Entrevista: TIE ME UP
23/04/2016
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Entrevista com André Mariano, 25 anos, arquiteto e designer, Co-fundador da TIE ME UP. Vão inaugurar uma loja pop up já em 26 de Abril – mais detalhes aqui.

 

Como surge a TIE ME UP?

A TIE ME UP acaba por surgir em conversa com um amigo meu. Estávamos na zona da Baixa-Chiado, numa esplanada, eu estava desempregado e ele com uma proposta para ir para o estrangeiro e juntos pensámos, “o que é que vamos fazer?”

Eu queria fazer alguma coisa para além de enviar currículos e trabalhos temporários, tinha de tentar fazer alguma coisa. Queria um projecto que eu pudesse ter e gerir quer aqui, quer em qualquer lugar, dependendo das propostas que aparecessem. Enquanto estávamos ali, a ‘anhar da vida’, sem saber o que fazer, eu disse – “Olha, e as gravatas?”.

Eu tenho uma adoração pela figura do meu avô e tenho colecções de chapéus, gravatas e bengalas e lembrei-me: o meu sócio trabalhava num atelier de engenharia, como podem imaginar ele tem de ir de camisa. Eu estava num atelier de arquitectura e também tinha de ir de camisa. Chegou uma altura em que pensei: “eu estou aqui à frente do computador 12 a 14 horas por dia a trabalhar e não me sinto confortável a trabalhar.” Então, houve uma altura que pensei: “vou de polo para o trabalho, estou aqui para mostrar o meu trabalho, não estou aqui para mostrar o que visto”. Então, decidi pelo polo que é aquela peça de vestuário entre a camisa e t-shirt que pode ser aceitável. Então, fui de polo e por isso chamado ao gabinete, e fizeram-me uma reprimenda subtil que me deu a entender que estava mal vestido para o local de trabalho. O que é certo é que, passados quinze dias, vi os colaboradores mais sénior (eu era o mais novo na empresa) a ir trabalhar de polo e pensei: “realmente o polo é uma boa jogada”. Assim, instiguei o meu agora sócio, o João, a fazer o mesmo no trabalho dele e ele começou a ver que houve também no trabalho dele uma adesão. Esta foi então uma ideia entre muitas que surgiram quando estávamos a pensar em coisas para fazer cá.

De repente lembrei-me: “acho que falta aqui uma ponte entre o informal e o formal/chique. Falta aqui qualquer coisa, há aqui um buraco nas tendências e tentei criar aqui uma ponte e pensei: “qual é o símbolo masculino de formalidade?” É a gravata, uma pessoa vai a um casamento, leva uma gravata, ou um laço, sendo que a gravata é um símbolo mais afirmativo. De repente lembrei-me que o meu pai tinha montes de gravatas no roupeiro, dos anos 60, 70, 80 e pensei fazer uma experiência. Então, a TIE ME UP surge como uma experiência. Fiz alguns testes a aplicar gravatas, comecei a perguntar, a usar e foi assim que surgiu. Foi de uma conversa espontânea, quase de desespero (pelo menos da minha parte) e pensei, eu com esta marca posso ter este projecto, ir ou ficar, porque temos uma plataforma online e onde estiver posso explorar a marca.

O meu sócio acabou por ficar em Portugal, e a marca por isso a crescer ainda mais porque realmente estamos os dois a trabalhar para que dê certo.

 

Quem é o público da marca?

Toda a gente. Posso dizer mais afirmativamente, entre os 12/15 anos até sem idade, já tivemos encomendas para pessoas com 76 anos – nós não temos um estereótipo de público, queremos abranger todo o público. Somos gulosos nesse sentido, queremos que as pessoas se identifiquem com a nossa marca, pela nossa marca.

A nossa marca tem uma história, somos uma empresa e uma marca portuguesa, que trabalha com uma fábrica em Guimarães, manda produzir as etiquetas de algodão e borracha em Aveiro, temos quatro costureiras em Lisboa. Não somos uma marca global, somos uma marca pequena e queremos ser pequena no sentido de ser portuguesa do inicio ao fim, onde tentamos valorizar o que temos de melhor. Portanto, o nosso público é toda a gente, estendendo também para a linha pet ou seja, fazemos também trelas, coleiras e peitorais para cães e gatos. Achámos, “porque não o dono ter uma coleira a condizer com o animal de estimação?”

Tentamos sempre ser uma marca para toda a gente, sem nichos.

 

Uma das coisas que nos fez entrar em contacto com a TIE ME UP foi acharmos que era fácil qualquer pessoa identificar-se com ela. Todas as pessoas a quem falámos da marca disseram “Isto é muito giro, gostamos disto.”

Somos uma marca com história, portuguesa, que tenta procurar a melhor qualidade em diferentes regiões de Portugal. É uma marca diferente no sentido em que tu não vais a uma loja e compras uma peça já feita. A grande diferença é esta, e também a nossa dificuldade inicial de educar. Eu acho que todas as pessoas têm de ser educadas, e neste momento estamos a educar o nosso cliente, ou seja, a nossa marca é costumizada, é personalizada, fazemos colecções de x em x tempo, as pessoas tanto gostam do imediato como da exclusividade e sabemos que ao verem uma t-shirt já feita, pensam “gosto, quero, vou comprar”. No nosso site, as pessoas podem escolher a base – uma t-shirt, um polo, um body, a cor de base – mas muitas vezes as pessoas não têm o tempo para isso, e por isso fazemos coleções. Efectivamente na nossa marca acaba por ser o cliente que desenha a sua própria peça, e nós fazemos a concepção. Outra particularidade da marca é que pode ser uma peça com história, não só a nossa história mas também com a história do cliente, utilizando uma gravata do pai, do avô, do tio. Pode ser uma pequena lembrança, uma pequena memória. Eu e o meu sócio temos hoje várias peças, aquelas de teste, que foram feitas com as gravatas dos nossos pais, e podemos dizer que tenho sempre o meu pai presente, perpetuando a memória das vivências dele, das gravatas dele.

