Entrevista: SAPATA PRESS
13/12/2017
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Falou-nos a Raquel da Cuntroll Zine sobre a Sapata Press e nós fomos espreitar. Disse-nos a cara no livro que:

“A SAPATA PRESS é um projeto editorial transnacional, sem fins lucrativos, com foco em banda desenhada/quadrinhos de autorxs de expressão portuguesa.

Seu objetivo é lançar plataformas de produção – fanzines, livros, posters, workshops – que abram portas a mulheres e pessoas não-binárias, sejam elas trans ou cisgénero, independentemente de raças e orientação sexual. Trazendo para a linha de frente publicações de cunho biográfico/político e/ou experimental através da perspectiva de autores de diferentes origens e backgrounds.
Na senda do feminismo interseccional, a SAPATA PRESS tenta inverter a sub-representação de mulheres e pessoas não-binárias nos espaços de produção de BD/HQ e, a secundarização destas na história.

REPRESENTATIVIDADE IMPORTA! ”

E nós dissemos temos de falar com elas, aqui, o resultado editado de uma conversa boa boa de fim de tarde, já depois do trabalho, que podia ter durado horas e horas.

Desde já obrigada à Sapata pela generosidade e a todas as pessoas o convite para saberem mais sobre esta editora diferente.

QS- Diz-se Sapata ou Sapata Press? É que eu gosto tanto de Sapata só.

Cecília- Eu pensei em Sapata só, mas Sapata só ficava uma coisa tão no ar…

QS- Sapata Press também diz logo o que é né para além de no coloquialismo será sempre só Sapata.

Cecília- Claro, nunca digo a minha editora a Sapata Press, não, é Sapata para os íntimos.

QS- Então, quem é que faz parte da Sapata?

Cecília- Eu, o meu nome é Cecília Silveira, tenho 34 anos, inventei a Sapata para me auto-publicar em 2016 e a dada altura depois de publicar duas coisas pensei que não podia ficar só por aí,  não podia só me auto-publicar porque tinha muita gente ao meu redor que tinha publicações incríveis e tinha trabalhos incríveis que eu queria que outras pessoas conhecessem. A Dois Vês, que convidei para estar aqui ao nosso lado (acena timidamente como se houvesse uma câmara, só que não), foi a primeira pessoa que eu convidei a publicar na Sapata.

2vês- Não, só tinha esboços que lhe mostrei o ano passado, na cinemateca. Lembras-te do esboço?

Cecília- Sim.

2vês- Disseste-me: Ah, estou a pensar criar uma editora podias publicar aqui. Mostrei-te um esboço de quatro páginas. Super manhoso e tu disseste, é isto.

Cecília- Sim, mas eu já conheço o trabalho dela desde que frequentei o ArCo. Fizemos um ano de ilustração e BD (corresponde ao último ano da formação) juntas,  pois queria fazer um estudo etnográfico sobre a agencialidade das mulheres migrantes brasileiras em BD. Depois de ter o meu projecto aceite no doutoramento, pensei que era preciso melhorar a minha a minha BD e o Jorge Nesbitt me recebeu no curso.

QS- A tua formação antes ao doutoramento foi de?

Cecília- Toda em Artes Visuais e aí eu decidi que ia fazer um doutoramento em Antropologia porque eu precisava de uma coisa séria na minha vida.

(Rimos mais do que devíamos porque este sentimento de que não podemos ser artistas que não vamos ser levadas a sério é difícil).

Cecília-  Pensei: vou ser séria, doutora antropóloga. Só que lá pelas tantas percebi que a Universidade ainda não está pronta para a BD.

2vês- A Academia ainda não encara a Banda Desenhada de maneira séria.

Cecília- Aqui a onda ainda não chegou. Nos EUA houve o Unflattening do Nick Sousanis com uma tese em  BD. Foi o primeiro, por isso estou a citá-lo aqui. É importante. Dito isto, posso dizer que o meu doutoramento ficou a meio do caminho. Defendi o projeto mas não continuei. Entretanto (no Ar.Co) conheci muita gente, foi super importante porque lá surgiu essa ideia de me publicar a mim e também outras pessoas. Nomeadamente as minhas colegas porque os meus colegas, eles se auto-publicavam entre si. Era sempre a mesma coisa… As miúdas, elas se fossem namoradas de um amigo, se fossem bastante fixes elas acabavam publicando alguma coisa.

2vês- Ou então substituíam um amigo que não pudesse publicar. Eram postas no banco.

QS- à espera de poder jogar.

