Machismo sobre rodas.
02/10/2017
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Numa recente manhã de setembro, enquanto ia a caminho do trabalho, na minha Honda PCX, fui ultrapassada por uma mota preta, estilo DT. O condutor ia, obviamente, a uma velocidade superior à minha, até porque eu sou uma daquelas pessoas que procura cumprir os limites de velocidade, em especial quando é o meu corpo a cortar o vento. A mota escura curvou na direção de uma rua estreita e eu, coincidentemente, também. Ele seguia ligeiramente à esquerda, uma vez que havia carros estacionados junto aos dois passeios, e eu à direita do eixo da via, enquanto procurava manter alguma distância. Subitamente, o rapaz atravessou-se à minha frente e volveu à direita, alcançando um caminho particular que o levaria até a uma oficina. Sem aviso, sem luz amarela a piscar e sem qualquer indicação de que iria mudar de direção, eu travei instintivamente, de modo a evitar uma possível colisão, mas a minha mota derrapou e inclinou-se para a esquerda, tendo eu acabado por cair.

A minha scooter continuava a trabalhar, apesar de tombada, e eu sentei-me no chão, enquanto tentava perceber de onde provinham as minha dores. Um senhor aproximou-se de mim, baixou-se e agarrou a minha mão, obrigando-me a levantar, enquanto dizia repetidamente:

–  Você travou mal, você travou mal.

Perguntava-me eu se o senhor dominava alguma técnica de socorrismo para tentar levantar-me, de forma tão abrupta, e se, por acaso, era vidente e sabia que mão tinha eu usado para travar; para além de ter excluído, à partida, qualquer falha mecânica. O rapaz da mota preta também apareceu e eu perguntei-lhe se não sabia usar os piscas.

–  Eu nem sequer os tenho! – respondeu ele com o ar mais natural do mundo.

Depois de me levantar e de relembrar o jovem de que deveria usar o braço para assinalar a mudança de direção, na ausência de luzes para o efeito, uma outra voz masculina reforçou:

–  Você assustou-se, foi isso. Travou e acabou por cair.

Mais um ruído sexista, mais uma fala que encontrou eco na opinião generalizada de que uma mulher estaria envolvida num acidente por culpa exclusivamente sua, por falta de técnica, de jeito ou de aptidão natural. Conversei com o rapaz, durante algum tempo, percebendo que a sua mota não possuía espelhos laterais nem piscas e referi que foi o seu descuido que provocou o acidente. Ele discordava e eu resolvi chamar a PSP. Esperei mais de uma hora e, enquanto isso, o dono da outra mota continuava a insistir que nada tinha feito, que eu seguia muito atrás dele e que me assustei, rematando convictamente:

–  Você não sabe é conduzir!

Acabei por desistir de falar com o meu interlocutor e limitei-me a aguardar. Chorava de dor, de raiva, de orgulho ferido e chorava, também, porque sabia que as minhas lágrimas sublinhariam todas as frases que me tinham sido ditas anteriormente: “sou mulher, não sei conduzir, assusto-me facilmente e não sei, sequer, travar.”

Telefonei a um amigo, um que conduz uma mota a sério (sim, porque eu tenho um “aspirador”, como se por esse motivo fosse menos gente, visto que o meu motociclo não possui mudanças – não sei controlar uma mota, mas tendo uma, só podia ter uma scooter, muito mais acessível e feminina). Ele ofereceu-se para ir ter comigo e achei que a sua experiência poderia ajudar-me, bem como a sua companhia.

A PSP chegou e ouviu as nossas histórias. Quando eu frisei que o rapaz não tinha assinalado a mudança de direção, um dos agentes afirmou com toda a naturalidade:

– Claro que não. Ele não tem piscas.

Depois de destacar o óbvio e de dar a parecer que podemos andar todos na estrada sem “luzes de mudança de direção”, ainda acrescentou que eu deveria estar muito próxima da mota preta e que não tinha tido tempo para travar em segurança.

Chegou, por fim, o meu amigo Edgar, na sua mota impressionante e vestido a rigor – um homem, muito moreno, cabelo negro e com ar descontraído. Posicionou-se ao meu lado, perguntando se eu estava bem. O meu joelho doía, o meu tornozelo sangrava e a cabeça latejava. Eu esforçava-me por ter um discurso coeso e sucinto, sem que as lágrimas me embargassem os olhos e a voz. A postura do agente mais velho mudou, pois talvez pensasse que o recém-chegado fosse meu “tutor” – um namorado, um marido, com certeza alguém que me colocaria no lugar e que me faria permanecer calada. As palavras que se seguem não foram ditas, mas eu senti-as esbofetearem, invisíveis, as minhas faces: “Chegou o teu dono, mulher. Agora cala-te.”

A responsabilidade era minha, nada mais havia a dizer, apesar de sentir o peso da impunidade e da injustiça, tendo em conta que alguém não cumpriu uma regra básica do código da estrada. Mais do que isso era a forma como eu estava a ser tratada: as bocas, as conclusões machistas e precipitadas, as interrupções constantes do rapaz da mota escura.

Estava a preparar-me para me retirar, convencida pelos factos e pelo vazio existente na lei – uma mota sem piscas, um braço que não fora levantado e um jovem “tão honesto, tão honesto” que assumia que não tinha assinalado a sua inesperada curva à direita, pois se então mentisse, seria a minha palavra contra a dele e a minha valeria menos, por ser a mulher que tem uma scooter desde 2008, mas que continua sem saber conduzir. Capacete na mão, pronta para voltar a casa e limpar as feridas, ergue a voz o senhor agente e pergunta ao meu amigo:

– Então o senhor motard que tem experiência disto, o que me diz sobre esta situação?

O Edgar sublinhou a necessidade e a importância dos piscas, algo óbvio, a meu ver, e não referiu nenhuma das aberrações que tinham sido proferidas antes. Para ele, houve uma regra que não havia sido cumprida e que resultara na minha queda. Curiosamente, o agente não contestou a posição do meu amigo, no entanto ainda teve tempo de olhar para mim e dizer que talvez os meus travões não estivessem bons.

Invertamos os papéis, e se o rapaz tivesse caído por minha causa? Arranjariam tantas desculpas? Talvez apenas uma: “Mulheres…nunca sabem conduzir.”

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