Ensinar Português – A minha experiência pessoal
07/04/2016
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A vulnerabilidade que acompanha a mudança para uma nova realidade é só por si um acto de coragem.

Há transições interiores e exteriores e um mundo entre elas, e nenhuma é fácil.

Mudar de um sítio para o outro implica levar alguma bagagem, seja ela física ou emocional.

Podemos escolher levar muita bagagem, ou ir leves, mas o desejo de não ter nada, qualquer coisa e muito, são escolhas por vezes difíceis. Antes de faze-las é bom ter consciência das razões porque pensamos que no outro sitio é melhor do que no sítio onde nos encontramos.

O sonho de uma nova vida poderá ser uma utopia distante quando confrontado com a vida quotidiana, que nos surpreende pela positiva ou negativa.

Aprendermos a aceitar poderá ser um bom caminho para ultrapassar as mudanças.

Portugal apresenta algumas dificuldades, sejam elas culturais, sociais, linguísticas, ou outras e é aconselhável estar preparado quanto antes.

 

Comunicar em português

A língua portuguesa é difícil e aprendê-la requer perseverança, dedicação e vontade de comunicar, como com qualquer outra língua.

A comunicação é um acto de livre vontade e a forma como se aborda uma pessoa influencia como essa vai responder e reagir.

Ao princípio pode parecer uma tarefa impossível mas com o tempo, a confiança cresce.

Acredito que o esforço de comunicação que uma pessoa faz é reconhecido quando é genuíno.

Investir nas relações com os locais pode parecer uma tarefa árdua, mas é uma forma eficaz para uma boa integração, que só com o tempo se alcança.

Aconselho os meus alunos a ouvir rádio, ler jornais e revistas, pôr nas paredes palavras e frases úteis para a vida quotidiana, a mergulhar na língua e a encontrarem em cada situação uma oportunidade para escutar e falar, seja muito ou pouco.

Todos temos o nosso passado sobre aprendizagem de línguas estrangeiras e a da nossa própria língua na escola.

As dúvidas, o medo de errar, ou o julgamento que não sabemos algo que achamos que devíamos saber, são por vezes constrangedores.

É importante não desistir e dar valor ao que já se alcançou.

 

Como eu comecei a mudar a minha vida

Em 2010 comecei a interessar-me e a aprender mais sobre permacultura, passado poucos meses disse adeus ao meu emprego e decidi partir para uma nova aventura.
Mudei-me para as montanhas no centro de Portugal, onde o ensino doméstico era o projecto em comum naquela comunidade aberta.

Cada família tinha o seu terreno e todos estavam a construir as suas casas ao mesmo tempo.

Organizámos feiras e várias actividades em conjunto.
Quando a necessidade de trabalhar foi de encontro à necessidade de uma comunidade.

Ganhei fluidez no inglês e decidi começar a dar aulas em 2012 para a comunidade estrangeira onde vivia, em Góis.

A minha necessidade de trabalhar e o gosto em dar aulas foi de encontro à necessidade da comunidade em aprender português.

Uma oportunidade não desperdiçada.

As dificuldades de comunicação durante as reuniões, e a necessidade de falar uma só língua eram sentidas por todos.

Fiquei sensibilizada também para as dificuldades que tinham em comunicar com os locais na vida quotidiana, em ir às compras, na aquisição de terrenos, obter informações, etc.

O fosso entre os estrangeiros e a comunidade local pode ser bastante grande e assustadora para os dois lados.

O meu contributo poderia ir de encontro a uma necessidade na minha aldeia, e percebi o que podia oferecer à comunidade onde vivia.

Quando voltei para Cascais, donde sou natural, continuei a apoiar o processo de aprendizagem da língua e integração de novos e antigos alunos.

Aulas pelo skype foi a melhor forma encontrada.

Gostei muito da experiência e motivei-me a continuar.

Hoje em dia também dou aulas de português a estrangeiros que querem vir viver para Portugal e optam por aprender a língua antes de se mudarem.

Na minha opinião este é um caminho a seguir, porque num país em que por vezes é difícil viver e fazer as coisas andarem para a frente, não falar português só agrava a situação.

 

Ensinar português

Mais do que saber sobre a gramática, ensinar português, é um acto de se pôr no lugar do outro e estar atento às vulnerabilidades, medos, dúvidas, dificuldades, interesses e motivações que cada pessoa apresenta.

É estar receptivo a tudo isto e encontrar uma forma de ultrapassar as dificuldades que cada um coloca quando aprende uma nova língua.

Muitas vezes também me surgem dúvidas quando ensino, e isso faz com que queira aprender mais sobre a língua e tento ensinar cada vez melhor, com que me ensinam também.

E não é isso que fazemos? Ensinamos para aprender o que queremos saber?

Para além da língua fico feliz por partilhar o que sei sobre a história, a cultura e os costumes portugueses.

O que me distingue dos outros professores são as experiências similares que tive com os meus alunos, principalmente os que vivem fora das grandes cidades. Como vivi na Grécia e em França conheço também de perto as dificuldades de querer falar outra língua, sem ser o Inglês.

Não tenho estudos superiores em ensino da língua portuguesa mas as experiências que acumulei na vida trouxeram-me até este ponto onde quero aprender mais sobre a minha língua materna e sinto que posso trazer uma contribuição positiva, chegando até aos que precisam de aprender português e que não tem possibilidade, por viverem fora dos grandes centros urbanos ou por outro motivo.
As aulas:

Sou muito flexível nos horários das aulas e há um acompanhamento personalizado das diferentes necessidades ao longo do tempo.

 

Quem vem às minhas aulas?

São pessoas que se identificam com o método e apoiam os sistemas não convencionais de ensino.

Tudo é feito à escala pessoal, é um processo de aprendizagem mútua, de entreajuda e companheirismo.

O que me distingue dos outros professores são as experiências similares que tive com os meus alunos, principalmente os que tem modos de vida alternativos.

As pessoas a quem dou aulas estão despertas para novos modos de vida o que ajuda na comunicação. Há um modo de viver e ensinar muito próprio ao qual os meus alunos se identificam bastante, penso eu.

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