Livro: Djidiu – A Herança do Ouvido
24/01/2018
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Djidiu – Na Guiné-Bissau um Djidiu, palavra de origem mandinga, é um contador de histórias, um recipiente e um difusor da memória coletiva. Intérpretes e clarividentes, os Djidius são porta-vozes dos sem voz, autênticas bibliotecas ambulantes, também conhecidos como Djetis ou Griots. Estão espalhados desde os tempos imemoriais, por toda a África ocidental que trespassa o Sahara, com particular incidência nas sociedades Mandinga, Wolof, Sérères, Peuls entre outras. São conselheiros, observadores, filósofos e poetas. Enquanto guardiões da tradição oral, cantam ou contam histórias sempre num inviolável compromisso com a verdade. (p. 14)

Um dia convidaram-me para integrar uma família à qual eu não sabia que podia pertencer.

Um dia disseram-me que a história que eu tinha para contar sobre mim, sobre quem sou fazia parte de uma herança, de uma ancestralidade que merecia ser partilhada.

Nesse dia, quando acreditei tornei-me Djidiu.

Não podia, por ter feito parte da partilha oral que foi este projeto faltar ao dia em que as palavras que um dia ouvi ditas de corações ao alto por vozes que de cada vez sabiam mais de si se tornaram livro.

Este livro conta-nos a sua hitória logo no prefácio que foi escrito pela inspiradora Cristina Roldão:


“É frequente que, só depois de escrito, um livro saia à rua, mas este, antes de nascer, já o ia sendo. Desde o primeiro momento, em exposição ao público, foi-se mostrando a muitos jovens negros do centro à periferia de Lisboa. Os textos e o imaginário que Djidiu – A Herança do Ouvido nos oferece foram andando de rascunho em rascunho, de boca em boca, de ouvido em ouvido nos encontros mensais Djidiu e no audioblogue Rádio Afrolis, até formarem o livro que o leitor segura agora nas mãos.
Apesar de inédito no Portugal contemporâneo, e é preciso sublinhar essa originalidade, este livro inscreve-se numa herança de resistência cultural e política negra através da produção literária coletiva.
(…)
Tal como essas obras, Djidiu- A Herança do Ouvido reúne as vozes de diferentes poetas e escritores negros – Apolo De Carvalho, Carla Fernandes, Carla Lima, Carlos Graça, Cristina Carlos, Danilson Pires, Dário Sambo, luZGomes e Té Abipiquerst Té -, ativamente envolvidos na criação de um espaço de produção literária próprio, chamando outros coletivos negros a participar, criando textos, declamando-os, performativizando-os e expressando aquilo que tantos de nós, negros e negras pensamos e sentimos, mas não deixamos escrito em nenhum lugar, nem encontramos nos media, na política, na academia ou em outros lugares de poder. Nos textos que se seguem partilha-se e discute-se a condição subalternizada do negro e da negra no Portugal de hoje, o racismo nas instituições e no quotidiano, a necessidade de resistir e descolonizar a mente, e de como esta diáspora se liga a outras diásporas africanas no mundo e, claro, a África. Sem rodeios ou eufemismos, é uma obra politicamente comprometida, no seu processo de construção e resultado, e agora cabe-nos a nós, leitores, não quebrar essa corrente.”

O que é que posso dizer-vos sobre este livro.

Este livro é um espaço, é a possibilidade de um tempo em que ser eu é ser eu toda. Onde encontro pessoas das minhas e em que os pedaços de mim podem ser tudo o que sou.

Este livro é isso.

Houve um momento em que não sabia falar de mim enquanto pessoa negra. Não sabia o que era ter uma cor diferente da branca. Mas a vida ensinou-me e ainda assim eu não sabia o que era ser negra para responder ao racismo, para falar sobre o que me faz diferente numa maioria branca. É em espaços/momentos como este que podemos armar-nos do que é preciso para falar de nós, para pensarmos na nossa ansestralidade, para colocarmo-nos enquanto herança de algo maior que nós mas de que fazemos parte.

É de agradecer mas é também de dizer que se quiserem perceber um pouco melhor sobre todas estas coisas de que falo, comprem o livro.


Onde comprar o livro:
Livraria Ler Devagar (LXFactory)
Livraria Ferin (Chiado)
Livraria Tigre de Papel (Arroios)
Livraria Distopia (Sao Bento)
Livraria Pó dos Livros (Saldanha)

Alexa Santos

Alexa Santos

Depois de anos sem encontrar um espaço que pudesse chamar seu, Alexa criou o queeringstyle. No início uma página de Tumblr, hoje um espaço para pessoas que queiram falar, estar, partilhar. Não sabe muitas vezes parar porque, tudo o que faz vem do centro do peito. Gosta de fazer muitas coisas ao mesmo tempo, por isso é possível que se encontrem algures. Se sim, não deixes de dizer olá.
Alexa Santos