Cecília- Muitas vezes o trabalho delas era muito bom e que deviam ser publicados! Reparei que havia uma coincidência muito engraçada (ironia) – Olha são todas miúdas! Pronto, vou publicar isso! Foi o caso da Marcela (Dois Vês), Sensui foi a sua primeira publicação…

2vês- Em Banda Desenhada. Foi o projecto mais sério e que dediquei mais tempo porque eu antes nem sequer considerava banda desenhada, era mais ilustração. Foi um desafio publicar.

Cecília- A editora era eu, que não sabia como ser editora e tentei fazer o melhor possível esse papel.

QS- Então as primeiras publicações foram em 2016?

Cecília- Foram em 2017,  no dia 21 de Setembro.

QS- Ah, então foi mesmo agora.

Cecília- Bem, os primeiros zines foram auto publicações e sim, foram lançados em 2016. Madrugada é uma história que eu achava que ninguém ia publicar. Como não queria que o meu trabalho ficasse na gaveta, me auto-publiquei com Madrugada, em 2016.  Foi uma história que eu comecei num workshop do Nuno Saraiva em que ele dava duas vinhetas e eu tínhamos de completar a história. Fiz uma história que tem uma carga erótica brutal, mas que além disso tem uma coisa de bagunçar os papéis de género. E esse exercício se completava com o colega que fazia as cores. Porque era a história de um casal que à primeira vista seria um casal hétero, cis. Que na verdade são duas pessoas trans.

Foi lançado no Queer Lisboa de 2016 pois a Filipa Valadares me perguntou se eu tinha alguma coisa publicada para vender na banca dela. Então, fiz aquela bota, aquele logo. Decidi o nome Sapata, Sapata sou eu, vamos lá brincar com isso. Brincar com a ofensa, se é uma ofensa. Sempre foi uma ofensa. Mas aprendemos a usar a ofensa para outras coisas.

QS- Também gay era ofensa, também queer era ofensa.

Cecília- Se eu sou sapata eu posso usar sapata. Se fosse outra pessoa não. Eu posso. Então fui buscar lá naquela imagem da bota do camponês e em todas as coisas que acabam por atravessar a minha também a identidade sul americana, que desde 2010 passeia por Lisboa. Então a primeira publicação foi Madrugada, e a segunda foi GO que é uma história de uma imigrante forçada, uma mulher que sai da África subsariana e que refugiada faz a travessia de barco para chegar à Europa. GO tinha sido lançada em 2015 pela Dor de Cotovelo e reeditei pela Sapata em 2016.

Então depois destas duas publicações, convidei a Dois Vês e a Aline Lemos que é uma autora de Belo Horizonte (Brasil) que admiro. A Aline é historiadora, já publicou alguns zines e tem participado ativamente da cena da HQ ( equivalente a BD) no Brasil. Conheci o trabalho da Aline pelo zine Melindrosa. O zine lindo a duas cores com aquela estética art deco e uma mancha gráfica sem vinhetas, com um desenho muito simples e ideias muito interessantes sobre género. Fiquei encantada pelo trabalho dela e perguntei se ela queria fazer uma BD para a Sapata, ela alinhou.

QS- Então a Sapata és tu e?

Cecília- Então, sou a editora. A Dois Vês publicou um trabalho mas ela faz tanta coisa: vai às feiras comigo, vai às entrevistas, administra a página do facebook… Faz tudo, está sempre pronta a ajudar.

2vês- Acho que é importante ter uma ajuda. Tu és editora mas precisas sempre de mãos pra trabalhar.

Cecília- Tá vendo!?

2vês- Se a Sapata é para apoiar uma causa, para apoiar a Sapata também é preciso mais pessoas, e eu estou mesmo aqui ao pé. Por isso é obvio que quero ajudar, faz-me sentido.

Cecília- Então, ela é co-editora. Há também a Ana, a minha namorada, que faz os cartões de visita mais disputados das feiras, faz revisões de texto, vai às feiras, tudo passa por ela e tem um olho clínico, pois critica as nossas bandas desenhadas. Outro dia mostrei uma BD a ela, que disse: – O nariz desse personagem aqui não pode ser assim nessa vinheta porque descaracteriza. Não é o mesmo personagem.

Nem sempre concordamos com ela o que gera discussão e é ótimo.

2vês- É debate saudável.

