Como viver o Natal depois de nos termos tornado ativistas?
28/12/2016
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Atravessamos dias que, quer queiramos quer não, nos remetem para as festas de Natal e fim de ano. Na rua, no trabalho, nas escolas, em grande parte das casas, as referências são incontáveis. É uma época difícil. Porque depois do feminismo, do ativismo queer, do ativismo anticapitalista e ambientalista, como sorrir à estrela de Natal que decora a janela do vizinho, ou ao cheiro a sonhos que vem da pastelaria ao lado do trabalho, e, horror dos horrores, como permitir-se trautear o Last Christmas ou o Adeste Fideles?

Assim, ano após ano, vamos partilhando uns textos irritados nas redes sociais e tendo umas discussões com as amizades mais próximas, vamos criticando o Natal por ser uma festa de cariz religioso que não respeita outras culturas, vamos criticando o capitalismo que tomou conta destas comemorações, apontando o patriarcado e a heterocisnormatividade como características inalienáveis do Natal. Enquanto isso, muitas/os de nós vamos fazendo as malas para ir visitar as famílias, sejam elas de que tipo forem, biológicas, por afinidade, grupos de amigos/as ou um pouco de tudo isso junto. Entre aquela caixa de chocolates ou garrafa de vinho que vamos comprar no último momento, vamos pensando em posts como o “Amigas feministas, recuerden que es nuestro deber arruinar las cenas familiares con nuestras opiniones. Buena suerte camaradas”, ou naquele outro que chamava velho gordo ao pai natal (porque é bué radical chamar “gordo” ou “velho” a alguém como insulto) e vamos pensando no difícil que será passar estes dias chatos, em que toda a gente está feliz, troca presentes, canta músicas e se esquece de todo o mal que acontece no mundo e do quanto somos privilegiadas/os por podermos ter estas festas. Como se o facto de nos permitirmos a alegria nos fizesse esquecer que outras/os não a têm.

Defendemos a cultura de outras/os, mas quando se trata da nossa, sentimos que se não a arrasarmos não seremos radicais o suficiente. Ai de quem se confessar religiosa/o – entre nós, pessoas super à frente, não há disso. Mas não. O Natal há muito que deixou de ser apenas uma festa cristã, para ser uma característica da cultura ocidental (sim, também temos uma). Numa cultura em que o individualismo cresce a um ritmo galopante, em que os percursos individuais ou laborais nos afastam das pessoas que amamos, famílias ou amizades, dou comigo a pensar na necessidade que temos destes dias, da desculpa do Natal para rever pessoas, da desculpa do Natal para encontrar a família que até foi um quê sexista e homofóbica, para rever as amizades que partiram e que vem passar o Natal ou a passagem de ano ou que vamos nós ver nestas datas. Ou a família nova, devido aos laços a que as relações amorosas ou de amizade nos trazem e que engrossam ainda mais os nossos afetos. E talvez alguns e algumas precisássemos destes momentos para resolver aquele atrito antigo, para ter uma discussão, sim, gritar e chorar se necessário for, para depois rir, abraçar, aceitar diferenças: sobretudo, trabalhar e aceitar as diferenças. Ou para definir que chega, que se o riso não vem, haverá que lançar raízes noutra família de afetos. Mas seja lá quem for que componha a pauta dos seres que escolhemos ter ao nosso lado nestas festas, ainda bem que as temos (as pessoas e as festas), ainda bem que há Natal e passagem de ano, e tradições que as caracterizem; ainda bem que podemos parar e vamos ter tempo para falar, para brincar e para discutir enquanto nos enchemos de chocolates, rabanadas e vinho do Porto. E para ocupar o nosso espaço e mostrar-nos como somos também.

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Ainda bem que há relações diversas, homo ou hétero, monogâmicas, não-monogâmicas, poliamorosas, poligâmicas, etc… Ainda bem que há novas famílias, monoparentais, homoparentais, poliparentais, e pessoas que não querem ter filhas/os, ainda bem que gays, lésbicas e trans têm crianças e levam a diferença, através das suas relações e das suas famílias, a estas festas de famílias e constelações alargadas. Ainda bem que há crianças capazes de passar tardes a fio a construir um calendário para dezembro (como o da imagem que ilustra este texto) em que para cada dia há um pequeno presente totalmente construído pelas suas mãos. E ainda bem que há pessoas adultas para educá-las assim. Ainda bem que há Natal para além das nossas lutas diárias. All I want for Christmas é que todas as pessoas possamos ter felizes festas, e possamos abraçar e sermos abraçadas e cantar o Last Christmas – este ano com um sabor agri-doce, marcado pela perda do icónico George Michael. E se a constelação familiar atual não permite a alegria, novas constelações se poderão e deverão construir. Assim, como na nossa infância aquela colherada de sopa que já não queríamos, não alimentava nenhuma criança com fome, também não será a nossa recusa de festa que dissipará as questões políticas a resolver onde os contextos as não permitem.

E eu, que este ano vim mais para norte e fui muito bem recebida pela constelação familiar que me trouxe a minha relação amorosa, ainda que por cá as decorações natalícias sejam ímpares, os mercados de Natal sejam uma alegria, e o vinho quente me aqueça o corpo e o afeto a alma, o que eu dava por uma fatia (ou duas) dos panetones que a minha mãe nunca se esquece de comprar nestas festas. E pelo abraço dela também. Guarda um panetone e dois abraços para os Reis, mãe!

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