 

Sim, deve ser engraçado veres fotos em que a pessoa está há muitos anos atrás a usar a gravata que tens numa peça. Outra questão, vocês utilizam a palavra irreverência para descrever a vossa marca, porquê?

Porque eu gosto de provocar e começo já pelo nome. E ao pensarmos que nome íamos dar a isto, partindo da palavra gravata, escolhemos o nome em inglês porque queremos ser uma marca portuguesa internacional. E sentimos que o cliente precisa de ser provocado, instigado, e então demos uma conotação sensual ao nome dado que o sexo vende e não podemos dizer que não. E quem entender TIE ME UP, vai pensar “olha seu malandro!”. A gravata mais uma vez utilizada para outras funções, outras experimentações e brincadeiras. Para além disso, para nós tem outro significado também, é quase o trazer-me para cima. Nós os dois estávamos em mudança de trabalho e eu na eminência de ficar desempregado, então vimos na TIE ME UP um novo objetivo profissional, um foco que nos pudesse trazer ânimo novamente. Assim, é irreverente porque queremos ser diferentes, achamos que ninguém se lembrou de fazer o que estamos a fazer, na atitude que queremos que as nossas roupas tenham.

 

Diriam que são feministas?

Os nossos ideais são os ideais de afirmação, diferença e ideais únicos, é isso que tentamos transmitir com a nossa roupa. Assim, se pensarmos no feminismo não lato onde para além de sermos iguais, temos o direito de sermos iguais a nós nas nossas diferenças.

 

Porque é que gostaram da ideia da colaboração com o Queering style?

Da mesma forma que somos diferentes, vocês são diferentes. Da mesma forma que queremos manter uma afirmação, vocês também. Achámos que os nossos ideais acabam por se cruzar e achámos que seria um bom canal de transmissão da nossa mensagem, juntamente com a vossa. Se realmente acreditamos que somos diferentes, queremos que as pessoas se afirmem como diferentes, realmente não trabalhamos para um só nicho e realmente queremos gritar ao mundo o que nos vai na alma. Inicialmente tentámos perceber – o que é isto, se era mais do mesmo. E pensámos, queremos ser diferentes, mas, na filosofia do crescer lentamente, de uma forma concisa, a TIE ME UP também quer crescer, e sabemos que temos de ter paciência. Já estive envolvido em muitos projetos e às vezes penso: quero que este dê certo, e fazendo estudos de mercado, ver que mais ninguém faz isto e perceber que somos originais; quero tentar e só no tentar já ganhei. E aquilo que sentimos com a vossa proposta e com aquilo que vocês defendem passa pela diferença e pela afirmação de um estilo de vida, de uma filosofia de vida, de uma imagem de vida e achámos que seria, porque não, uma boa parceria.

 

Como é o futuro para a TIE ME UP?

Espero que seja risonho. Neste momento queremos crescer, aos bocadinhos e de forma segura. Não queremos começar por cima e rapidamente cair. Quero que esta experiência cresça, estamos em fase de contatar pessoas que queiram ser embaixadorxs da marca. Depois procuramos também espaços, nomeadamente o Tête-à-Tête, que não sejam apenas espaços comerciais para terem a nossa roupa e na nossa filosofia tendo as nossas peças e algo que possamos transmitir. Estamos numa fase de criar plataformas para além da TIE ME UP e ao mesmo tempo melhorar o nosso site e loja online. Portanto estamos numa fase de colaboração, de pensarmos, furarmos, e ver o que resulta, para crescermos, sendo que ao mesmo tempo contruímos no sentido de dar resposta as solicitações e pedidos que nos aparecem, de trabalhos para espectáculos, grupos de alta competição, etc. Estamos à procura de mais costureirxs que as que temos já não chegam, a pensar num espaço físico, para podermos dar uma resposta individual e à medida de cada pessoa. Portanto queremos encontrar parcerias e continuar a crescer.

 

Para entrar em contacto com a TIE ME UP:

Site: http://tiemeup-lojaonline.weebly.com/

Facebook: https://www.facebook.com/Tiemeup.onlinestore/

Instagram: https://www.instagram.com/tiemeup_clothing/

Email: info.tiemeup@gmail.com e sales.tiemeup@gmail.com

Alexa Santos

Alexa Santos

Depois de anos sem encontrar um espaço que pudesse chamar seu, Alexa criou o queeringstyle. No início uma página de Tumblr, hoje um espaço para pessoas que queiram falar, estar, partilhar. Não sabe muitas vezes parar porque, tudo o que faz vem do centro do peito. Gosta de fazer muitas coisas ao mesmo tempo, por isso é possível que se encontrem algures. Se sim, não deixes de dizer olá.
Alexa Santos

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