Cecília- Portanto, somos três. Mas existem outras pessoas que criam um diálogo vital connosco. O Ramon Vitral é um jornalista de São Paulo que tem um blog que é o Vitralizado e está sempre disposto a ajudar, a ler as bandas desenhadas com um olhar crítico e especializado. Dandara Palankof, investigadora que acabou de lançar ( com osutros investigadores) a revista Plaf! no Brasil. O Marcos Farrajota, faz parte da equipa mesmo sem saber, pois quando recebo um material penso logo em mostrar ao Marcos e na crítica azeda dele. É uma pessoa super generosa que está sempre pronta a ver e a esticar sempre mais e mais a corda, recebe-nos na Bedeteca e está sempre pronto para o combate. O Pedro Moura também é uma pessoa que está muito presente e importante. Então, a equipa somos nós as três mas temos mais estes amigos importantes que estão sempre de olho.

QS- Outra coisa que queria perguntar e agora enquanto te ouvia, mais ainda. Achas importante esta coisa de nos inventarmos e re-inventarmos a nós mesmos no sentido de criarmos estas respostas de visibilidade? Porque para mim foi muito importante sair daquilo que era a minha experiência de trabalho como assistente social e de repente tive de me tornar fluente na edição do site, etc. Ou seja, dizias à pouco que não és editora mas que achas isto importante e que esta era a forma. Saindo talvez um pouco da tua caixa para fazeres uma coisa.

Cecília- Olha, se ninguém faz, eu vou ter de fazer. Nesse sentido eu concordo. Eu acho importante ter iniciativas que deem visibilidade sem estereotipar. Não sei se é uma reinvenção, no sentido de que as coisas já existem. Se você acha que é capaz de fazer alguma coisa, força!

QS- Sim, até porque bebemos de influências de todos os lados, do que vamos vendo. Refazendo, repetindo. Encontrando-nos.

Cecília- Tinha uma preocupação grande, ainda tenho porque ainda estamos começando, que é, não pegar num indivíduo e fazer dele uma representação do todo. A ideia de usar a BD como meio para discutir questões de género e de representação, tem como fim dar a ver vozes dissidentes e que na sua enorme diversidade podem até se chocar, podem até se contradizer. O que acontece é que, o capitalismo engole tudo e capturar o discurso da diversidade é uma coisa que eles já aprenderam. “Ahh, vamos respeitar a diversidade!, mas que merda de diversidade é essa sem a quastão interseccional, ou de classe, ou sem mesmo a questão individual.

QS- Eu não sei se concordas mas eu sinto que a palavra interseccionalidade perdeu sentido e ao mesmo tempo não sei até que ponto é que chegou a ganhar sentido no meio mainstream. Porque eu acho que pessoas usam a palavra interseccional um bocado assim ao desbarato. Como em grupos de feministas que são transfóbicos ou racistas ou classistas ou que assumam o teu género. Sem perceber a responsabilidade da interseccionalidade.

Cecília- Primeiro eu não digo que sou uma feminista interseccional. Eu digo que sou apoiante do feminismo interseccional porque eu tenho noção…

QS- Portanto, eu acho que há um saber que eu acho que as pessoas não têm então interseccional passa a ser sinónimo de diversidade.

Cecília- Talvez caia num senso comum pensar a interseccionalidade tão somente como a intersecção entre muitas tantas questões e sem uma leitura critica. O Paul Preciado propôs na Documenta em Atenas, uma coisa chamada Parlamento dos Corpos que era um parlamento onde pessoas dissidentes de género ou que tinham quaisquer outras questões estavam lá expondo as suas questões e tendo voz. Então, estávamos nós numa feira de publicações e a Dois Vês diz: “- Isto aqui é um safe space”.  Pensamos a Sapata como um púlpito desse parlamento, como esse espaço onde estamos a salvo e onde xs autorxs possam dizer algo.

QS- Outra coisa importante para mim é, estamos constantemente a falar de espaços privilegiados e sobre espaços seguros, os safe spaces agora, o que é que pra ti é importante naquilo que se chama um safe space porque isso é que muitas vezes é difícil de definir ou nomear. O que é importante ser ou fazer, garantir para que um espaço seja realmente seguro.

Cecília- Eu acho que tem a ver com assegurar essa singularidade. Não basta dizer: “vejam esta é uma autora negra, trans, da América Latina”. Mais do que isso, é importantíssimo perceber que é uma pessoa que faz BD, que tem uma história para contar, que  sua a história é única, é individual. Para mim é um espaço de fala, que consegue captar essa singularidade. Isso para mim é um safe space.

