confessional panasca
20/01/2016
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as lacerações do larilas

na sexta-feira passada bate a ressaca duma raiva; nem sei porquê mas vem-me o seu reverso. se no dia anterior revejo notas de uma história queer e vem-me plenitude e qualquer coisa como um poder, no dia seguinte isto inverte-se, vira exaustão e impotência. tempo não-solicitado é dado aos meus haveres e afazeres com a dor, versus qualquer coisa como a resistência ou riso ou lata ou boca ou coragem que lhe costumam consolidar um contra-ponto. falha-me a força ou falho eu à força; volta à pele a memória muda de milhares de pequenos picares agora articulados totais num rasgão de um dia só. a minha equivalência psiquiátrica: apanho-me como quando momentaneamente submedicado: secreta e infimamente devastado: acidente cutâneo discreto e expansivo. materializam-se todas estas lacerações curtas e constantes infligidas sobre um sentido melhor das coisas, um sentido não tanto tido por dado como arrancado à força dos dias e contra todo o poder e probabilidade e na sombra do ser-pessoa composto pelo poder. acho que é isso: é de repente e sem saber dizer porquê, anos e anos depois, sentir-me a perder o meu território de volta ao poder e à probabilidade.

então nem a boa bicha nem as raivas rosa subsistem: rasga-se a espiral de raiva num dobrar de dores e perdas, suspendidas as minhas paciências recuperativas e deveres pedagógicos por um dia que seja: canta e mal a linha de falha e a crise constelada: áu, foda-se & áu, fodam-se. isto é sentir o imperativo de um “fodam-se”, mas mais especificamente quando o mesmo colapsa sobre si próprio por não sobreviver com potência suficiente a atribuição ao outro de um erro que é seu; isto é a raiva colapsar para dentro e em tristeza, transformar-se e corroer. sei, repete-se muito esta palavra aqui; a raiva tem-me vindo e ido, íntima e pública; ela é um facto político importante. um privilégio hetero: preservar uma fenomenologia da raiva enquanto afecto particular e privado. falhando-me a raiva, este texto fala outra coisa qualquer, como uma perda rosa ou o traçar de uma coisa difícil e urgente de se deixar ter em voz de rapaz: uma vulnerabilidade.

 

contando cortes

é natural que nos falhe a contabilização dos cortes sofridos. temo que saibamos com subtileza a mais o que a maioria suprime: que há num dia e numa noite um cosmos inteiro de violência política, um fazer-poder expresso em efeitos oblíquos e laterais e toda uma múltipla malha de silêncios (repitamos Santo Foucault: “não há um mas muitos silêncios, e eles são uma parte integral das estratégias que sustentam e permeiam os discursos”i. ámen). exemplo-chave da eficácia política de um silêncio: o de um olhar que fala discriminações e distâncias inteiras, que reconstrói completamente o espaço e a respiração, sem nunca se submeter a ser indexável, captável e quantificável. forma gasosa da opressão; circulações aéreas a roçar a pele – corte, corte, corte –, sem visibilidade e sem que se possa dizer “foi esta a palavra”. sensação estranha: quase gratidão quando deparando-me com uma instância explícita e plena e luminosa da opressão: ei-lo, eis o poder a somatizar-se (numa frase, numa pessoa, num acto, numa lei), momentaneamente apenas, mas inteligível o suficiente para que eu lhe aponte o dedo, para que eu aperte a mão em torno da forma contorcida de um ódio, para que digamos juntas que apanhámos solto um estilhaço dos ódios que populam as nossas vidas, claro e cristalino por um instante passageiro que seja. porque de resto é difícil dar número e nome a dores mais obtusas e opacas, e o silêncio resiste à narrativização; pelo menos não sei eu encontrar jeito de contar-vos um acto calado que não fazendo poema (e vou tentando). sim, acho que boa parte da memória colectiva e trabalho de luto que nos falta (muito) fazer passa por qualquer coisa na vizinhança dum poema; há momentos em que assim se faz mais do que o que qualquer voz demonstrativa e explicativa consiga produzir. às vezes não me vêm poemas; sexta fiquei só muito cansado do que acontece pela calada e muito magoado com o que acontece bem sonoro.

