Cock – uma crítica.
08/09/2017
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Portanto, pensas que vais a uma peça de teatro sobre bisexualidade. Não de uma mulher que tem um namorado há muitos anos e mesmo antes de casar encontra a mulher dos seus sonhos e deixa-a para ser lésbica. Não, Cock não é um cliché lésbico, se não, não se chamava Cock. É portanto a experiência de um homem gay que tem uma relação há 7 anos com outro homem gay e que se apaixona por uma mulher hetero que ele vê no mesmo transporte para o trabalho todos os dias.

O que o evento nos promete é:

Cock, quando o desejo nos comanda a vida.

Uma palavra. Eu. John está farto da sua relação e pede um tempo ao seu namorado, quando acidentalmente conhece uma mulher como tantas outras que se cruzam com ele a caminho do trabalho. Duas palavras. Eu e Ela. O desejo fala mais alto. Três palavras. Eu, Ela e Ele. O desejo não o larga, por ela, por ele, por se ver projetado nestas duas pessoas, a que o conhece e a que o descobre. Cheio de culpa e indecisão, acede a que a única forma de resolver o seu problema é juntar o ex-namorado e a rapariga que acabou de conhecer. Um triângulo em completa tensão, que levanta questões sobre o amor, o desejo e a identidade.

E tu pensas, espera, será que vai falar-se de poliamor. Minha nossa, isto vai valer a pena. Reservas o bilhete a pensar que nunca foste a uma peça de teatro no Instituto Superior Técnico mas bora lá.

Chegas e percebes que a peça é numa pequena sala ao fundo de um corredor. Essa sala está quente e não é aconselhável para pessoas que sofram de claustrofobia. A sala deve levar no máximo umas 35 pessoas. Estava cheia.

A peça começa com as três personagens viradas de costas, nuas, rapidamente procede para brincadeiras de luzes e dois rapazes a falar muito rápido sobre o que parece ser o fim de uma relação. E ele vai, e ele volta.

Mas é quando um deles, John, a personagem principal pede um tempo ao seu namorado e conhece uma mulher e diz que ela é masculina que a coisa descamba. Para mim deixou de ser sobre o facto de ser uma mulher hetero e não um homem gay mas sim sobre o que entendemos como quem é homem e quem é mulher. Como assim? Perguntam vocês, eu explico.

Já não bastava eu estar num espaço quente e abafado, em que consegues ver mal as pessoas que estão no palco, pensas, não, não vão fazer isto. Entendes que o rapaz está a tentar perceber se sempre gostou de homens porque raio há de gostar de mulheres femininas e a ‘brincadeira’ da masculinidade é para seu proveito, para não ter de lidar com a contrariedade desta não-homonormatividade. É então que o companheiro de John que nós nunca chegamos a saber o nome, nem o dela by the way, assume que ela é uma mulher trans e John nunca desmente. É aí que tudo desaba porque a transfobia é tão grave, o sexismo é de tal ordem que pensas, esta peça só podia ter sido escrita por um homem gay, cis e já agora só porque sim, branco.

E portanto, não, a peça não é sobre a bisexualidade de Jonh é sobre falar mal de uma mulher, sobre diminuir uma mulher trans, que nunca chegamos a saber se é ou não porque ninguém nos diz, só ouvimos o discurso transfóbico gratuito utilizado porque afinal ela é masculina ou afinal é feminina ou será trans? Acho que o mais desconfortável foram, os risos da audiência. Os risos das pessoas do público que te fazem pensar, mas será que eu sou a única pessoa que está a ouvir estas cosias e pensar que não pode ser. Será que só eu é que estou a entender isto como ofensivo, despropositado e simplesmente, errado?

Infelizmente também não é de poliamor que falamos nesta peça, é do egoísmo de um homem que não sabe de si e que leva as pessoas que o rodeiam para dentro de si mesmo, sem respeito, sem tudo e portanto, com nada.

Infelizmente não sou do tipo de pessoas que vai ver as coisas antes, ler sobre previamente porque talvez se fosse teria percebido que devia antes ter ido fazer outra coisa no que foi, uma linda noite de fim de Verão em início de Setembro.

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