, sobre feminilidades e masculinidades. Ela recusa questionamentos sobre os géneros, a diversidade e frequência das minhas relações. A minha bissexualidade é uma revolução queer – mas ela não é necessariamente mais revolucionária do que outras identidades, ainda que estas correspondam a noções popular e genericamente cristalizadas como lésbicas, gays e/ou heteros.

A minha bissexualidade é poliamorosa: ela questiona os ideais de hereditariedade, produtividade e acumulação por trás da farsa romântica da monogamia compulsória, e permite-me amar mais do que uma pessoa simultaneamente de formas mais ou menos diferentes – o que não invalida que eu possa ter ume companheire (apenas) e/ou estar solteira. A minha bissexualidade entende que es parceires que eu possa ter têm liberdade para se envolver afetiva e/ou romântica e/ou sexualmente com outras pessoas, tal como eu, enquanto existir honestidade, respeito e cuidado mútuo.

A minha bissexualidade influencia a minha apresentação, a minha *feminilidade*: gosto de me sentir algures próxima da femme, sem recurso a grande maquilhagem e sem depilações por opção própria e não por busca de uma qualquer naturalidade ou realidade, que nunca seria menos artificial do que a sua intenção. A minha bissexualidade inclui a frequente subversão e exploração aleatória do que acabei de enunciar.

A minha bissexualidade define-se pela possibilidade de eu me sentir romântica e/ou sexualmente atraída por mulheres e pessoas não binárias, excluindo homens cishet – o que não invalida que eu tenha um companheiro cishet. A minha bissexualidade tem sérias dificuldades em lidar com comportamentos, ainda que residuais, com origem nos ideais de masculinidade hegemónica.

A minha bissexualidade é válida de há cinco anos a esta parte, e apenas enquanto eu assim o determinar.

 

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