2vês- Para mim também tem a ver com o facto das mulheres quse não existirem na cena da BD. Vais ver um evento de banda desenhada e é gajos, gajos, gajos… e depois, toma lá uma gaja para não dizeres que não pensámos nisso. Para mim num safe space vamos dar voz a quem não tem fala, ponto. A questão é às vezes nem sequer te consideram.

QS- Aquilo que eu acho importante e que eu gostava que vocês se pronunciassem, é importante nomearmos, dizer, este espaço é para estas pessoas no sentido de que estas pessoas sabem que podem vir ou, não é importante e o safe space cria-se só por existirmos. No exemplo da Sapata, se publicarem só este tipo de histórias não precisam nomear que é para este tipo de pessoas.

Cecília- Eu acho que é preciso nomear. Sim. É preciso por em causa a condição de desigualdade histórica e, portanto, estrutural do sistema. Para que as pessoas que nunca tiveram oportunidades iguais, tenham alguma hipótese de serem lidas. Nós como mulheres, nós como dissidentes de género, nós como pessoas não binárias ou nós como pessoas trans, não temos também essa oportunidade. Acho necessário nomear pois quando digo que a Sapata é um projecto editorial voltado para autores destes seguimentos específicos, é já comum ouvir por aqui que isso é uma coisa excludente. Entro em choque! Não, esta é uma iniciativa que inclui pessoas que estão sempre à margem! É um safe space e eu acho importantíssimo dizer.

2vês- As pessoas são muito rápidas a dizer que estamos a excluir homens, mas silenciosamente andaram a excluir mulheres sempre. Ninguém nunca fez disso uma questão e no nosso caso (com a BD) as pessoas sentem que devem intervir.

QS- E vocês procuram só BD?

Cecília- A ideia inicial é só BD mas tem aparecido muita coisa. Um livro infantil de uma pessoa trans. Poesia lésbica, muitas lésbicas mandando poesia! Tem aparecido muitas propostas para a Sapata, mas o interesse é mesmo por BD. Seja porque existem outras iniciativas noutras áreas ou, pelo facto de que queremos intervir especificamente na Banda Desenhada. Pelo menos por agora. É por uma questão de não existir esse espaço que precisa existir.

QS- Vocês publicam só em português.

Cecília- Sim. A ideia é publicar em português, também por todas as questões anteriores. Já há imensas publicações em inglês! Brasileirxs, portuguesxs, autorxs de países africanos de expressão portuguesa devem ter a oportunidade de publicar na sua língua e que possam conversar entre si. A transnacionalidade do projeto é uma coisa muito importante para a Sapata. Quando saí do Brasil não fazia ideia de que esse triângulo amoroso (África-Brasil-Portugal) tem muita coisa a dizer. As trocas coloniais na atualidade continuam sendo uma merda! Então, vamos escrever em Português, que esse material possa atravessar os mares, possa fluir.

 

A Sapata Press procura pessoas que queiram publicar (http://sapatapress.tumblr.com/publique) as suas histórias e que se identifiquem com o projeto por isso é entrar em contacto com a Cecília com quem tivemos tanto gosto em conversar.

Contactos:

Tumblr: http://sapatapress.tumblr.com/

Instagram: https://web.stagram.com/sapatapress

Facebook: https://pt-br.facebook.com/sapatapress/

Ler artigo Blimunda, revista da Fundação José Saramago – https://pt.scribd.com/document/362564744/Blimunda-65-outubro-2017

E aquele artigo do Público que se não viram, têm de ver:

http://p3.publico.pt/cultura/livros/24634/fanzines-de-mulheres-e-pessoas-nao-binarias-e-sapata-press#

Para mais sobre Cecília Silveira –  http://ceciliasilveira.com/ e http://www.instagram.com/cclsilveira/

Para mais sobre 2vês – http://doisves.tumblr.com/e http://www.facebook.com/doisves/

Para mais sobre Aline Lemos –  http://desalineada.tumblr.com/ e http://minasnerds.com.br/2016/06/14/desalineada/

Sobre o Ar.Co  – http://www.arco.pt/site/

Mais sobre Unflattening a obra de Nick Sousanis – http://lerbd.blogspot.pt/2016/04/unflattening-nick-sousanis-harvard.html

Sobre a Dor de Cotovelo: https://www.facebook.com/dordecotovelo/

Vitralizado – http://www.vitralizado.com/

Revista Plaf – http://loja.revistaplaf.com.br/

Queering style

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O queeringstyle é um espaço queer feminista, que tem como missão a visibilidade de discursos, de identidades variadas para que pessoas possam falar de si, estar e ocupar espaço.
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