Lembras-te
01/08/2017
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Lembras-te da galeria de que te falei? Não te deves lembrar, mas eu lembro-me da nossa conversa; da cor dos teus sapatos e do perfume que levavas preso à camisola. Abraçaste-me durante tempo o suficiente para levar o teu cheiro comigo; como se fizesses o caminho de volta ao meu lado. Ou preso ao meu pescoço. Visitei a galeria, sabias? Vi quadros sensacionais e no final da primeira volta, sentei-me num banco de frente para uma obra enorme; possivelmente a mais bonita que ali estava. Horas a fio a apreciar aquela imagem e não houve canto que mudasse ou detalhe que pudesse torná-la menos encantadora aos meus olhos. Nunca mais falamos e eu continuei a visitar a galeria, sabias? A fazer duas voltas e a sentar-me nesse mesmo banco, sempre ao final da primeira. Falei de ti a estranhos que sentavam-se ao meu lado. Estranhos apressados, estranhos aborrecidos, estranhos chorosos. O encanto foi tão grande quanto o meu, quando falamos pela primeira vez ao telefone. Algum tempo se passou e o silêncio que plantaste em nós, foi regado por mim todos os dias. Ontem foi a última vez que alimentei este ritual artístico à minha alma. Fui à galeria, como todas as quintas-feiras e sentei-me no banco; como naquele episódio de Sense8, sabes? Apreciei durante horas a fio, durante meses, a mesma obra atraente daquela sala; até que os meus olhos se cansassem, até que eu não tivesse mais vontade de regressar. Desta vez, reparei em algo para além da moldura; uma tinta preta que escorria pelo teto e acabou por atingir a pintura. Espalhou-se e colonizou gradualmente a razão das minhas quintas-feiras. O meu olhar desnorteado não se desviou em momento algum. O meu corpo irrequieto tornou-se imóvel até ao pôr do sol da minha obra favorita. Eu sei que obra é, sei que é a mais bonita da sala e sei o quão cobiçada é por apreciadores de arte. Continuei sentada, continuei imóvel. Até que já não se via pedaço de céu ou terra na pintura que me fizesse querer continuar ali. Levantei-me e despedi-me de ti. E esta alegoria ilustra como vi a queda da tua personalidade consumir inalteravelmente a tua beleza.

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