pegando em alguns picares mais sonoros, algumas pequenas rupturas: umas quantas vozes privilegiadas palram: a) que justifica o pejorativo bicha enquanto aplicável a certos paneleiros ilegítimos porque maus e moças demais (“ e olha que eu tenho amigos gays!”); b) que concorda e reforça (“e olha que eu tenho amigos gays também!”); c) que hesita quanto à adopção por casais do mesmo sexo (“pensemos nas crianças…”); d) que se refere a mim como “paneleiro”, a uma minha amiga trans como “um homem” (“foda-se, tem mais barba que eu!”) e a e) (hetero) como “sapatona” ou “camiona”; e) que por sua vez se ri e prolonga a piada até à frente de fufas (“que é que queres, sou brincalhona!”); f) que me diz risonho que a diarreia de dia x é de eu levar no cú; g) que alegremente policia a extravagância de género de uma qualquer personalidade públicaii (“porque é que esta gente quer ser algo que não é?”); h) que me aponta como sou sensível e exagerado demais quanto a tudo isto; i) ou j) ou mais que já não ultrapassam certas linhas motivados não pela compreensão de um problema mas sim pelo medo de uma reacção (e talvez isso seja melhor que a alternativa?) e k) ou l) ou mais que nunca me defenderam nem defenderão disto e de pior. m) é a excepção maior e bem querida; pudera, ele próprio ter sido há par de anos tomado por bicha e por isso vítima de uma ameaça clara de violência física teve o efeito pedagógico esperado. esclarecimento: escolho um círculo específico num período de seis meses para não me esgotar na exaustão de uma lista e fico-me pelo comum e explícito; um conjunto de desconfortos quotidianos mais óbvios. mas é tão absurda esta e qualquer lista: como se eu tivesse memória para tudo; como se eu conseguisse convincentemente fechar os critérios de inclusão: familiares contam? colegas contam? conhecidos contam? estranhos contam? olhares contam? risos contam? esgares contam? sorrisos contam? silêncios contam? é claro que contam. mas sei lá eu num texto só indexar a memória do meu corpo inteiro.

 

as coordenadas do costume

contexto: depois de um ano no reino unido (em brighton: oásis bicha e freak; espaço seguro) que me sarou várias alienações sofridas à pala de hetero- e psico- e outras normatividades, vi-me de volta num espaço que me vinca a diferença no corpo ao ponto do violento. tive (estou a ter?) uma adolescência tardia; era suposto viver uma série de narrativas-chave limpas e normativas (forma aquele grupo de amigos aos x; embebeda-te aos y; fode aos z; e por aí fora) e eu fui falhando por tropeções ou de tímido ou de paneleiro ou de ango-depressivo ou de sei lá o quê que não tenha um nome e causa-efeito tão transparentes. só aos 20 e tal fui conseguindo num movimento para fora ir safando uma pertença e podendo fazer qualquer coisa mais de mim e dos outros; fez-se tudo no expandir de arcos além deste espaço e negando este espaço e em tudo o que claramente se e me distanciasse deste espaço. cheguei aos 24 e apanhei-me em brighton para um mestrado em estudos queer e os encaixes todos de paneleiro e leitor e poeta e doente mental e mais fizeram-se de uma vez: que bom e bonito, pertença e construção e prazer; tive um ano muito contente, sim. depois apanho-me de volta nos subúrbios em Cascais: chavão adolescente bem vivo: “detesto este sítio”. por aqui desfazem-se boa parte das pertenças, boa parte dos prazeres. por aqui tenho 16 anos outra vez, no pior sentido possíveliii.

gostava de vir dizer que urge refinar os estereótipos que temos quanto à geografia sexual de um subúrbio, mas não me cheira: sim, vive-se o previsível. claro que as linhas se cruzam de maneiras mais complicadas do que parece e constituem-se geometrias mais delicadas do que a história traça e do que os heteros em particular tendem a perceber; já sabemos que a nossa estória é muito feita de encontros esporádicos e colectividades precárias que aparecem às tantas da noite ou por uns minutos num comboio e em qualquer extremo da improbabilidade fomo-nos sempre mais ou menos encontrando onde pudéssemos. a net sobrepõe-se e reescreve a geografia da partilha sexual e social; os seus fluxos são outros e os seus limites menores, as suas conexões inscrevem outros pontos de contacto no espaço real e enriquecem as malhas da comunidade; potenciam e intensificam as nossas (frágeis) pertenças. de resto as circulações com a capital também me vão recompondo espaços; felizmente vai-se ao centro e volta-se às margens com outra gente e novo estar. menos mal e melhor que há dez anos, é certo. mas o código simbólico e materialidade concreta deste sítio estão há muito tempo muito bem definidos: mais o lar do que a rua, mais o privado do que o público, mais o velho do que o jovem, mais o conservador do que o experimental, mais o dia do que a noite, mais a família do que o colectivo, mais o dormir do que o fazer, mais a direita do que a esquerda – mais o mono do que o multi, mais o hetero do que o outro. não é que faltem espaços queer (é claro que faltam espaços queer), é mais que só a inocência ou a ignorância não vêem a clara orientação heterossexual deste e quase todo o espaço. traço não sei quantas trajectórias por aqui que dão em pouco e volto sempre ao mesmo: ironicamente, em casa é que se está bem, em casa é que se está bicha. isso à parte restam as bocas e risos de carros a passar repletos de jovens machos em altas; a total invisibilidade de malta LGBT; as expressões incomodadas quanto a um momento de contacto; as conversas da mesa ao lado sobre as esotéricas escolhas sexuais dessas minorias; as unhas pintadas a suscitarem na pior das hipóteses olhares de nojo, algures no meio um choque articulado (“…tem mesmo as unhas pintadas?”) e na melhor das hipóteses um pedido de explicação (“desculpe-me, mas… porquê?”)iv. tenho de sair daqui, rápido.

