Cinema: Chama-me pelo teu nome
29/01/2018
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No passado dia 18 estreou o imensamente esperado filme Chama-me Pelo Teu Nome ou, Call me by your name em Inglês.

Após o normal burburinho, as já esperadas polémicas e as ausências ou pouca permanência na maioria das salas de cinema, o filme está finalmente disponível, divulgado e acessível a todxs.

A primeira vez que ouvi falar deste filme foi, no The Ellen Degeneres Show e após ver o trailer, fiquei convencida de que tinha de ver o filme mas para isso era preciso esperar que estreasse em Portugal. Quando reparei que já estava nas salas de cinema, como é normal, tive aquele impulso de ver se por mero acaso já estaria disponível nos sites mais chamemos-lhes ‘alternativos’! Deparada com a possibilidade de simplesmente ver o filme confortavelmente sentada no meu sofá, sem gastar os tais 6 euros do cinema, veio uma lufada de bom senso. Este é um daqueles filmes para se ir ver ao cinema e a razão não é qualidade da imagem, o óptimo sistema de som, as pipocas doces e salgadas misturadas ou até o som ambiente de quem vorazmente as devora. A razão é simplesmente mostrar que este tipo de filmes, estes que ainda geram polémica, estes que ainda passam bem rápido pelas salas e não em todas, estes que se esperam sessões vazias, estes que acham que vai ser um investimento falhado.

Estes mesmo!

Estes são os filmes que devemos ver confortavelmente no cinema, mostrando assim que existe público disposto a sair do seu sofá.

E foi assim que, numa terça, pelas 23h30, saí de casa para ir ao El Corte Inglês ver “Chama-me Pelo Teu Nome”. Pouco mais sabia para além da sinopse, do trailer e do que tinha conseguido “sacar” da entrevista com a Ellen mas confesso que tinha as minhas expectativas muito muito muito lá em cima! Arrastei a moça comigo e lá fomos, ela não partilhando da mesma vontade de ir ao cinema numa terça feira às 23h30 mas, vendo-me tão saltitante, lá aceitou mantendo as expectativas mais baixas.

Falemos sobre o filme. Aviso já que é inevitável lançar um spoiler ou outro portanto considerem o aviso dado.

O filme transporta-nos a um Verão no inicio dos anos 80 que, como muitxs de nós sabemos, era uma altura do ano em que tínhamos a oportunidade de conhecer novas pessoas, os chamados amigos das férias, em que tínhamos muito mais liberdade porque normalmente íamos para as casas dos avós ou casas de férias/campo, não tínhamos telemóveis portanto o chamado “fazer nada” era algo aceite e frequente. Tínhamos mais tempo para as novas amizades, para ler sem interrupções, para pensar na vida e sobre nós mesmxs. Ainda, alguns de nós, passaram por processos de intercambio – onde a família aceitava receber um jovem de outro país durante X tempo – ou colónias de férias de onde há sempre tanto para contar. Logo aí, quem cresceu nesse ambiente e quem trás boas memórias desses anos é automaticamente transportado para o universo sensorial que o filme desperta.

Voltando ao Verão de 1983, no norte de Itália retratando uma família de classe alta, poliglota, com grandes bases na antiguidade clássica. Elio e a sua família recebem um jovem estudante que irá ajudar o pai de Elio nas suas pesquisas. Esse jovem americano, Oliver é um rapaz visivelmente mais velho que Elio, fisicamente maior e mais forte. Oliver não tem problemas em integrar-se na vila, a fazer amigos ou até a ir sozinho de bicicleta fazer as suas tarefas. No inicio do filme pode passar despercebida uma certa tensão entre os rapazes sendo confundida com desinteresse mas subtilmente vai-se começando a notar o cruzamento de olhares no corredor, o toque desnecessário numa tentativa de perceber se haverá possível interesse e de, ao mesmo tempo, enviar o tal chamado “sinal”. O que aparentam ser “picanços” entre os jovens, atritos típicos de duas pessoas que não se dão bem mas que são forçadas a partilhar espaço, depressa evolui para o crescendo de uma bonita historia de amor.

Quem nunca teve uma relação de amizade que começou assim?

Apesar de ambos os rapazes estarem curiosos em relação um ao outro, não fazem muito para forçar ou tentar uma aproximação, aliás, o processo é bastante suave, bastante simples, fluído e extremamente possível de acontecer, portanto chamo-lhe realista!

Tanto Oliver como Elio têm as suas aventuras amorosas com raparigas da vila e, na minha opinião, começa a ser uma forma de se provocarem ou provocar alguma reacção no outro podendo isso levar a uma possível aproximação. Elio, um rapaz de 17 anos no auge da puberdade, da sua descoberta sexual, tem uma libido extremamente activa e uma mente muito criativa. Acaba por estar com Marzia mais do que uma vez e até acaba por ter uma pequena aventura de autodescoberta com um alperce.

Oliver e Elio vivem uma bonita e intensa relação de “amizade ou até mais do que isso” – como o pai de Elio diz e aprova – e isso é retratado de uma forma esplêndida durante os 130 minutos de filme. Desde os pequenos avanços na sua relação, aos grandes passos típicos de uma relação intensa, de um primeiro amor, das brincadeiras e dinâmicas próprias de cada relação, algo que se vai descobrindo durante a mesma, os joguinhos de palavras que parecem vazios mas dizem tanto, tudo isso foi extremamente bem conseguido através de uma filmagem detalhada e pormenorizada, de uma imagem com uma textura magnifica, o filme transmite uma paz que, de certo modo, se deve às fantásticas paisagens e localizações, à nostalgia da época e à classe social retratada. Podemos encontrar comparações ao ideal de beleza da cultura clássica – as figuras helenísticas esculpidas sempre de forma tão sensual e com intuito de serem desejadas – com Elio, visto pelos olhos de Olvier, mas sinceramente, mesmo não indo tão fundo, o filme transmite tudo o que é necessário sem muito esforço. Não podemos deixar de mencionar a excelente prestação dos actores, em especial para Timothée Chalamet que tanto consegue transmitir nos seus silêncios.

A incrível banda sonora que acompanha o filme dando-lhe o toque poético que o mesmo pede tornando cada momento de filme simplesmente perfeito.

Este filme conseguiu fazer com que eu me esquecesse que estava no cinema, transportou-me para dentro do écran, vivi intensamente lado a lado cada desenvolver da sua relação, cada toque, cada sorriso, cada lágrima. Bem sei que este filme é de temática gay mas quem não sente este filme como a bonita historia de amor que é, simplesmente não tem coração.

Voltei para casa extremamente contente porque mesmo com as expectativas altas, não me decepcionou! Para a moça, que ia com as expectativas baixas, foi um turbilhão de emoções, uma nostalgia acolhedora, os sentimentos à flor da pele, se lhe perguntarem, vai dizer-vos que foi como se tivesse vivido esse verão de 83 em Itália!! Vai na volta, era a mosca do Elio!

 

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