Hidden Figures – O filme – com spoilers
16/02/2017
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Falar de Hidden Figures (na tradução infeliz para o português, Elementos Secretos que mais parece que vamos falar de uma missão secreta aos Alpes ou que o filme é uma qualquer versão de um qualquer filme do 007) é dizer WOW e sentir que são poucas as palavras para descrever este sentimento que me enche depois de sair da sala de cinema.

(Aviso: este não é um artigo de crítica de cinema, é um artigo pessoal de opinião sobre o filme que tem spoilers do início ao fim)

 

dancing

Eu não sou muito de ir ao cinema. Na realidade o que eu gosto mesmo são das pipocas. No entanto como bilhete e pipocas são demasiado caros, o hábito foi-se perdendo. Alguém se lembra de quando ia ao cinema e pagava 2,5€ por bilhete? Também é verdade que as soluções de streaming online são cada vez mais apelativas dado que o cinema não é de todo para todas as carteiras.

Dito isto, depois de ver o trailer deste filme decidi que tinha de o ir ver ao cinema. Que tinha de pagar para ver este trabalho feito sobre mulheres negras que vingam num mundo elitista, branco nos anos 60 quando a segregação era ainda uma realidade no sul dos Estados Unidos (pensar que não foi assim há tanto tempo e que no nosso tempo a realidade não é assim tão distante #BlackLivesMatter).

Eu contava-vos a história do filme mas para isso têm o Google, o Imdb ou a Wikipédia isto é, se já não sabem do que trata ou não foram já vê-lo ao cinema (espero que sim).

know it

Aquilo de que vos quero falar é das mulheres Katherine JohnsonMary Jackson e Dorothy Vaughan e de como saber da existência delas naquela altura tem um impacto significativo em mim nos dias de hoje.

Quero falar-vos de como a história destas três mulheres negras que vingaram na área das ciências exactas em que ainda hoje vemos não só poucas pessoas negras como poucas mulheres muito menos mulheres negras, para mim significa que tudo é possível. Afinal ainda hoje quando pensamos na palavra cientista, que imagem vos vem á cabeça?

Falar-vos também de como mexe comigo que esta história verídica se passe na Nasa, uma instituição elitista, numa altura de segregação racial que no filme mostra ir até à diferença de chaleiras para o café, uma para brancos outra para negros (colored) e onde algumas das formações para ser por exemplo engenheira como no caso da Mary Jackson que se tornou a primeira mulher negra do estado a ter o curso de engenharia, existiam apenas em escolas para pessoas brancas. Como é importante para mim mesmo num contexto a que só pessoas brancas tinham acesso estas mulheres entraram, marcaram a sua posição, fizeram a sua voz ser ouvida e geraram mudança.

black excelence 2

Quero falar-vos de como este filme me ajuda a pensar que tantas vezes nos questionam acerca das nossas capacidades por sermos isto ou aquilo e barram-nos a possibilidade de chegar onde queremos chegar mas que por vezes, ainda assim, o caminho faz-se caminhando, indo, sonhando. Como no caso de Dorothy Vaughan que estava a substituir uma supervisora de uma equipa de matemáticas negras e entra sorrateiramente na sala do computador IBM e em vez de dizer: – Esta máquina faz cálculos muito mais rápido do que é humanamente possível, vou perder o meu trabalho assim como toda a minha equipa, volta a estudar e não só aprende a trabalhar com o computador como ensina toda a sua equipa permitindo que toda a equipa a acompanhe quando o seu departamente deixa de ser necessário.

Mostrou-me que uma desvantagem pode também ser uma oportunidade ao mesmo tempo que ensina sobre o significado de sororidade e a prática da vida em comunidade e para a comunidade. Ensinou-me mais sobre todos os dias ser escada, a tornar o meu conhecimento nosso de forma a que sejamos mais a saber diferente e a alcançar o que queremos ser.

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No entanto, foi o momento em que Katherine Johnson explica ao chefe porque é que se ausenta da sua cadeira 40 minutos todos os dias que mais me emocionou.

A única casa de banho para pessoas negras (colored) era num edifício diferente daquele em que Katherine trabalhava. Ou seja, ultrapassado o facto de que as pessoas negras tinham de usar uma casa de banho diferente das pessoas brancas, perceber que não havia uma casa de banho para pessoas negras naquele edifício é dizer que não se esperava nunca pessoas negras naquele edifício, que aquele edifício estava disponível apenas e existia apenas para pessoas brancas. Katherine para usar a casa de banho para pessoas negras que existia a quase um quilómetro de distância num outro edifício, num outro campus tinha de ausentar-se do seu lugar por 40 minutos. Quando o chefe a chama à atenção ela diz (deixo aqui para verem):

– Well, I don’t own pearls, Lord knows you don’t pay colored people enough to own pearls. And I work like a dog, day and night living of a coffee from a pot none of you wanna touch. So, excuse me if I have to go to the restroom a few times a day.

A possibilidade de usar a sua voz num espaço que a silenciava, que era tudo menos recetivo é de uma coragem que não tem medida. Ajuda-me a acreditar que qualquer coisa é possível e que a minha voz pode ser usada em contextos mesmo que hostis e quem sabe o impacto que essa voz pode ter?

black excelence

Talvez seja por tudo isto e mais que este filme é tão importante hoje, na altura e sempre.

Este filme mostra-nos que onde quer que estejas, quem quer que sejas, há a possibilidade de seres quem és e que o que és, é tudo o que precisas de ser mesmo contra as probabilidades mesmo que estejas a nadar contra a maré.

Pode parecer cliché e uma exploração da ideia do American Dream mas para mim é também para além disso quando falamos de mulheres negras, quando falamos de contextos de segregação e a encontramos perseverança, auto-confiança e estes exemplos de liderança mostram-nos ou pelo menos a mim que é possível. Dão me coragem para continuar porque se elas conseguiram porque é que eu não ei de conseguir.

Hidden Figures, é também um livro, em que o filme se baseia da escritora Margot Lee Shetterly.

Alexa Santos

Alexa Santos

Depois de anos sem encontrar um espaço que pudesse chamar seu, Alexa criou o queeringstyle. No início uma página de Tumblr, hoje um espaço para pessoas que queiram falar, estar, partilhar. Não sabe muitas vezes parar porque, tudo o que faz vem do centro do peito. Gosta de fazer muitas coisas ao mesmo tempo, por isso é possível que se encontrem algures. Se sim, não deixes de dizer olá.
Alexa Santos

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