 

xaval isso é bué x

ora bem, às vezes é preciso insistir no conjunto dos termos do poder a favor da sua evidência enquanto uma violência sistemática, como que acreditando ainda que listar tudo e tudo deixar visível espicaça a uma aprendizagem sobre o mal do despoletar contínuo dum corte em mil outros e a uma consciência do disparar de todos os ataques num só. diz assim comigo: paneleiro bicha fufa larilas panuca maricas sapatona abichanado panasca camiona rabeta panilas cotonete (olá bis!, olá ódios versáteis!) traveca (olá trans*!, olá ódios inclusivos!) veado boiola (olá Brasil!, olá ódios internacionais!). e que todos estes termos valham não só pelo seu uso específico mas também como símbolos sintomáticos dos milhares de fragmentos (falados e calados) que compõem a violência diária contra nós que sejam de taxonomia menos fácil e imediata. mas uma estória em particular dá-me vontade de riso ou raiva ou de nem uma coisa nem outra quando atingida uma impotência. e sexta só resta a sensação de rasgão sem remendo. estou a falar da trajectória de um termo particularmente contestado e recomposto: é a estória de noutros territórios “gay” ter dado nome a andanças nossas e de putas (aprox. século XIX), virando depois nome para uma alegria (aprox. inícios do século XX), a alegria depois expandindo as suas tonalidades para nos traçar a nós com um sorriso sabedor (aprox. meados do século XXv) e aí alguém diz: pois claro, eis-me isso mesmo, seja: rouba-se e repara-se o termo. consegue-se: faz-se a luta sempre lenta de um sentido e ganha-se finalmente a palavra ao ponto de ser nome. e às vezes urge ter nome. mas sexta, dois séculos depois, nem resta um nome.

isto porque eis que hoje em dia o talento excepcionalmente imaginativo dos nossos opressores faz com que se refaça a palavra para romper com o nosso ser outra vez: “gay”, o nome mais neutro que conseguimos, passa uma percentagem significativa do seu tempo e sentido em sinonímia com “estúpido”, “lamechas”, “débil”, “efeminado”, “sentimental”, “extravagante”, “piroso” e “afectado”. mas atenção, que não nos alertemos: explicam-nos que tudo isto se desagregou do sentido específico de “homossexual”; se se revisita no processo o código inteiro da estereotipia da homossexualidade masculina, que não nos preocupemos: a palavra nesse contexto já nem sequer significa “homossexual”, de todo. quem efectua essa desagregação, com que direito e com que prazer, por quem e para quem, e como que caralho é que é suposto agradecermos esse esclarecimento no momento em que de novo nos roubam nome e o redireccionam para as suas múltiplas demonstrações de asco e discriminação a tudo o que consideram feio, risível e fraco nos outros? quem nos assume bem o suficiente para perdermos um dos poucos nomes que nos resta? mas calma, eles são nossos aliados: o mérito particular de todos os hetero-cretinos que conhecemos é que hoje em dia arranjaram amigos gays e vêm nisso legitimados os seus abusos. quero saber quem-caralho são estes idiotas destes amigos e se eles existem de todo quero mandá-los todos à merda. neste contexto, se pararmos e dissermos que há determinados dias (sextas-feiras e que mais) em que nem um nome nos resta, não estamos a ser metaforicamente teatrais; estamos isso sim a indexar uma das nossas mais recentes pequenas perdas no plano simbólico. é impressionante: quantos passos dados para a frente, quantas coisas conseguidas, para num gesto simultâneo (como que compensador, como que repondo parcialmente uma ordem) virarem mais uma vez, mais uma de tantas vezes, a linguagem contra nós. e é assim que a linguagem circula por aqui: nem um nome se protege nesta porra de sítio; nem um nome me protege nesta porra de sítio.

