Entrevista: Daniel Lourenço
31/08/2017
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Daniel Lourenço é um investigador e escritor que vive e trabalha em Lisboa. Tem um mestrado em Sexual Dissidence in Literature and Culture pela Universidade de Sussex. É doutorando na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde trabalha sobre questões de afectividade e relacionalidade na obra de autoras experimentais contemporâneas (nomeadamente, Monique Wittig e Kathy Acker). Os seus interesses incluem os estudos literários e a crítica cultural, produções teóricas queer e feministas, e teorias críticas da corporalidade e da afectividade. É o autor dos panfletos de poesia “Lábio/Abril” (Traveller, 2015) e “fox, closet & fist” (Winter Olympics, 2017). Foi um dxs membrxs fundadorxs do colectivo activista transqueerfeminista Lóbula.

Como te identificas? 

Em termos das forças que me atravessam a vida de formas mais densas e particularizantes, identifico-me enquanto queer (ou mais propriamente, enquanto paneleiro radicalizado), e enquanto doente mental crónico (no sentido clínico) e/ou enquanto louco (no sentido político). Em termos das práticas que me sustentam e que permito que me definam, identifico-me enquanto poeta, enquanto investigador, enquanto escritor… E depois, há ainda as múltiplas coordenadas identitárias que o privilégio identitário, económico e político tende a invisibilizar, a tirar de cena, mas que creio que, no contexto de práticas críticas anti-opressão, temos de demarcar e debater insistentemente e sistematicamente: sou um rapaz cisgénero, branco, Europeu, de classe média, a trabalhar na academia… e isto para indexar só alguns dos vários lugares de diferenciação e vantagem que estruturam a minha vida.

 

Quando começaste a ter interesse por questões queer? Porquê? 

Por acaso perceber-me enquanto não-hetero e entrar em contacto com discursos identitários e político de linha queer foram processos  praticamente coincidentes na minha vida. Por volta dos 15, 16 anos assumi-me à minha mãe e a um par de amigxs e ao mesmo tempo (ou pouco antes, ou pouco depois), à pala de uma banda desenhada que adorava (“The Invisibles”, do Grant Morrison), fui parar a um fórum online, uma pequena comunidade de malta predominantemente queer, feminista, politicamente radicalizada, muitxs delxs artistas ou académicxs… Uma espécie de ninho ideológico e afectivo no meio da internet, e isto antes da grande explosão das redes sociais como hoje as experienciamos (estamos a falar de, não sei, 2005?). Foi um mecanismo fundamental de resistência a várias formas de isolamento, e um espaço frutífero para desaprender e aprender muita coisa, de maneira a articular-me, pensar-me e viver-me de outros modos, quer em termos políticos, quer em termos pessoais.

 

Como é que as questões de género se tornam o teu foco a nível académico? Fala-me um pouco em que consistiu o teu mestrado e agora o teu Doutoramento? 

Já desde o início da minha licenciatura que trabalhava em torno de questões de género e sexualidade sempre que tinha a oportunidade. Isto na FLUL (Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa), um espaço ainda hoje pouco generoso para com intervenções críticas de cariz mais inequivocamente politizado. E o meu mestrado foi a oportunidade de finalmente articular estas preocupações em pleno, sem hesitação. Fiz um programa em estudos queer, com ênfase na representação literária, artística e mediática, na Universidade de Sussex. Trabalhei principalmente em torno de teorias feministas do conhecimento e práticas autobiográficas por parte de académicxs LGBTQ+. Agora, no doutoramento, estou a trabalhar em torno de literatura experimental de autoria feminina, e de duas autoras em particular, Monique Wittig e Kathy Acker. Interessa-me como é que os trabalhos respectivos das duas autoras, no modo como reconfiguram o romance contemporâneo, desenham outras possibilidades para os afectos e relações, em oposição à normatividade cisheteropatriarcal. Penso que são imaginários literários que abrem possibilidades éticas e poéticas bem potentes e entusiasmantes, e não digo só teoricamente, mas mesmo propriamente em termos emotivos e experienciais.

 

Sei que a poesia e a prática poética são importantes para ti. Tens autorxs favoritxs? Ou que digas, estxs são fulcrais para mim?   

