Cavalheirismo
16/09/2016
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Cavalheirismo: s.m. Ação, característica, atributo ou comportamento de cavalheiro; qualidade de quem demonstra gentileza, cortesia, civilidade.

(Etm. cavalheiro + ismo)

Quantas vezes não ouvimos dizer, “já não há cavalheiros”?

No outro dia, no metro um jovem ajuda uma senhora a entrar no metro e ganha em retorno um comentário da senhora que depois de um obrigada muito agradecido diz, “que cavalheiro, já não se fazem homens assim, a tua namorada tem muita sorte”. Ele sorri e a senhora fica feliz porque afinal a juventude não está perdida e ainda “se fazem homens como antigamente”.

Na definição, cavalheirismo, cavalheiro é alguém que demonstra gentileza, cortesia e até civilidade agora a minha questão é, porque é que um homem civil, gentil ou até cortês tem nome próprio e definição única. O que é que chamamos a um mulher civilizada e gentil? Mulher!

Está bem eu assumo, a definição como diria uma amiga minha, não refere géneros. Ou seja, uma mulher pode ser “cavalheiresca” só que, a definição de cavalheiresca é, nada mais nada menos que relativa ao cavalheiro:

Flexão de cavalheiresco. Que é relativo ao cavalheiro. i.e. A atitude era muito cavalheiresca.

Já encontrei a discussão das formas como o cavalheirismo é apenas uma forma de machismo, em alguns sites, de cabeça lembro-me do artigo da NãoMeKahlo que denuncia como o machismo se reveste de cavalheirismo ao mesmo tempo que tem de esclarecer que a crítica das bases do cavalheirismo não significam que a gentiliza é errada (criticamos mas quase pedimos desculpa por isso):

Não peço pelo fim da gentileza. Nada mais elegante que gentileza. Um ato cortês pode mudar o dia de alguém. Mas como não refletir, como não ponderar e como não ficar reticente e mesmo contrária ao cavalheirismo, aquele que só se apresenta de um gênero ao outro? Se quisermos ter voz na política, na academia, na família, temos de dar nossos próprios passos sozinhas. E sermos consideradas capazes para tal. Sem presença ou amparo masculino.

Outro artigo que eu acho interessante é da julianamittelbach em que esta feminista pergunta:

Cavalheirismo é gentileza ou é machismo?

O artigo tem os seus problemas mas, ambos fizeram-me pensar na forma como tantas vezes estamos em relação a outras pessoas nestes binómios, o homem e a mulher (sempre cis nestes casos), a ideia do antigamente é que era e do agora não presta e o futuro não parece trazer esperança no caso da ética relacional e no respeito pela outra pessoa.

Cavalheirismo é a palavra obsoleta sobre uma ideia também ela obsoleta da validade de uma masculidade que é em si machista, baseada num sistema patriarcal, sexista e heterosexista, sobre o que é ser um homem a sério, um homem de verdade e sobre o papel da mulher e o tipo de relações e negociações de poder que devem ser mantidas para que tudo funcione até ao felizes para sempre.

O cavalheirismo é também a desculpa para falar de uma igualdade também ela binária e partida em metades. “Então eu pago metade e tu a outra metade” uma ideia capitalista de nos relacionarmos com os outros partidas em metades igualitárias para dizermos que estamos todes no mesmo patamar, pelo menos quando chega a conta do jantar.

Na minha ótica o importante não é falarmos de quem paga ou não, a conta no restaurante depois de um encontro, especialmente quando este ato reafirma a ideia de quem ganha mais e menos, de quem protege e tem o dever, dado que, quer qualquer coisa que a mulher tem para dar… como um investimento. “Pago o jantar para ganhar pontos na conta de quem se interessa para depois receber algo em troca.” Não é nem quem abre a porta ao chegar a um determinado sítio. É sim que construções fazemos sobre o que deve ou não deve ser,  sobre papéis de género e até as ideias distorcidas de igualdades em metades que servem para escamotear diferenças sociais reais, desigualdades que mantemos pela conveniência, que utilizamos de forma sexista e que depois reproduzimos em todos os contextos hetero, LGBT e queer.

A proposta pode ser não utilizarmos mais estas palavras, mas acho que o importante é também não reproduzirmos mais estas atitudes mesmo que, achemos que possam ser formas de afirmarmos as nossas identidades dissidentes e fora da norma.  A reapropriação de termos tóxicos é possível no entanto muitas vezes deslizamos para a reprodução exacta do que estamos a tentar desconstruir. É por isso importante continuarmos o trabalho constante de vigilância.

Não sou cavalheiro, sou pessoa.

 

 

Alexa Santos

Alexa Santos

Depois de anos sem encontrar um espaço que pudesse chamar seu, Alexa criou o queeringstyle. No início uma página de Tumblr, hoje um espaço para pessoas que queiram falar, estar, partilhar. Não sabe muitas vezes parar porque, tudo o que faz vem do centro do peito. Gosta de fazer muitas coisas ao mesmo tempo, por isso é possível que se encontrem algures. Se sim, não deixes de dizer olá.
Alexa Santos

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