 

ontem choveu bastante

“xaval, tu és bueda gay”. hmmm. certo. tenho andado a remoer isto tudo, triste. tenho andado preso em rimas de sexta através dos quatro dias que passaram desde então. na noite de sexta um moço doce fez-me um favor: contou-me a estória: “sentiste-te sozinho e depois magoado e depois irritado e depois zangado e depois sozinho outra vez”: contou-me a estória clara o suficiente para ela me bater ou fazer chorar e eu agradeço. desde então tem-me ressoado essa claridade pelos dias e tenho tentado apressar-me a anotar em rascunhos no telemóvel qualquer coisa a começar a dizer a favor de uma catarse ou comunicação; um confessional panasca, uma recuperação. tentar narrar e nomearvi, tão bem quanto eu consiga ou queira. tenho andado a limpar linhas, a separar o necessário; a repetir a partição do meu território; a empurrar para fora partes feias, certas pressões e pessoas; a esclarecer um espaço quebrado tão bem quanto possa. tenho andado a virar de novo a perda noutra coisa qualquer, noutras várias coisas quaisquer; coisas bonitas ou úteis – como a raiva, ou este texto. tenho andado a recompor coordenadas e a remendar cortes, mais uma vez.

ontem vi-me à frente da minha escola – a escola onde fui explicitamente pressionado a assumir-me como o homossexual que os sorrisos sabedores e sarcásticos à minha volta já me assumiam; onde tive direito a uma canção inteira dedicada à minha pessoa (“tenho pena de ser… amigo de boiola!”vii); onde fui tido por chorão, delicado, leitor, intelectual, interno e temperamental demais até me converter num cretino masculamente corrosivo; onde fui acompanhado durante a (infinita, foda-se, sempre infinita) fila de almoço pelo alegre jogo de “vamos dar caneladas ao paneleiro”; onde dei demasiado tempo a raparigas enquanto quase todos os rapazes me olhavam de lado; de onde fui seguido até casa pelos putos mais velhos “(“paneleiro”, canelada, “maricas”, chapada) e com a qual aprendi a fechar a porta ao chegar a casa para chorar à vontade sem que a minha mãe desse por isso – e na parede da entrada principal li graffitado em letras feias e apressadas e borradas pela chuva A HOMOFOBIA MATA. em rosa, claro que em rosa. pensei no acidente contente de um puto só que saiba agora que não só não está sozinho, como quem por aí anda está fodido dos cornos, sem calma nem contenção no discurso, e que precisa tanto quanto ele de vincar marcas nítidas neste espaço. pensei em mim próprio com o corpo corroído e com todas as forças lançadas para dentro aos 11 e aos 12 e aos 13 e etc. a ler e reler um lema quer pelo seu conteúdo quer pela sua capacidade de dizer com força que se está aqui, que se está mal aqui e que se está aqui com raiva. pensei nesse puto e eu-puto e vários putos; sei lá, pensei também em nada em particular, também em mim mesmo já não-puto ou outro tipo de puto e noutros não-putos tambémviii. às tantas da noite encharcado de chuva li o resultado de um corpo lacerar o seu território com uma simplicidade, uma chamada e um favor.

então senti recuperação e remendo, ou mesmo raiva: ontem senti-me feliz.

 


 

i “there is no binary division to be made between what one says and what one does not say; we must try to determine the different ways of not saying such things, how those who can and those who cannot speak of them are distributed, which type of discourse is authorized, or which form of discretion is required in either case. there is not one but many silences, and they are an integral part of the strategies that underlie and permeate discourses.” michel foucault em history of sexuality vol. 1, não tou agora a conseguir descobrir em que página.

ii o panorama português é pequeno o suficiente para que provavelmente não seja muito difícil adivinhar de quem se trata.

iii acho que dá para se continuar a ter até à morte dezasseis anos (parcial ou totalmente) em muitos e muito bons sentidos – ou qualquer outra idade que seja.

iv três linhas. três linhas sobre unhas. “detesto este sítio”.

v acho, acho; hei-de confirmar estas minhas aproximações de períodos e edito depois o texto se for preciso.

vi gay ou queer ou sei lá; panasca simplifica e não há equivalente com o mínimo de aliteração com “confessional”, é tão simples quanto isso.

vii senti-me muito orgulhoso quando respondi “sei lá se esse amigo sou eu!”; um gajo aos doze anos sente-se inteligente por pouco. elas adaptaram a canção; passou a “tenho pena de ser… amigo de boila!… DANIEL!”. vincavam em particular o sotaque brasileiro paródico em torno de “daniel” e às vezes faziam jazz hands.

viii e pitas e putas também. este texto varia entre um nós-neutro, um nós-feminino, e um nós-masculino. quando vem o nós-masculino não é eu querer universalizar no masculino; é muito pelo contrário eu tentar especificar-me rapaz, escrever a partir dessa posição em particular e potenciar o pessoal. fui ora especificando ora expandindo conforme necessário; espero que seja compreensível.

 

Daniel Lourenço.

Artigo original em http://lusoqueer.blogspot.pt/2013/10/confessional-panasca.html

 

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