Há uma nuvem dispersa de autorxs que foram e são importantes para mim, que têm vindo surgindo de diferentes modos, com diferentes extensões e intensidades… Acho que se alguma coisa xs atravessa e xs conjuga em comum, é o facto de terem tremendas capacidades de desarticulação: de disrupção do que é suposto ser uma narrativa, uma imagem, uma linguagem, uma lógica… Atraem-me muito, de formas muito intuitivas e afectivas, quase corporais, trabalhos que criam ruído contra as regras socialmente generalizadas e normalizadas do que a linguagem pode e deve fazer. Tendo de especificar alguém, falaria em Wittig e Acker novamente, em David Wojnarowicz, em Virginia Woolf, em Maria Gabriela Llansol, em Arthur Rimbaud, em Clarice Lispector… E talvez menos obviamente, citaria também autorxs teóricxs que marcam ainda hoje muito do que faço poeticamente: Roland Barthes, Gilles Deleuze, Félix Guattari, Hélène Cixous…

 

Entretanto publicaste o Lábio/Abril. Conta-me um pouco deste processo e de que fala este teu livro.

O Lábio/Abril era uma tentativa minha de lidar com as minhas frustrações e raivas e sentido de perda, ou de impossibilidade, relativamente a uma certa dimensão da história de resistência política portuguesa. Queria pensar, não criticamente mas sim poeticamente, como o 25 de Abril potenciou diversos mecanismos de emancipação e auto-determinação, sim, mas como, em simultâneo, parece que a esquerda portuguesa está perpetuamente presa num bloqueio estrutural no que toca ao avanço de um imaginário político radical queer e feminista. E decidi lidar com isso por via da criação destas figuras, destas espécies de fantasmas históricos (uma prostituta, um soldado não-hetero)… O texto originalmente foi escrito de forma muito apressada para ser uma espécie de guião, a base textual para uma série de vídeo-poemas. A proposta era filmar estes poucos, longos poemas a serem lidos em diferentes circunstâncias. Depois percebi que fazia sentido para mim dar forma material ao texto só por si, e calhou por volta dessa altura conhecer um editor independente, o Tiago Costa, que cuidou muito bem o projecto. Foi impecável. E continuo a ter muito carinho a esse livro, ao que foi para mim.

 

Conhecemos-nos em contexto de atividades do coletivo Lóbula, em que eu acabei por participar. De que forma o ativismo pelas liberdades sexuais e identitárias é importante para ti e no contexto atual? 

O meu engajamento em activismo LGBTQ+ em Lisboa foi sempre esporádico e nos termos que me faziam mais sentido. A Lóbula, por exemplo, consistia num projecto que todxs reconhecíamos como sendo de base política, mas que encontrava expressão por via de uma programação cultural de pequena escala, tentando criar estes espaços provisórios, temporários, de partilha e conforto e elaboração conjunta. E acho que fizemos algumas coisas boas e bonitas. Mas admito que atingi um ponto de desilusão e saturação com o activismo, ou especificamente, com o activismo LGBTQ+ em Lisboa. Por um lado, porque não há no contexto dos circuitos activistas portugueses que conheci um reconhecimento sério e cuidadoso das implicações subjectivas e emocionais de ter uma prática de intervenção política sustentada e colaborativa. O trabalho político no campo LGBTQ+ implica processos custosos, duros, demorados, dolorosos… e não acho que haja, pelo menos não ainda, uma gramática partilhada de como articular, escutar e trabalhar as implicações pessoais bastante densas de tudo isso. Depois, há uma nítida fragmentação entre colectivos, com certas forças no panorama activista português a muito evidentemente e muito violentamente capitalizarem sobre o trabalho político de outras para se projectarem enquanto dominantes e acumularem o máximo de recursos e visibilidade. No processo as possibilidades de interrogação e intervenção mais radicalizadas, aprofundadas e sistemáticas são suprimidas por uma agenda liberal, normalizada e normalizante, assimilacionista. É muito triste. Posto isto, acho completamente vital que se mantenham as práticas de resistência elaboradas por via do activismo, e nutro carinho, respeito e orgulho por todas as pessoas que conheço que assumem esse papel, talvez precisamente por ter uma impressão sólida dos custos reais disso aqui e agora.

 

De que forma é que conjugas o ativismo e a tua identidade ao mesmo tempo que tens a tua vida público/privada? Quais as maiores dificuldades que sentes no ativismo?

