Camel Toe – a host de um Ball <3
15/10/2016
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Há uns tempos atrás ouvimos falar de umas noites de festa queer/ lgbt/ hétero friendly, que acontecem no Porto, onde o pessoal dança vogue e vai montado, pronto para lacrar. Nós achamos que todas as festas deviam ter battles de vogue e quisemos conhecer mais sobre esta, quem faz a festa, comé a festa, e tudo e tudo. Por isso falámos com a pessoa da festa, a Camel Toe, host extraordinaire, da Groove Ball que decorre no Maus Hábitos, no Porto.

Numa conversa sem filtros, pelo Skype Bruno, de 26 anos e é designer de moda falou-nos de quem é, de como começou esta aventura enquanto Camel Toe e dos Balls.

Enquanto designer de moda, Bruno diz que se interessa principalmente pelo papel que a moda tem na forma como influencia a nossa identidade.

“O vestuário domina a sociedade, a forma como as pessoas interagem com o vestuário, por ser uma coisa tão próxima, que diz muito sobre quem somos e quem queremos ser e, essas coisas todas.”

O que tem tudo a ver com a forma como nasceu a personagem Camel Toe.

“Como homossexual, não sei se deu para reparar, mas eu sou. Como acho que acontece à maior parte dos homossexuais, têm todos uma fase, em que há uma luta muito feia para nos afirmarmos. Houve uma fase da vida muito pesada e apercebi-me que chegou uma altura da minha vida que tinha de transformar essa cena toda negativa em algo positivo e eu sempre fui uma pessoa muito ativista, gosto muito de estar na linha da frente, e de lutar e de fazer as coisas acontecer.

O drag surgiu na minha vida como possibilidade de transformar todas aquelas coisas negativas em algo positivo. Eu sempre fui uma bitch, sempre transformei a energia do bulling, dos insultos, em comédia, então vi no drag a possibilidade de juntar isso tudo e separar duas pessoa, eu no dia-a-dia e a Camel Toe.”

Diz que nunca se sentiu fascinado com o drag que conhecia da cidade do Porto que é o contexto que conhece, que caracteriza como sendo, antigo, old style, principalmente depois de tomar contacto com programas como o RuPaul’s Drag Race e perceber todas as possibilidade. Camel Toe surgiu entretanto, em 2013:

“como piada de Carnaval, apesar de existir em mim há muito tempo, ganhou forma nessa altura, influenciado pelo RuPaul. Percebi que ser drag queen é muito exigente, é preciso ser uma pessoa muito muiltifacetada, é preciso saberes fazer muita coisa e veio ajudar-me a expressar esta criatura que tinha dentro de mim que nem é homem nem é mulher, e acho que muita gente se sente atraída pela estética da Camel Toe exatamente por isso. É tentar destruir completamente os conceitos que as pessoas têm de género porque as pessoas olham para mim e dizem, – é criativo, ultrapassa isso tudo. Transgride os conceitos que as pessoas têm e é isso que me interessa, é por isso que uso barba, as vezes uso peruca outras vezes não uso.”

 

“Eu não quero parecer com nada, quero ser o meu próprio ser independentemente de homem, mulher, whatever.”

E assim acontece a Groove Ball na vida do Bruno. 

“Quando acabei o curso e voltei ao Porto, conheci a Groove Ball, que já existia antes da Camel Toe, inspirada no documentário Paris is Burning, que eu acho que é um documentário obrigatório, fez agora 5 anos. No entanto, não estavam voltados para o drag e na altura ofereceram alguma resistência por haver ainda muito preconceito mesmo da comunidade queer em relação à cena drag. Então eu e um amigo meu, o Gonçalo que é uma das filhas da House of Camel Toe* fizemos a proposta à Groove Ball e a Groove Ball deixou de ser Groove para ser drag. As pessoas adoram. Há pessoas que ficam loucas. que me seguem e tiram fotos. As pessoas começaram a dizer-me que iam à festa só para me ver e a festa começou a crescer depois de introduzirmos o drag. Eu fui convidado a ser o host e agora eles dizem que eu sou a diva deles.

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Bruno assume tolerância zero para com normas de género e homo normatividades. Diz ser importante ser também ativista e visibilizar identidades dissidentes assumindo que há um grande percurso a fazer e também que as dificuldades da dissidência continuam.

Eu não quero ser gay em casa, entre quatro paredes, quero ser gay em todo o lado, ser bicha, bichérrima, bichona.

Na nossa conversa Bruno atribui a falta de vermos mais personagens drag ao preconceito que ainda existe.

“Tenho amigos meus que só recentemente começaram a sair comigo quando eu estou em drag. Ou seja, eles iam à festa mas nunca se aproximavam muito. Ainda existe muito aquela vergonha, ainda existe muito aquela cena do preconceito.”

Sabendo de todas estas dificuldades Bruno diz que a desconstrução de género é importante e devia ser experimentada por todas as pessoas, para não nos agarrarmos tanto à ilusão de indentidades e expressões de género binárias e estanques.

“Todas as pessoas deviam ter uma persona drag, o drag permite, literalmente, seres aquilo que tu queres e se aquilo que tu queres é parecer uma mulher, parecer uma bata frita, parecer uma cadeira, que o sejas, monta-te, faz aquilo, se é pôr maquilhagem, se é pòr saltos, se é pôr vestidos ou calças, isso não interessa, tudo é legítimo no drag. Tudo! O drag proporciona e está a proporcionar-me há três anos, porque a Camel é uma personagem em constante construção, ser aquilo que bem me apetece”

Por tudo isto e mais achamos que toda a gente devia ir à  Groove Ball que é já dia 15 de Outubro no Maos Hábitos e tem direito a Lip Sync. 

Até já =)

*(Houses – famílias drag em que existe uma mother que dá nome à casa e as suas filhas que a seguem e aprendem com ela, como um legado drag, vejam mas é Paris is Burning e ficam logo a perceber)

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