Casa do Cais – A série LGBT que precisávamos e merecíamos
29/01/2018
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A primeira série abertamente LGBT em Portugal não chegou sem causar estrilho. E, honestamente, ainda bem que assim é.

Embora choque ver como existe tanto preconceito, racismo, homo e transfobia em Portugal, a Casa do Cais é perfeita em trazer ao de cima aquele preconceito disfarçado do ”até tenho amigos que são” ou ”desde que não o façam à minha frente”. A Casa do Cais não poupa ninguém nem se auto-censura numa tentativa de suavizar o discurso e chegar a um público hétero e cis. Pelo contrário, a Casa fala de forma cómica, sem medos e tabus, do que é ser-se jovem LGBT em Portugal.

Não há eufemismos nenhuns na Casa – desde uma demonstração explícita de como fazer garganta funda em primeiro plano, a uma cena de homofobia pública e gratuita no espaço público, rimos por já termos passado por semelhante, por a realidade ser tão parecida e, por vezes, tão crua que não nos resta senão rir. Como quando a Lara diz ”Olá polícia, vou prender uma preta porque a festa tem pessoas a mais” e não temos dúvidas que, finalmente, esta é uma série que não deixa passar ao lado problemas sociais e que usa o humor como arma de re-apropriação.

CASA DO CAIS 2

O humor toca na ferida, mas nunca pode tocar na ferida dos outros. Numa altura em que no humor português ”já não se pode fazer piadas de nada”, eis a prova de que se pode e bem fazer rir sem ser à custa da humilhação de grupos marginalizados. A série consegue-o porque o sujeito e o objecto do humor são o mesmo, porque não existe voyerismo nenhum. Mesmo nos elementos mais exagerados não deixamos de ver espelhadas muitas das nossas experiências mais banais. A Casa chega a ser uma caricatura exagerada sem ser humor gratuito, talvez por isso tenha incomodado muita gente.

É por isso que a Casa do Cais é o mote perfeito para se falar de discriminação em Portugal. Por mais que queiramos ver representação LGBT desdramatizada e leve, as reacções à Casa lembram-nos que para ocuparmos o nosso espaço precisamos de lutar por ele porque ele não vai aparecer por si. E qual a melhor forma de ocupar o nosso espaço senão mostrarmos quão comfortáveis e orgulhosxs somos na nossa diferença?

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