Ativismos
Cartão de “Cidadão”
05/05/2016
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De repente

As pessoas falam de género

Do género que sabem.

De repente até se preocupam

E deixam a carne no forno

O jogo na pausa

Correm para a janela

E fingem que estão a estender a roupa

“Oh vizinha, já viu esta pouca vergonha!

Não querem o nome no cartão,

Querem igualdade.

Quanta maldade,

No coração.”

 

De repente,

As pessoas até ficam ofendidas

“Oh vizinho, e o jogo de ontem?

Viu as noticias?

Ai, as esganiçadas estão desesperadas

Querem ser representadas

Nem sabem falar de política.

Amanhã querem o que?

Que eu abra a porta aos refugiados?

Coitados!

Não são os refugiados homem, tenha dó.

São os políticos com “O”

É que –

Eles têm que ouvir esta gente,

Que é delinquente.

E é aqui que o povo se mexe

Que a multidão cresce;

Não é pela liberdade,

É pela desigualdade.

E depois gritam e dizem:

Mas as mulheres até já podem votar!

Estão a tentar me ensinar os direitos que eu tenho

Aquio que eu sou –

Como se eu não soubesse já a luta que

A avó da minha avó conquistou.

Mas o povo não se mexe,

A multidão não cresce,

Quando o dinheiro vai para as touradas,

Quando o dinheiro vai para as igrejas.

“Oh vizinha, já não há quem a veja!

O que é que leva ai? Vinho tinto? Uma cerveja?

Ah, é para o marido, joga o Benfica?

Veja lá como é que ele fica,

Não vá descarregar em si.

Ai os meus modos! Que intrometida.

Eu já devia saber que entre marido e mulher não se mete a colher.

Fecham-se os olhos.

É que, cartão único? Não

Eles preferem crime público.”

O Cartão de Cidadão não faz sentido,

Nem sequer é inclusivo.

A população quer democracia,

Mas quando se tenta mudar aquilo que está mal

Dança-se um fado de hipocrisia.

Chama-se Salazar,

Defende-se a opinião fascista.

Eu quero representatividade

Para mim – e para as pessoas a quem o género

Não faz sentido,

Mas que o têm mantido

Porque o português é machista.

As palavras fazem amor mas também matam.

São assassinas.

É o género que não é respeitado: é ignorado,

É a linguagem,

É a abordagem.

No fim somos todos advogados,

Médicos, enfermeiros e engenheiros.

É que – o português está gasto,

Mas finge ser casto,

Porque tem muitos cavalheiros.

Eu não quero cavalheirismo,

Eu quero que se note,

Que é preciso mudar.

É que as palavras também se renovam.

Também se revestem.

É que as palavras são a união –

Fazem a revolução.

As palavras são no fim de contas:

A evolução.

É preciso pedir!

É preciso gritar!

Eu não quero ser recatada, eu não preciso de ser bela

Eu não quero ser do lar.

Eu quero espaço politico,

Espaço social.

Eu quero que a linguagem não seja banal.

Eu quero respeito, a que tenho direito.

E exigi-lo é aquilo que tenho feito.

É o que faz sentido fazer.

E se eu fosse refugiada o que é que eu levava comigo?

O povo amado,

Que anda mascarado,

Que não aceita um não.

E se eu fosse refugiada o que é que eu levava comigo?

Eu não levava o povo amado.

E se eu fosse refugiada o que é que eu levava comigo?

Eu não sou; eu não sei.

Eu estou farta de falsos pedantismos,

Tentativas falhas de argumentação,

Eu estou farta de moralismos.

Eu sou cidadã – não sou cidadão.

Eu posso estar emigrada mas não sou refugiada,

Sou privilegiada – e tenho noção.

Eu estou farta da opinião que é machista

Da soberania que se ri da cidadania,

Que não permite a evolução.

“Oh vizinha! O que é isso no olho?

Ai o Benfica perdeu.

O seu marido ficou fulo com o campeonato.

Coitado, até lhe deixou marcas no coração.

É como daquela vez em que quase a matou,

Se chamou  policia,

E o policia disse que não.

Pobrezinho! É o dever de cidadão.

Bater na Mulher – dizer-lhe que não.

Sabe, é que ele anda preocupado.

Ele viu nas noticias que querem mudar o nome do cartão.

Deve ter sido por isso, vizinha –

Que ele lhe levantou a mão.

 

 

 

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