Fendas de guerreira.
24/04/2017
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Tornei-me numa pessoa que não quis ser. Olho-me no espelho e tenho pena que o ódio se tenha apoderado de mim. Teimam em dizer que sou boa. Chamam-me de “anjinho”, entre outros adjetivos demasiado pomposos e bondosos. Mal sabem da amargura que carrego diariamente. Das vinganças que segundo a segundo prometo a mim mesma. Dos olhos de fogo que olham para o campo de guerra onde vivo. Do humor sádico que me afoga as desilusões permanentes. Do mal que penso de vocês, de ti. De toda a gente. Tenho pena de mim mesma. Drama queen, a cínica subtil rebelde.

Não fui feita para estar constantemente em combate. Não fui feita para ser mutilada ou ferir pessoas. Não quero lutar. Não quero ser a lutadora, a guerreira. De que me serve todas estas etiquetas se depois me esqueço do prazer dos simples momentos? Do prazer da brisa do vento? Do riso? Do prazer de ser jovem?

Estou, ou estava, prestes a adquirir uma carrinha em meu nome para ser posteriormente devidamente adaptada às minhas condições físicas. Imaginem, eu, a sair à noite com os meus amigos, ou ir passar férias a qualquer lado, e poder entrar e sair perfeitamente do meu carro, sentada na minha cadeira de rodas. Sem quaisquer complicações. Sem qualquer luta. Fantástico, não é? Ou melhor, não seria? Mas esqueço-me que continuo num campo de batalha e é impossível em tempos de guerra alguém sair completamente ileso. Ou que não hajam armadilhas e arames farpados por todo o lado… Não posso, por enquanto, ser eu a conduzir. Não tenho ainda as condições para tal, nem me sinto preparada. Outra luta, que para já, não me sinto completamente armada para ela. Portanto, não tenho, ou teria, outro remédio se não ser conduzida por terceiros. É engraçada esta palavra, terceiros. Porque são de facto apenas três as pessoas que me podem conduzir. Para já, os meus pais e uma tia. Fazendo as minhas contas, dizem as estatísticas que passo mais tempo com os meus colegas e amigos do que com os meus pais e família. E fazendo outras contas, se quiser ir almoçar a algum sítio durante a semana com os meus colegas, estou, mais uma vez, dependente dos meus pais (e tia). Se tiver um namorado, não posso dar uma escapadela, sem que os meus pais saibam e me levem. Ou se quiser ir sair à noite, vou ter de sacrificar os meus pais ou a minha tia, para ficarem até às 5h da manhã à minha espera para me transportarem. Mas esperem, esqueci-me que o Estado até facilita. Até me dá a hipótese de eu poder mudar estas três pessoas, para outras três, sempre que eu quiser. Desloco-me até lá, com os meus pais claro, e peço novas declarações. Mas espera… Os meus pais levaram-me ao notário e agora têm de me levar de volta a casa, mas já não têm a declaração de permissão… Será que umas granadas resolvem esta situação?

O Estado e a Alfandega, coitados, preocuparam-se tanto com a minha situação e suposta segurança (não estávamos em guerra?) que agora não deixa que o carro seja conduzido por outras pessoas, porque em vez de dizer no meu atestado de incapacidade “anda exclusivamente de cadeira de rodas”, só diz “anda de cadeira de rodas”. É nestas alturas que realmente percebo para onde foi a malta que quis seguir linguística.

Foda-se, tenho o trabalho final de curso para acabar, estou de férias e continuam-me a recrutar para combates destes. Haja paciência.

Quem quiser ir lutar por mim, mande mensagem privada. Não ganham lá grande coisa, mas deixam de ter o vosso nome e passam a ser vistos como guerreiros e lutadores. Talvez dê para colocar no currículo e tudo.

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