Estilo, para que te quero?
20/01/2016
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Normalmente percebemos que somos diferentes dos outros porque dizem-nos que não somos como era suposto. ‘Por que é que não és mais assim?’, ‘Podias usar o cabelo mais para baixo, alguma vez pensaste em esticá-lo? Havia de ficar giro!’. ‘Podias levar um vestido, de certeza que te ficaria bem! Tu és tão magrinha!’.

Sabemos que somos diferentes porque há algo inerentemente negativo em não encaixar. Em não sermos como os outros. Porque os outros se sentem desconfortáveis, atacando e defendendo para ver se assim se torna mais fácil adaptarem-se a algo que não reconhecem ou não conseguem descrever, aceitar, perceber. Ser diferente é uma espécie de ‘falha de fabrico’, algo correu mal no ‘processo de produção’. Se não é igual, só pode ser defeito.

Na moda, adotarmos um certo estilo, ajuda-nos. Na tortura daquilo que nos entra em casa, pelo ecrã da televisão, na rua, pelos outdoors publicitários, que nos é passado pela família, pelos colegas na escola, no trabalho. Todos os dias, a todo o momento. O estilo mostra-nos que há também a possibilidade de um contra-discurso.

Esta ‘conversa’, não acontece por palavras mas sim, na dissidência, na transgressão daquilo que é um dado adquirido. Através da roupa. Transgride-se aquilo que não é necessariamente verdade, é só usual, de prática comum, a norma. Não somos necessariamente diferentes, somos apenas e talvez menos usuais, com uma expressão diferenciada, que não é a norma, logo, salta à vista.

Muitas vezes confundem-nos com estereótipos, reduzem-nos a ideias preconcebidas do que é uma mulher masculina ou um homem afeminado. Fazem-se piadas, brinca-se à mesa do jantar, à volta de um conjunto de shots no bar ou no intervalo, entre colegas. O equilíbrio entre ser comunidade e ser alvo de chacota ou até ter a vida em perigo acaba por ser separado por uma linha muito ténue. ‘Estava mesmo a pedi-las!’, ‘Pois, veste-se assim, estava à espera de quê!?’, ‘Só sabem chocar, depois dizem que lhes acontece!’, ‘Se fossem mais ‘normais’ isso já não acontecia!’. É o que muitas vezes ouvimos quando falamos de alguém com um estilo diferente, ou que usa uma saia mais curta e depois é vaiada na rua. De quem tem um cabelo mais no ar que depois as pessoas não se contêm e têm de tocar. São muitos os exemplos, basta pensar em nós e na quantidade de vezes que não dissemos já, essas mesmas frases.

Muitas vezes não percebemos que a questão não é ser-se diferente. A diferença é somente não ser como a maioria. A resolução de que talvez a binariedade das coisas não é para nós e, a conformidade da maioria é algo em que não ‘encaixamos’ é talvez uma tentativa com honestidade e transparência. Para que viver não seja tão penoso e tenhamos uma oportunidade para além da sobrevivência. A nossa falha é também inspiração. É também a oportunidade do desconhecido, do impossível, de fazer aquilo que ainda não foi feito.

Quero um estilo meu, que me diferencie, não para ser diferente mas, para ser eu mesma.


 

Artigo original: http://capazes.pt/moda/estilo-para-que-te-quero-por-alexandra-santos/view-all/

 

 

Alexa Santos

Alexa Santos

Depois de anos sem encontrar um espaço que pudesse chamar seu, Alexa criou o queeringstyle. No início uma página de Tumblr, hoje um espaço para pessoas que queiram falar, estar, partilhar. Não sabe muitas vezes parar porque, tudo o que faz vem do centro do peito. Gosta de fazer muitas coisas ao mesmo tempo, por isso é possível que se encontrem algures. Se sim, não deixes de dizer olá.
Alexa Santos

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