De certa forma a forma como conjugo o tipo de intervenção política que antes articulava pelo meio do activismo é reconfigurando as minhas práticas quotidianamente, de maneira a que nelas se inscrevam os meus quadros de valores e afectos de forma contundente, bonita, e exigente. E refiro-me a práticas no sentido mais abrangente possível, desde a academia, à poesia, ao plano inter-subjectivo, e por aí fora. É uma questão de pensar na minha (na nossa?) vida afectiva e experiencial, encorpada e na primeira pessoa, enquanto campo de significados e forças políticas, quer minúsculas quer massivas, e de encontrar as respostas individuais e colectivas para como responder a essa situação. E não quero com isto remeter para uma espécie de primazia do indivíduo, em que definimos tudo em termos tão subjectivistas e individualistas que basta cada umx de nós pensar-se e expressar-se na sua vida privada. Trata-se, antes, de equacionar e negociar de formas crescentemente complexas e sensíveis as travessias difíceis que todxs temos de fazer entre o privado e o público, entre a intimidade e a sociedade – sabendo que uma das grandes lições das teorias e políticas queer, e do feminismo antes delas, é que estas oposições são mais instáveis do que parece. Posto isto, diria que a maior dificuldade que sinto no que toca à expressão de uma prática política coerente é impedir-me de cair ou no erro de um individualismo atomístico em que só significa politicamente o que eu quero e sou, ou no erro de uma espécie de lógica da generalidade abstracta em que se tira da cena política as subjectividades e as afectividades. Potencializar formas de pensamento e prática entre o micro- e o macro-: penso que esse continua a ser um desafio-chave…

 

Sei que vais fazer uma série de workshops assim como já fizeste outros no passado para discutir questões queer, gostava de saber um pouco mais sobre, em que consistem e o que é preciso fazer para quem se quiser inscrever. 

Realizei mais cedo este ano um workshop sobre pensamento crítico queer na Rua das Gaivotas 6. Foi uma espécie de pequena experiência em como produzir uma situação pedagógica em torno de alguns dos programas e princípios fundamentais das políticas queer, sem necessariamente ficar preso no léxico da teoria queer academicamente codificada e cronologicamente organizada. Por isso tentei saltitar entre referências do activismo, como o manifesto Queer Nation, e referências artísticas, como a Julianna Huxtable ou a MC Linn da Quebrada, e ainda algumas referências propriamente teóricas… e por aí fora. Basicamente, tentei traçar um percurso não-linear por formas de pensamento crítico queer, que não a estrita lealdade ao arquivo bibliográfico da academia norte-americana. O que proponho agora, entre Setembro e Dezembro, é a cada primeiro sábado do mês dinamizar um encontro em torno da representação enquanto problema político. Digo “representação” num sentido alargado, derivado dos estudos culturais: refiro-me a sistemas de comunicação, descrição, expressão e produção de sentido desde a arte, aos media, aos conhecimentos ditos científicos, aos discursos do quotidiano… Em cada sessão trago um problema-chave, instanciado por alguns objectos específicos para reflexão (como um poema, ou um artigo jornalístico) e daí quero gerar um espaço especulativo, crítico e colaborativo, em que interroguemos de formas etica e politicamente responsáveis as formas de violência e opressão que são reproduzidas por estes sistemas de representação, passando por questões como o arquivo histórico queer, a visibilidade negra, a relação entre identidade e abstracção artística… E no fim desafio xs participantes a um breve exercício de escrita criativa que de certo modo sintetiza os conteúdos da sessão. A inscrição é feita por e-mail, com uma breve nota de apresentação.

2 de Setembro: Workshop "Representação e Poder"

A informação necessária está na página de evento no Facebook.

Assim só para nos deixares com água na boca e para quem não sabe o que é queer, como é que defines queer?

Uma pergunta que surge sempre, e uma pergunta sempre difícil de responder. Acho que antes de mais queer é uma multiplicidade, incluindo uma multiplicidade de definições e possibilidades. Mas dentro disso, e porque quero resistir a um discurso demasiado generalista e impreciso, acho que posso sinalizar o que penso que queer não é. E o que queer não é, ou o que eu creio firmemente que queer não é, é a norma, o neutro, a regra, o código, o hábito, o senso-comum, o dado adquirido. Se definir queer como algo em particular, defino-o como um momento ou prática de disrupção, até mesmo de crise, em que se rebenta com o que está socialmente instituído como a narrativa ou o sentido certo do que um corpo pode, do que um corpo deve e do que um corpo quer – especialmente, se bem que nunca exclusivamente, em termos de género e sexualidade. E na medida em que é uma crise, é também uma oportunidade: a abertura, tentativa e experimental, de uma outra possibilidade de sentir, estar e fazer.

Queering style

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O queeringstyle é um espaço queer feminista, que tem como missão a visibilidade de discursos, de identidades variadas para que pessoas possam falar de si, estar e ocupar espaço.
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