Im not your negro.
02/07/2017
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Saí mais cedo do trabalho, um daqueles dias em que compensas algumas das mil horas a mais que fazes e que não te pagam. Achei que devia aproveitar fazer uma coisa que não fazia há algum tempo, ir ao cinema e ver um filme que já tinha ouvido falar muito e que queria muito ver.

Entrei na sala do Cinema Ideal (sala de cinema mais antiga de Lisboa que toda a gente devia visitar) perto do Bairro Alto já com um pouco de atraso porque lembrei-me de apanhar o elétrico 28. Porque não, estamos numa de fazer coisas que não fazemos sempre, bora lá. Mas esqueci-me das dezenas de turistas que todos os dias querem apanhar aquele elétrico histórico e na demora, atrasei-me.

Sentia o coração a palpitar como que a pensar o que é que vai sair daqui. Era um misto de curiosidade, alguma ansiedade e ao mesmo tempo algum receio do que aquele filme me ia dizer e por isso fazer sentir.

Eu sei que não sou a melhor pessoa para fazer crítica de cinema porque conto tudo o que se passa nos filmes mas hoje vou tentar não fazê-lo porque quero que vocês o vivam em primeira mão dentro da sala de cinema ou no escurinho da vossa sala de estar.

I am not your negro traz-nos para o agora da história Americana através do seu passado. Mostra-nos as várias formas nas quais as pessoas negras são removidas, invisibilizadas e silenciadas. Fala-nos do sistema racista em que as pessoas negras se movem não só hoje mas desde sempre naquele país. Confronta-nos com aquela que é a realidade de uma história que sempre estigmatizou pessoas negras e que hoje continua a usar violência e silenciamento como forma de manter a opressão a pessoas negras.

O mais fascinante do filme é a forma como se junta presente e passado. Os EUA onde vivia Baldwin e os EUA onde acontecem hoje os protestos de Black Lives Matter.

 

O retrato montado pelo diretor Raul Peck daquilo que vivem as pessoas negras desde sempre nos Estados Unidos é impressionante e faz-nos pensar na história das várias opressões, nos nossos preconceitos e na forma como tantas vezes a história que sabemos e conhecemos nos contagia. A História diz-nos o que se passou e faz-nos acreditar por se ter impregnado nas nossas mentes e nos corpos, no que julgamos igual ou que pensamos como diferente de nós, bonito e feito, melhor ou pior, com mais ou menos valor.

O filme I am not your negro lembra nos que ninguém é ou deve ser objeto de ninguém seja com nome de escravo ou escamuteado, enquanto alvo da polícia ou no caso dos EUA mão de obra barata enquanto número do sistema prisional. Devemos manter-nos alerta e talvez assim comecemos a perceber melhor o que vemos como diferente e a entender também o que nos torna iguais a nós e as outras pessoas como elas mesmas

Este filme ajudou-me a lembrar que não existimos sem essas concepções e as mesmas ajudam-nos a ter uma posição no mundo e a sabermos quem somos porque, sabemos que pelo menos aquilo não somos. Por isso é tão importante estarmos vigilantes do nosso discurso mas também do nosso pensamento. É tão importante desconstruirmos, lermos e aprendermos sobre as coisas que não conhecemos e aquilo que nos parece estranho. Pode ser que assim passemos a cair menos na falácia dos preconceitos e estereótipos e assim comecemos a educar-nos a nós e aos outros para as injustiças e opressões de pessoas que não são menos e merecem tanto quanto todas as outras.

Vão ver e digam-nos depois o que acharam.

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