Entrevista: Pole Dance and African Culture
17/10/2017
0

Cátia Silva, é angolana e completou os seus estudos em Comunicação Social e gestão de Marketing depois de começar a praticar Pole Dance há 8 anos e hoje é proprietária da Brown Sugar Art ‘n’ Pole Dance Studio. O projecto Pole Dance and African Culture parte da possibilidade de ver mais mulheres negras a aderirem à modalidade de Pole Dance, propondo assim workshops que decorreram durante o mês de Setembro, onde se partilhou o que é ser mulher através da dança e também sentimentos em torno da mulher africana no âmbito das artes entre outras curiosidades.

Conta-nos um pouco de onde vens, quem és? 

Sou angolana de Luanda. Cresci em Portugal onde fiz o meu percurso completo de estudos.
Licenciada em Comunicação Social e pós graduada em Gestão de Marketing.

Como começou o teu interesse pelo Pole Dance?

Depois da minha experiência de Erasmus, de perder 15 quilos que tinha a mais e aquando da minha especialização, conheci alguém que fazia Pole Dance e convidou-me a ver uma apresentação da escola. Fiquei fascinada! Increvi-me e não parei.

De que forma achas que o Pole Dance é uma ferramenta para as mulheres?

Para as mulheres é uma modalidade que mistura dança sendo um desporto bastante completo, com a particularidade da parte sensual que toda a mulher deveria explorar aquando da sua vida. Para muitas de nós pode representar um grande desafio, ou uma janela para algo que nunca pensamos ter dentro de nós.
Força, coragem, empoderamento, auto-confiança!

E para as mulheres negras?

Para as mulheres negras será exactamente o mesmo! No entanto, ainda somos poucas a mostrar interesse nesta arte em comparação com outros países, onde a cultura do Pole Dance já está mais desenvolvida e a presença e intervenção de pole dancers negras é extremamente significante. Fomentando movimentos de integração, e empoderamento, mas mais do que isso, de auto-afirmação e segurança enquanto mulheres e enquanto negras.
A mulher negra em Portugal embora tenha uma figura bastante vistosa é ainda muito tímida, envergonhada ou acanhada se quiser.
Ao longo desta 1° edição uma das grandes preocupações da maioria das interessadas foi a parte da dança, ou o ser no espaço de Pole Dance. Mesmo após explicações e desmistificar vários pré-conceitos, apesar de estarem super interessadas na temática preferiram não se envolver. Isto fez-me chegar à conclusão que sim a mulher africana tem as suas barreiras mentais ainda muito difíceis de derrubar. Talvez com o tempo. Quem sabe?

Sentes que a prática de Pole Dance é feminista? Porquê?

Do meu ponto de vista é sem dúvida uma prática que vai totalmente contra o machismo, sexismo. Obriga-nos a ter uma mente mais aberta enquanto mulheres. Por outro lado, existe cada vez mais diversidade no Pole Dance, embora as mentalidades ainda se estejam a formar, e ainda exista algum preconceito. Temos que analisar do ponto de vista do Pole Dance em Portugal, que apesar de ainda ter muito espaço para crescimento, tem vindo a ganhar cada vez mais terreno. Lá fora já começa a ser muito semelhante a taxa de bailarinas e bailarinos participando muitas vezes na mesma categoria de competição CLASSIC a mais sensual e de saltos altos. Eu vejo esta interacção como um derrubar de barreiras e pré conceitos próprios.

De onde veio a ideia deste projecto, o Pole Dance ‘n’ African Culture , porquê juntar pole dance e mulheres negras?

A ideia deste projecto vem do percurso de quase 9 anos de prática desta modalidade e experiência de palco, onde como pessoa analítica que sou, fui reparando nas evoluções das escolas, performances, artistas, mas algo se mantinha, poucas mulheres negras. Sempre pensei, porque será?
Ao abrir o meu estúdio esse foi um dos objectivos, tentar atrair um público mais diversificado, no entanto e por mais que, seja contactada por muitas mulheres africanas, e algumas venham experimentar as aulas, não é dada continuidade à prática, ou nem sequer aparecem…
Ok. Conheço a minha raiz, as pressões sociais e culturais as mentalidades e afins. E pensei porque não debater isto com outras mulheres de outros países ou descendências africanas e debatermos sobre “coisas difíceis de falar.”
Vida profissional, as dificuldades do dia a dia, as nossas experiências e com esta troca de conhecimento nasceu muita informação preciosa, que nos  permitiu entender melhor o porquê da nossa pouca adesão às artes da dança no geral. O Pole Dance é o meu terreno de conhecimento, mas no entanto o objectivo foi juntar profissionais ou gostos pelas mais diversas modalidades e criar uma troca enriquecedora de conhecimento.
A dança foi onde tudo culminou!

Afirmas que ainda se vê poucas mulheres representadas no pole dance. Porque é que achas que isso acontece?

Não! Graças a Deus a adesão ao Pole dance tem vindo a aumentar bastante!
Como que está na moda. É excelente. Ainda existem alguns receios mas nada que o tempo nao mude, eu acredito! :)

Nesta linha de pensamento achas que essa é também uma realidade para a sociedade em geral?

Acredito que cada vez mais existem mulheres em cargos de elevada importância, à frente de empresas internacionais. Já chegamos ao cargo de presidência da República no caso do Brasil, quero ser optimista e dizer que temos um bom caminho pela frente. No entanto ainda temos muitos entraves a nível profissional: a idade, a maternidade e afins parecem perseguir-nos aquando do alcance da igualdade que tanto ansiamos. Muitas vezes penso mesmo que as mulheres que são bem sucedidas são empreendedoras e criaram o seu próprio caminho. O que acha?

De que forma achas que essa realidade podia ser mudada?

Esta é a pergunta de um milhão de dólares. É aí que queremos chegar.
Voltando para o caso da mulher africana que é de característica já por si muito vistosa, nem sempre esta se permite ou conhecer o seu verdadeiro sensual/sexual e arrisco-me a dizer profissional. Penso que o mais importante, é perceber que não é errado buscarmos conhecimento do nosso ser por completo enquanto Mulheres, do nosso lado íntimo, gostos, preferências, para atingirmos um estado de auto confiança/ auto segurança, enquanto mulheres empoderadas.
Isto é válido para todas as Mulheres independente de idade, raça e ou cultura!
O empoderamento é o passo que nos falta para mudarmos o mundo.

A pensar que a tua escola e iniciativa como uma forma de congregar mulheres e mulheres negras e também homens, como e onde é que as pessoas te podem encontrar?

Facebook: Brown Suggar
Facebook da escola: Brown sugar art ‘n’ studio; do projecto: Pole Dance & African Culture

Contactos:

Email: geral_bsugar@outlook.pt
Telefome: 916287368

 

Créditos da foto de destaque:

Fotografia de Joana Barbino
Tema: caos urbano
Representa a possibilidade de existir calma, paz e beleza através da dança (Pole Dance), numa altura em que só se fala em caos: crise preconceito, dificuldades e dinheiro.
Modelo: Miss Brown Suggar (nome de palco)
Cátia Silva

Queering style

Queering style

O queeringstyle é um espaço queer feminista, que tem como missão a visibilidade de discursos, de identidades variadas para que pessoas possam falar de si, estar e ocupar espaço.
Queering style

Artigos recentes por Queering style (ver todos)